Quantos são três dezenas de milhar?

São trinta mil os que em França se inscreveram com Eric Cantona para retirar o seu dinheiro da banca. Para lá da subtileza da legenda do Público, que até tem dado grande destaque à iniciativa, podem ser substancialmente mais os que hoje vão à banca em sentido contrário. Se cada um tivesse o milhão que Cantona deve ter só na conta à ordem, seriam trinta mil milhões de euros, o que deixaria a banca sem capacidade de pagamento, mas o numerário deve vir a ser bem mais modesto e não deve alterar o nível das banheiras dos tios patinhas da finança francesa. É de louvar que a lenda de Old Trafford continue a voar do meio do estádio, de pés em riste e de colarinho subido, para boca de qualquer provocador de serviço, mas o papel de profeta da “revolução sem armas e sem sangue” é coisa que devia deixar para niilistas com menos temperamento. Se desta vez chamou os adeptos da sua memória para o campo da luta e passou a escolher melhor os queixos dos adversários, somos levados a acreditar que Cantona já percebeu que a resposta terá que ser colectiva e não contra o colega da fábrica. A bem de se tornar um verdadeiro problema para o sistema, algo de que parece convicto, seria bom que também viesse a perceber que quem gere o monopólio da violência no processo de transformação social são precisamente os mesmo banqueiros que desafia até ao fim da tarde. Na pele de agiota, de gendarme ou de capelão, vão continuar a fechar os balcões dos bancos quando faltar liquidez (Argentina, 2001; Islândia, 2009), a tratar a guerra em bolsa e a rezar a missa que já nos levou a perder a fé há muito tempo. No tumulto dos tempos modernos qualquer mudança de vulto vai levar os “donos do momento” a perder as estribeiras. Foi pelo menos isso que nos ensinaram os antigos.

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