Uma tese do Caravaggio 2.0: Carlos Vidal, estou contigo – mas o Nuno não percebe nada de pintura, pá

Salomé com a cabeça de João Baptista 1607

O Nuno já aqui deixou a boa nova mas apesar de se revelar, uma vez mais, um excelente repórter, mostrou não perceber patavina de pintura na reportagem sobre a defesa da tese de doutoramento do nosso Vidal.  Em primeiro lugar a sua obra não é sobre a “produção de verdade na arte”, como ingenuamente intuiu, mas sobre a “invisualidade na pintura”. Como foi bom de ouvir, ainda que CV esteja relativamente interessado pela verdade, lato sensu, mostrou estar-se a borrifar para a arte em geral, preferindo centrar a sua ciência tão somente na pintura. A primeira grande conclusão, portanto, é que CV se doutorou na interpretação da pintura e nela na capacidade da luz poder esconder ou revelar alguns “acontecimentos”. Longe do postulado romântico que afiança que só a arte é capaz de produzir verdade, CV prefere a modéstia de  Badiou no sentido em que a arte é apenas mais um dos campos de produção de verdade. Quem se deslocou à Reitoria pode então perceber que se “a arte é inapreensível, in-localizável, injustificável e substractiva”, interessa acima de tudo compreender que ela não está refém do seu contexto. Uma obra cuja luz pretendeu revelar a barbaridade de um determinado acto, pode, noutro contexto e com a mesma representação, ser considerada apologética. O contrário também é válido como fica bem patente no exemplo que ilustra esta posta.

Depois da dissertação do nosso Doutor vários factos foram revelados pelos arguentes que tiveram que fazer as suas interpelações sem luz artificial, iluminados apenas por um lusco fusco épico da Alameda da Cidade Universitária. Se é verdade que a silhueta de CV não parecia a de Lenine mas a de Pavel, o filho d”a Mãe” do Gorky, ante o tribunal e o regime que produziu o banho de sangue de 1905, o seu júri foi demolidor: “violentamente abstracto”, disse um Eduardo Batarda que no entanto assumiu que estava apenas “parcialmente preparado” para fazer de júri nesta prova concreta.

Se a divagação de Maria Filomena Molder, ainda que dotada de grande sensualidade, foi talhada para impressionar o Nuno e para colocar nos eixos o debate, a de Lima Carvalho foi duplamente genial. Numa intervenção de apenas cinco minutos, foi capaz de mandar para o museu de antiguidades as cócegas que Lenine havia feito a Molder e explicar, principalmente aos leigos que praticamente encheram o auditório, que a intima relação entre a política e a pintura não pode ser colocada em causa com postulados de ordem psicológica. O que Molder considerou uma “obsessão”, a que simpaticamente chamou de “paixão”, Lima Carvalho teve a graciosidade de desmistificar, colocando a Filosofia bem longe da paleta do Vidal. Enfim, em nome da nossa verdade, não deixou que Molder colocasse a pena de Platão ou Derrida entre os pincéis de Caravaggio e Lenine.

No final tudo acabou bem com a nota máxima, louvor por unanimidade e aclamação.

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