“Sejam MÉDIOS e APENAS DECENTES, sejam como eu, o deputado Miguel Vale de Almeida”

Sim, só hoje, quatro ou cinco dias depois, me lembrei de um dos mais míseros e desgraçados posts destes últimos dias ou meses: o de Miguel Vale de Almeida (quem???), intitulado “Uma república decente”, no Jugular de sempre. E lembrei-me só agora disso ao ler uma última frase do meu recorrente Estaline, num texto de crítica aos mencheviques; diz o georgiano acertadamente: “Também é certo, por outro lado, que cada um se queixa do que lhe dói”. Nem mais caro Estaline, nem mais, até porque raras vezes vi um auto-retrato tão perfeito: nada a ver com Portugal, tudo a ver com o escriba da coisa (post?, texto?) que se refere a Portugal.

Precisamente por isso, porque fala de Portugal como coisa abstracta e sem sentido. Ora bem, lá sentido não tem, a coisa Portugal, mas o problema não é este: é que o sr. Vale de Almeida esgota na sua caracterização desta comunidade que tem o nome “portugal” o sentido que têm as individualidades ou singularidades que nesta coisa ou lugar habitam, e têm um Vale de Almeida como representante (ena!). E o que diz a personagem? Isto: que Portugal nada tem de espectacular, monumental ou culturalmente (não, Vale de Almeida não é certamente espectacular); que isto é um lugar “intermédio”, que quem assim não pensa ainda vive de nostalgia salazarenga. Como?? Então não foi o senhor de Santa Comba-Dão que nos ensinou que há “alegria na pobreza”, “orgulhosamente sós”, e pode haver dignidade e “decência na pobreza” (e note-se que este “deputado” usa o sentido fascizante e desmoralizante da palavra “decência” mais de três ou quatro vezes)? Ainda diz o “socialista” que Portugal devia ser APENAS uma “república decente” com “praias porreirinhas”, etc.

Bom, com humor ou sem humor imagine-se que eu me virava para os meus alunos de Pintura e lhes recomendava: não façam nada de muito bom, não façam nada de muito mau, apenas pensem em coisitas decentes que não vos envergonhem, nem a faculdade nem o nosso pequeno país, em termos de qualidade. Que tal? O que diriam de mim? E não é o “deputado” também professor? É? A sério?

Então, alguém já pensou num Fernando Pessoa ou num António Damásio (valham o que valerem, não interessa agora) a dizerem para si mesmos, “vou criar ou realizar algo decente, um texto, um livro, uma investigação acima de tudo decente”? Alguém já pensou numa coisa dessas? Dirá o “socialista” que a sua análise é “globalizante”. E o que é isso? O que é uma análise global da nossa dita mediania? É uma coisa sem pessoas? E, desse modo, que fazer caro deputado se as pessoas não tiverem essa meta da “decência intermédia”?

Com tudo isto, acho que o Jugular e o Partido Sucialista encontraram o seu pensador-Floribela: “Não tenho nada e tenho tenho tudo / Sou rico em sonhos e pobre pobre em ouro / Do que me importa se todo esse dinheiro / Não compra amigos, estrelas, o amor verdadeiro”. Tenho o que tenho, não é muito não é pouco, mas é uma coisa honrada e decente. Vou ensinar isso na minha escola: a DECÊNCIA.

“Uma república decente”

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