OS 102 ANOS DA “COISA DO POVO”

Manuel Buíça 1876 – 1908

Cavaco presta homenagem ao Rei Dom Carlos, na inauguração da sua estátua em Cascais.

Imagem roubada ao Portugal dos Pequeninos

O centenário da República vem com dois anos de atraso pois deveria ter sido comemorado na data do regicídio. Está também longe de celebrar cento e dois anos de vida. Na verdade, somando o tempo do Terreiro do Paço e da Rotunda aos curtos meses do PREC, está longe de ter deixado, sequer, o cueiro.

Durante estes dois períodos podemos não ter forjado a República com que sonhavam os idealistas mas estávamos seguramente no bom caminho. A República já  nasceu em Fevereiro, em Abril e em Outubro, mas foi sempre assassinada em Novembro. O que viveu no seu lugar foram três regimes estranhos onde as cortes foram sempre substituídas por novas cortes, adornadas com acepipes burgueses, fascistas ou plutocráticos.

Saudemos a memória dos seus ideais e dos seus heróis, continuando a luta. Que um dia a sua festa seja de facto o festim do povo e não a eterna mutação da monarquia.

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20 Responses to OS 102 ANOS DA “COISA DO POVO”

  1. Leitor Costumeiro diz:

    Também o tenho dito…

  2. Índio Joe diz:

    Muito bem, Renato Teixeira… É assim mesmo.
    Poderia, ao menos, ter posto uma fotografia do Buíça vivo e não morto, pois um invólucro é meramente um invólucro.
    Porém, o espírito do Buíça vivo, como também do Alfredo Costa, continuou (e continua) a animar muita gente, até à proclamação da República (e não só).

    Foram dois homens extraordinários, porque fizeram aquilo que tinha de ser feito…

    Ontem, durante as comemorações, ainda aguardei por um desses imprevistos, em que um anónimo qualquer, fosse ter com o nosso primeiro-ministro e lhe pregasse tremendo susto…

    Infelizmente, as nossas muitas indignações só vão dando para o futebol… e para fechar algumas escolas a cadeado…

    Toksa!

  3. Abilio Rosa diz:

    Ainda ontem em conversa com um antigo militar, ele disse-me: era preciso uma nova carbonária para limpar o sebo a meia dúzia.

  4. Renato Teixeira diz:

    Índio Joe, a fotografia do Buíça em tempos de comemorações é precisamente esta, e deve ser seguida pela outra, com D Carlos e o D Cavaco. Não há reparos que aceite a este alinhamento.

  5. Morcego diz:

    A minha singela homenagem aos carbonários que se bateram em armas pelos ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

    Porque há sempre quem não se conforme e, com raiva, faça o que tem que ser feito.

    http://www.youtube.com/watch?v=d60D6vZo7QY

    Viva Buiça, e viva a República!!

  6. Renato Teixeira diz:

    Morcego, grande hip-hop, melhor vídeo e ainda melhor homenagem à República do Buíça. A promover a posta, definitivamente.

  7. Niet diz:

    Caríssimo: Texto muito poético. Junto-me a esta inolvidável Homenagem com a reprodução de um texto de Aquilino Ribeiro, o enorme escritor e carbonário, amigo de Buiça, de Luz de Almeida e Alfredo Costa, o trio do regicídio incomparável!
    Aquilino Ribeiro sobre Manuel Buiça, o photomaton revolucionário: ” Os seus modos espalhafatosos seriam detestáveis se não houvesse a contrabalançá-los uma Grande e Sincera Franqueza, da mesma forma que ” aquele dar-se Todo ” torna-lo-ia suspeito se o seu carácter se não descobrisse até aos planos mais remotos. Muito mais que a identidade de Ideias haviam-no imposto ao grupo revolucionário do café Gelo, que paradoxalmente via o Mundo através de Nietzsche e dos pensadores russos, as virtudes do homem instintivo, generosidade,espontaneidade, poder de estimar e admirar, ao contacto dos quais o homem de pensamento se desvanece e toma estima “.In ” O atentado do 1° Fevereiro de 1908(Regicídio) “.
    Egalité et Liberté. Niet

  8. Manuel Monteiro diz:

    O Alberto Tonto Jardim pede uma IV República.
    Nem esta república das bananas, nem uma 4ª fascista!
    REPÚBLICA POPULAR, POIS CLARO!
    Manuel Monteiro

  9. o da boa-fé diz:

    Gostei!

  10. Nuno diz:

    Até estou a estranhar a falta de comentários dos ofendidos dos costume… mas enquanto não vêm:
    O REI MORREU! VIVAM OS REGICIDAS!

  11. Índio Joe diz:

    Hombre, a escolha é sua. Eu, por mim, prefiro o Buiça e o Costa vivos.

    Para ficarmos amigos, tome lá esta pérola. É uma citação do livro “Revolução Portugueza” de Jorge d’Abreu:

    «Um episódio succedido na tarde do dia 4 de outubro dá bem a medida do espirito de honestidade com que os revolucionarios sahiram então á rua combater a monarchia:
    N’uma das avenidas de Lisboa modernamente rasgadas, á hora em que a artilharia da Rotunda despejava sobre a de Queluz os seus tiros certeiros… Um leiteiro que enfiava transido de medo para o portal de uma casa rica é abordado por um popular armado que o intima a vender-lhe uma porção de leite. O aspecto do revolucionario é de metter pavor: na face ennegrecida lampeja uma decisão inquebrantavel; n’uma das mãos agita uma pistola de grandes dimensões. O leiteiro estaca a tremer, disposto já a abandonar toda a mercadoria, comtanto que lhe poupem a vida. O revolucionario manda encher uma medida de lata, mas, quando se dispõe a beber por ella o liquido que o ha de reconfortar, o leiteiro observa-lhe que a policia não consente tal coisa, que isso é… contra a postura.
    – A policia… Mas onde está ella? replica o revolucionario n’uma gargalhada escarninha.
    E d’um trago sorve o liquido. O outro, morto por se safar, assim que lhe restituem a medida de lata, prepara se para uma correria desenfreada. E’ de agradecer ao Deus creador o libertar-se do transe afflictivo apenas com o dispendio d’uns decilitros de leite…
    Mas o revolucionario não o consente. E, empunhando de novo a pistola com gesto ameaçador, obriga-o a acceitar em pagamento umas moedas de cobre. Comprehende-se: esse homem não fazia a Revolução para perpetuar os crimes da monarchia.

    Quantos dos servidores do antigo regimen não procederam de modo diverso? Quantos não beberam o leite, não o pagaram e até metteram na cadeia os respectivos vendedores só pelo facto de lhes exigirem o pagamento? Quantos?…»

    Gostou? Quer mais? E que tal agora um pequeno excerto de uma conversa com José Júlio da Costa, o homem que matou Sidónio Pais?
    Também tenho para a troca… mas isso é quando o meu amigo vier ao meu “tipi” fumar o cachimbo da paz.

    Wopila!

    Toksa!

  12. Pingback: cinco dias » A melhor homenagem aos heróis da República

  13. Renato Teixeira diz:

    Niet, não foi minha intenção esquecer os outros dois do trio. Noto que deixou cair a fraternidade. Lapso ou algum problema com a tríade?

    Manel, que essa RPP não siga todas as pisadas da RPC. 😉

    Nuno, desfrute. O caso é tão escandaloso que até essa tropa deve estar indignada…

    Fumemos pois, Índio Joe. Bom contributo.

    Ainda bem que gostou Boa Fé… assim fico com o pescoço a salvo.

  14. Manuel Monteiro diz:

    Renato
    A RPChina fez coisas grandiosas. Depois transformou-se na coisa indigna que é hoje, mas tanto a revolução chinesa como a Bolchevique tiveram realizações onde a humanidade progressista se revia.
    Falhou? Pois vamos lá, e aprendendo com os erros, construir novas repúblicas populares…
    Manuel Monteiro

  15. Niet diz:

    R.Teixeira, meu caro:Thanks pela pré-correcção das gralhas. Para quem- como eu- costuma ler todos os anos ” A Casa Grande de Romarigães “, foi bálsamo o seu gesto. Não apago o simbolismo e a convergência. Mas destaquei o que me parecia mais polémico e difícil de valorizar. Como diz o C.Castoriadis, perspectivando a degenerescência da Revolução Russa, o ” partido não deve ser a direcção da classe revolucionária, nem antes, nem depois da Revolução: nem antes, porque a classe não lhe obedece e, por acréscimo,ele só se desenrascaria dirigindo uma minoria( e dirigindo-a num sentido relativissímo…); nem depois porque o poder proletário não pode ser o poder de um partido, mas o poder da classe enquadrada nos seus organismos autónomos de massa “. Boa perspectiva para analizar o falhanço da Implantação da República? Palavra endereçada aos especialialistas, claro! Salut! Niet

  16. Renato Teixeira diz:

    Era disso tudo que falava MM. Abraço popular. 😉

    Caro Niet, é seguramente uma prioridade a aprendizagem de como fazer uma revolução que não se burocratize. Venha ela a ver se as próximas rondas correm melhor do que os protótipos. Saúde pois.

  17. Niet diz:

    Caro R. Teixeira: Vou responder-lhe sobre a origem, os limites e as
    perversões da Burocracia, política e social.
    Amanhã, ok? Salut! Niet

  18. Niet diz:

    Caríssimo: O prometido é devido. Há duas abordagens possíveis para tentar perceber o fenómeno totalitário chamado Burocracia. Ou seguir os cânones da Direita expressos por Daniel Bell e Michel Crozier ou acolher com coragem e transparência as análises -histórico-filosóficas – de Cornelius Castoriadis. Eu defendo esta segunda opção: a mais racional, a mais livre e revolucionária, inigualável até hoje. E foi Staline que confeccionou o paradigma monstruoso da Burocracia, ” o monstro”, como o classifica Castoriadis, que é” uma mistura de partido-exército, de partido-Estado e de partido-Fábrica”. Mas, sublinha Castoriadis, ” não foi a revolução que, na Rússia, produziu o totalitarismo, mas o golpe de Estado do partido bolchevique “. Apesar de ser um ” fenómeno infinitamente pesado e complexo “, Castoriadis aponta ainda que “, se pensarmos nos gérmens da ideia totalitária, impossível de menosprezar em primeiro lugar o totalitarismo imanente do imaginário capaitalista: a expansão ilimitada do ´controlo racional `e a organização capitalista da produção ; a que se segue a lógica do Estado moderno, a qual, se se deixa atingir os limites, tende a implantar a regulação total “. Há uma análise muito interessante e pertinente que, também avançada por Castoriadis, sinaliza o início do totalitarismo soviético no facto dos bolcheviques terem feito o contrário daquilo que tinham prometido uma vez instalados no poder… Por agora, ficamos por aqui. Liberté et égalité! Niet

  19. Niet diz:

    R.Teixeira, meu caro: No cruzamento de leituras sobrepostas, esqueci-me de referir um texto-base de C. Castoriadis- que ele sucessivamente qualificou através dos anos- que se chama,” O Papel
    da Ideologia Bolchevique no Nascimento da Burocracia “, introdução ao livro de Alexandra Kollontai, ” A Oposição Operária, 1921 “, publicado há muitos anos pela Afrontamento. Ora, aqui se joga a caracterização essencial da forma de poder burocrática: ” A formação de uma burocracia como clique gestionária da produção( e dispondo inevitavelmente de privilégios económicos), constitui, práticamente desde o início,a política consciente, honesta e sincera do partido bolchevique, Lénine e Trotsky à cabeça. (…) Nesta substituição do poder do Partido ao poder da classe operária, escrevia Trotsky na altura,” não existe nada de fortuito, e mesmo, no fundo não existe lá nenhuma substituição…”.(…) O poder incontestado dos directores de fábrica, sob o único controlo( que tipo, na realidade?) do partido. O poder incontrolado do partido sobre a sociedade, sem controlo algum.Ninguém tinha força para evitar a fusão desses dois poderes, a interpenetração das duas cliques que as incarnavam,tornando inamovivel a burocracia dominante que se sobrepunha em todos os sectores da vida social “. Salut! Niet

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