Mário Dionísio contista, Mário Dionísio poeta

           

Conhecer de maneiras muito diferentes o Mário Dionísio contista e poeta: a leitura de trechos de contos pelo actor Antonino Solmeramanhã; no sábado um espectáculo de pintura ao vivo, leitura ao vivo e música ao vivo a partir da poesia de Mário Dionísio, com Bárbara Assis Pacheco no pincel e seus convidados músicos, leitores e cantores dSCI, João Pacheco, Miguel-Manso e os meninos da escola do Castelo com a professora Ariana. A entrada é livre, na Casa da Achada. Continuo a minha batalha pela «poderosíssima arma de cultura». E dedico estes posts a quem está sempre a pôr a arte fora da política e da vida.

«Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado, come­çavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmente mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da mala e pas­savam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra per­dera uma luva na confusão. Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olhavam umas para as outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignidade que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.»

Mário Dionísio, «Assobiando à vontade», in O Dia cinzento e outros contos, Europa-América, 1967

Une pluie de taureaux est tombée sur la ville
Comme les autres peu à peu j’ai accepté mon sort
en creusant dans la chair l’ennui de mon asile

Tout est tranquille enfin chez moi   Enfin tout dort
Les souvenirs et les désirs et les remords
tout doucement s’étiolent

Adieu les rêves et les colères qui s’envolent
sans amertume et sans regret

Mais sous la peau de tout mon corps
dans les replis les plus caches comment le taire
le feu qui dort est éveillé

Mário Dionísio, Le feu qui dort, Europa América e Editions de la Bâconniêre, 1967

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