Todos perdem, só Cavaco ganha. Agradeçam ao Sócrates, ao Louçã e ao Alegre.

Cavaco prepara-se para ganhar as eleições presidenciais sem grandes sobressaltos e provavelmente na primeira volta. Depois de, pela enésima vez, capitanear os partidos do regime para novo orçamento de Estado e nova salvação nacional, pelo menos para o circo mediático e para agenda da propaganda do centrão, o dom Sebastião montado na presidência, bonaparte do liberal oportunismo e salazar das contas públicas, tem a vitória garantida mesmo que tenha que ir a votos duas vezes.

Cavalheiro de ferro de Boliqueime, Thatcher das nossas ambições, Cavaco vai juntar-se a Passos Coelho, a Fernando Ruas e a João Jardim no poker do governo, dominando em todas as suas esferas. O país prepara-se assim para sair do cadafalso Estado “socialista” para voltar a mergulhar nos grilhões do velho Estado “social-democrata”.

Para alguma esquerda esta ameaça justifica todas as capitulações. O BE cavalga o obscurantismo do cavaquismo mas esquece que o soarismo e os anos de governo PS sempre fizeram mais pelas políticas de direita do que a direita, que sempre se viu atrapalhada na sua própria incompetência. Cavaco, à sua maneira, foi o único capaz de deixar a sua base social de apoio satisfeita, à lei da mama dos subsídios da Europa ou à bastonada. O PS, esse, foi sempre mais inteligente a dar aos seus o que é dos outros, fosse com Soares, Sampaio, Guterres ou Sócrates. Se o processo revolucionário saiu derrotado de Novembro e se o liberal-chupismo proliferou, devem, os situacionistas, mais idas a Fátima em nome do PS do que a qualquer outro partido. Não adianta, por isso, chantagens dissimuladas. Estar com Sócrates ou com Cavaco é a mesma coisa, e Alegre decidiu estar com o seu partido de sempre. A presença do BE na candidatura é, em linguagem popular, um abraço de urso.

O primeiro grande responsável é então o Sócrates – pelo que foi e pelo que deixou de ser. Depois de dois governos catastróficos em todos os planos onde o Estado se intromete na vida, da escola à reforma, do trabalho ao frigorifico, da intimidade ao espaço público, do velório ao crematório, as hostes do Largo do Rato já pensam a médio prazo e preparam, sem qualquer pressa, o regresso ao poder lá para 2018. Não querem ninguém na presidência, não querem governar açaimados pelo BE ou pelo PCP, e estão desertos para ir desfrutar as mais-valias do poder nos doces anos do pousio governativo. Perderão Belém e depois perderão São Bento, mas levará o seu tempo até que percam as Mota-Engil e os Varas que espalharam pelos afazeres privados e pelos negócios do Estado.

O segundo grande responsável é a candidatura de Alegre e os seus grandes arquitectos – o PS e o Bloco de Esquerda. O recente silêncio relativamente à greve geral e o ainda mais recente apelo para que os dirigentes nacionais subam ao palco, não são apenas maus para a sua candidatura (alguém ainda se preocupa com isso?), que está em coma desde a negociação que a gerou. O interessante nessa abstinência é o que isso significa do actual estado do partido-movimento. Na iminência de um descalabro, as últimas intervenções alegristas deixam já no ar o sentimento de que até no interior da candidatura se percebeu que dificilmente se conseguirá superar, com monta, o anterior milhão de votos. Basta ler um dos seus grão-mestres para perceber a tomada de consciência dos erros cometidos e o desesperante vício na derrota.

As restantes candidaturas transmitem uma gritante falta de ambição, reveladora da ausência de alternativas combativas. Nobre não se sobra em ego e a Francisco Lopes fazia-lhe falta algum. Nobre perde porque na verdade não candidata mais do que o seu nome, e o PCP perde porque insiste em apresentar só o partido a votos. A esta altura, se restam poucas dúvidas que, a ser preciso, a Soeiro Pereira Gomes acabará por votar Alegre, começam a surgir dúvidas se chegará a ir a votos pelo menos uma vez.

A culpa, apesar de ser de toda a gente no geral, está visto, é também de alguém em particular, e as diferentes caras da vitória cavaquista começam já a tentar perceber como é que no day-after das presidenciais vão poder camuflar derrotas morais com o canto das vitórias pequeninas. Todos os que perdem preparam o terreno para declarar vitórias parciais e o único que não o poderá fazer é Alegre. Cavaco ganhará porque ganhará as eleições. O PS ganhará porque Cavaco ganhou. O BE vai camuflar a sua maior derrota moral com o seu primeiro segundo lugar no pódio do regime. O PCP, depois de apostar para perder, capitaliza o descontentamento militante com a greve geral marcada para ajudar nos cuidados intensivos da classe operária e acabará, se a segunda volta lhe der essa maçada, por votar em quem tem que ser. Já Defensor de Moura e à sua maneira, Fernando Nobre, são como o FMI – nunca aterraram na Portela e portanto não existem, o que lhes permite cantar vitória apenas com os votos das famílias.

As presidenciais poderiam ter sido outra coisa com uma candidatura unitária, classista e combativa? Podiam, mas não seria a mesma coisa.

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