SETE TESES PARA COMPREENDERMOS A INVISUALIDADE DA PINTURA


ANTOINE COYPEL (1661-1722). Estudo de Cego. sd

1.
Pois partamos.

O invisível é aquilo que existe sempre, mas sempre como condição sine qua non, entre nós, vistos que somos e visíveis (supomo-lo). Nada seria invisível, nem tão pouco classificável, se entre nós, aqui e agora, não fosse coisa existente, verificável, próxima (ligada, mesmo). O invisível tem de estar ou existir aqui e agora, repito, no nosso (digamos) mundo (visível). Como diria Merleau Ponty, adaptando-o eu, invisível é o processo da criação, neste caso da pintura, o que a faz, ou o que nela fazemos (a nossa experiência). Portanto, entre o visível e o invisível nada de substancial existe que os separe, não conheço nenhuma fronteira que os singularize. Sim, quem os pode separar?

2.
O pintor é um cego permanentemente acompanhado por um anjo.
Nunca foi mais do que isso.

O pintor não vê, nunca vê, não pode ver – porque não pode ver aquilo que “habita” (já o explicarei), ele tem de apenas funcionar com a memória e a fé. Lemos no Livro de Tobite (ortografia das edições Pléiade) a cura do pai Tobite pelo filho Tobias, XI, 1-17 (na minha Bíblia das Edições Paulinas de 1960, vem como Livro de Tobias, tendo o pai o mesmo nome do filho; na edição do Depósito das Escrituras Sagradas, de 1928, este Livro não figura, pois durante muito tempo foi considerado apócrifo). O que lemos? Que Tobite foi curado da sua cegueira por Tobias ajudado pelo anjo Rafael. E que viu depois Tobite? O seu filho, claro, mas não é o seu filho aqui que mais conta. O que conta é que Tobite viu aquele que lhe deu a visão, logo nada viu, porque viu a própria visão, a luz invisível. Cegou de novo, poderíamos dizer. Como nós e o pintor. O que vemos num quadro? Um ponto cego: a insuficiência dos olhos, a necessidade do corpo, e todo o corpo é coisa pouca.

3.
O mais importante é que o quadro nunca passa de um somatório de causas perdidas.
Nada se lhe compara. Nunca saberemos se aquilo que pelo caminho se perdeu pôde ou não ser compensado por aquilo que resultou. Mas sabemo-lo, com efeito: não compensa, o resultado nunca compensa o que até lá chegarmos perdemos, porque antes de qualquer quadro existe uma coisa chamada “hipótese do quadro” (que eu chamo “opticalidade”). No quadro, esta “hipótese” é algo já irremediavelmente perdido, e o mundo torna-se por isso menos livre. Perde a potência. Logo, a arte é o seu próprio definhar, definhar-se, definhamento. Quanto mais arte, menos arte.

4.
Creio que só quem não sabe nem saberá o que é um quadro o pode definir
(ou definir a pintura e o desenho, que não são diferentes, como por vezes julga Jacques Derrida). Por exemplo, é incomensurável o ressentimento de Derrida pelo facto do seu irmão ter a faculdade de desenhar (ou melhor, “representar”) e ele, Jacques Derrida, não. Ora, repare-se: só o ressentido pode conhecer e escrever sobre aquilo de que se ressente. Só. O irmão de Derrida que desenha (retratos de familiares) nada sabe acerca de nada, e muito menos de Desenho.

5.
Mas ambos os irmãos estão e são cegos: Derrida é cego de ressentimento, e o seu irmão muito mais: quando desenha os seus retratos de familiares, no momento dessa experiência, nada pode saber de Desenho. Impossível. Logo, toda e qualquer relação com a pintura é uma “relação invisual”.

6.
Os cegos são sempre os melhores artistas plásticos:
Homero, Milton, Borges, Joyce… porque sem desenhar fazem “aparecer” (uma palavra cara a Badiou) o desenho, o acontecimento do desenho. Porque, melhor do que qualquer outro ser, inventaram e desenvolveram o “desenho sem imagem”. E esse é o verdadeiro desenho, a essência invisível de todos os desenhos. Têm um poder infinitamente superior: não precisam de desenhar para que o desenho nos/lhes apareça: são eles os verdadeiros homens livres. Fazem sem precisar de fazer. São os desenhadores desinteressados e sem conceito (poderia ter dito Kant).

7.
Quando um pintor desenha um cego, é aí e apenas aí que ele mostra a verdadeira realidade da pintura:
a memória das mãos nas mãos. Ou o “olho” de cada mão sem qualquer memória (e eu inclino-me mais para esta última hipótese). Veja-se:


ANTOINE COYPEL. Estudo de Cego. sd

(continua)

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