Foi-se com o Bieito (I)

Ainda ontem falava a Diana dos dinheiros que a Câmara de Lisboa gastou na vinda do Papa Bieito (Bento, em português) e já voltamos a falar de Ratz e de obscenidades orçamentais.

Resulta que o pastor de todos vai vir de tourné a Santiago de Compostela, mas não de qualquer modo. Ratz não chega como turista, como chefe do Vaticano ou líder de um culto. Chega como “peregrino da fé”.

Não podemos negar que Bieito é fotogénico.

Eu achava que como bom peregrino chegaria com a sua mochila, a sua garrafa de agua e o seu boné de “Froitas Campelo” (o sol é muito traiçoeiro no caminho). Mas é claro que Ratz é um peregrino, sim, mas ao mesmo tempo o boss da Igreja Católica Apostólica e Românica (e não sei eu se de alguma outra mais) e chega com todas as medidas de segurança e demais trangalladas (microfone de ouro também, suponho). Ah! Agora já estão os esquerdalhos que perdem o tempo lendo o 5dias a levar as mãos aos cornos com sinais de indignação… então, seus coitados? Já falaram nalguma ocasião com um microfone revestido em ouro?? É algo FUNDAMENTAL para uma boa performance religiosa. O Prince pode exigir ar condicionado no camarim (em horas alternas: uma sim, outra não, uma sim, outra não…), um litro de leite de arroz e uma travessa com fruta tropical (para além de muitas outras freakalhices… maldito vegano!) e o Ratz não pode pedir um microfone de ouro? Então, acham que cá somos todos como o Quim Barreiros, que se contenta com um presuntinho e uns chouriços? Acordem para o mundo, faz favor! Acham que no 5dias escrevemos com computadores normais? Nada disso! Não vou desvelar os segredos dos contratos internos do 5dias, eu não gosto de ir falando por aí, mas alguém apelidado Teixeira exige um marine norte-americano para apoiar os pés enquanto escreve. E o dinheirão que gastamos em Perrier-Jouet para a Morgada!!! (Já o António Figueira e eu, mais humildes, somos pagos em vales-desconto do Mini-Preço que nos oferece o Nuno).

O pastor alemão já trabalhou na vendima do Ribeiro.

Bom, retomando a questão do Ratz. O homem vem à Santiago de Compostela (segundo local histórico de peregrinação portuguesa na Galiza depois do Corte Inglés de Vigo) dar uma performance eucarística (já sabem, como um humilde peregrino) e depois viaja a Barcelona. Eu, com toda sinceridade, não lhe tenho nada que criticar ao pastor alemão pela escolha da rota. Compostela oferece muito para ver, mas é pequenina. Em um dia um gajo consegue passar pela Catedral, o CGAC (e passar 15 minutos vendo cada peça para decidir que não se percebe nada), o Panteão de Galegos Ilustres (uma igrejinha onde está soterrada, entre outros, Rosalía de Castro) e quatro coisas mais. (Bom, para sermos francos, o do Panteão está algo difícil. A Igreja de Bonaval, onde se encontra, “retornou” a mãos da Igreja católica que decidiu, ipso facto, passar-lhe um cadeado à porta. Queres fazer uma oferenda a Rosalía ou Castelao? Paga!) (desconfio que ao chefão lhe deixem entrar sem pagar). Não vejo eu ao Ratz indo tomar as cuncas de vinho pela Rua do Franco (não me sejam mal pensados, Franco vem de “caminho franco”) ou as tapas de Orelha de Porco na tasca Ourense nem muito menos aplicando-se ao licor café (droga legal galega) em locais nocturnos como o Avante ou no bar d´As duas. Provavelmente seja para evitar esta classe de tentações gastronómicas (outra coisa não, mas na Galiza come-se) que o Papa fica só 7 horas 45 minutos na capital da Galiza para depois viajar a Barcelona (onde há mais museus e tal e onde Ratz passará quase um dia inteiro antes de voltar pra casa lavar a roupa da mochila e trocar boné de “Froitas Campelo” pela mitra vaticana).

O problema (problema? como se o governo galego tivesse algum problema com isso)! chega quando saem as cifras da factura que papamos com o pastor alemão. A visita de Ratz tirava no seu primeiro orçamento 4 milhões de euros das arcas galegas. O que não me negarão que é uma pipa de massa, sobretudo se temos em conta que a Xunta (governo galego) não organiza nem paga a seguridade do evento.

Mas como estamos em crise (de valores não, por suposto, quero dizer económica) e o governo galego já disse que não há dinheiro para cousas supérfluas recortou o destinado num milhão de euros. Fica então a visita pela pechincha de 3 milhões de nada. 6.451 euros por minuto. Temos sorte, pois, que Ratz venha mandar uma rapidinha (eucarísticamente falando, não me pensem mal). Se no canto de uma missa o pastor alemão dá duas, ter-mos-ia que vender as Ilhas Atlánticas aos alemães…

Os ingleses são uns malucos...

Mas cá chegam as comparações, que já sabe todo o mundo que são odiosas. Resulta que o governo da Catalunha (fazendo gala do tópico que diz que os catalães “gerem” melhor a coisa das despesas) paga 1.8 milhões para uma visita de quase o triplo de tempo. Mal. Muito mal. Evidentemente os galegos saímos ganhando em parolice (como já sabiam as pessoas que andam a ler os meus textos, a parolos não nos ganha ninguém). Os jornais esquerdalhos andam com as mãos nos cornos gritando que o da Galiza é uma despesa intolerável. Meus amigos: acham que não se vai notar no serviço? Parece-me evidente que uma visita papal na que concentras 6.451 € por minuto alcança um patamar de santidade bastante maior que outra que gastas menos da metade no triplo de tempo. Sabem quanto poke-poder pode ser concentrado em cada reza, em cada amém? Mas a sério pensam que um pater noster (ponhamos que, contando com a idade do papa, a concentração do momento e a necessária solenidade do assunto pode chegar aos… quatro minutos?) de 25.804 € não é glória celestial? (Já ora, estou vendo as caras de pânico dos organizadores no caso que os fieis peçam um bis…). Evidentemente, quando chegar o dia final e Deus passe contas e inicie as burocracias todas… quem acham que vai em primeira classe para o Paraíso? Os governantes catalães, forretas que não souberam abrir o bolso para o que se deve? Por favor! Isto é um murro acima da mesa dos governantes galegos. A parolinhos não nos gana ninguém, mas lá no paraíso vamos ter churrasco e mais gaitadas (pelo menos os nossos líderes).

Mas o melhor não é a questão do dinheiro investido. Isso poderia parecer normal em qualquer país, uma medida desaforada de despesa pública (há tantas…). Não, meus amigos. Galiza is different. O melhor é que o governo galego ainda não sabe como vai gastar esse dinheiro. Não é uma coisa assim tão esquisita, não creiam. Acaso são adivinhos na Xunta? Que acham, que já têm as facturas antes de fazer o serviço? Tentaram já contratar um empreiteiro e pedir facturas adiantadas? Impossível! Há que esperar a gastar o dinheiro e depois contamos quanto foi a cena… Planifica-que? Orçamenta-que? Isso são coisas menores! Tu põe aí 3 milhões que bem se gastam, oh!!! Olha… pra já, 1´5 milhões na retransmissão do evento que vai para a TVG (televisão de Galiza), que é algo que controlamos e onde podemos “colocar” gastos. O resto já se verá… põe aí no informe “logística”, que vem do latim “logos”.

Papa com accesórios da Guardia Civil, já nas lojas.

Efectivamente, 1´5 para a TV (com ecrãs gigantes que já quereria para si o Bono) e outro tanto para “logística” (acho que é interessante que voltemos ressaltar que as despesas importantes são pagas pelo governo espanhol). Acham demasiado para uma visita que não chega às 8 horas? E não vão achar!… é que os senhores são uns ignorantes e Portugal um país sem sensibilidade nenhuma. O impacto mediático que a visita do Papa traz consigo não cabe numa folha de Excel! Milhões e milhões de pessoas estão pendentes das visitas papais em todo o mundo! (por isso podemos nomear as últimas 6 visitas do Ratz sem hesitar nem pensar um instante nem consultar o Google). Um informe requerido pelo governo galego e publicado na semana passada (um momento… se é um informe para avaliar a importância, porque digo eu que um governo não tira informes a posteriori para justificar as suas acções, qual o motivo para que tenha saído só a semana passada?) fala de um impacto económico (esperemos que positivo) de 31 milhões de euros em turismo (isto é, milhares de cristãos que vêm de todo o mundo para ver ao Papa nessas sete horas e tal… não sendo que essas pessoas prefiram ir ao dia seguinte a Barcelona, que tem maior oferta em alojamentos) (em Compostela os hotéis multiplicaram por 10 os seus preços para esse dia). O dos informes encarregados por o governo galego dava para trinta postas… mas eu são de lágrima fácil e não posso começar essa tarefa que volto aos anti-depressivos.

Por se fosse pouco, que há muito desconfiado, o Partido Popular (que governa na Galiza) afirmou que uma empresa independente elaborará um informe sobre as despesas do evento e a sua incidência. Como sei que não todas as pessoas que andam no 5dias sabem galego, passo a traduzir o sintagma: Empresa independente que elabora informes quer dizer uma empresa que vai elaborar um informe independentemente de qualquer lógica, regras matemáticas ou relação com a verdade. O resultado do informe, que já adianto, é que o dinheirinho foi muito bem gastado, que o Papa ficou maravilhado com a Galiza, que a taxa de natalidade se disparou um 1´4% nesse dia e que o presidente galego está mais atractivo que nunca. E que a ver se podemos parar com isso dos abortos e os casamentos homossexuais, que o menino Jesus chora.

Deixo para uma seguinte posta as reacções populares à visita do pastor alemão.

Por certo, e falando disto da austeridade: O governo galego renúncia à utilização do software livre para largar 4´7 milhões (oh milhões!) ao amigo Gates. (E não percebo o motivo, se já vimos que os benefícios da visita do Papa não cabem numa folha de Excel…)

Por certo (e 2): Os galegos, essa gente… Já há vizinhos que moram perto de onde vai passar a comitiva papal que oferecem aos visitantes mais prestigiosos as varandas das suas casas por um dia a cambio de 1.500 euros (negociáveis, eh? Que a coisa pode ficar em 1.200). Se isto não é luta de classes, que venha Bento e o diga… (que país! que país!!!)

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