Continuando com o Primeiro dia do curso

Esta posta tem a ver com uma conversa que se iniciou nos comentários da minha última posta (na qual abusava da vossa paciência e desabafava a vontade). Incluí um fragmento em galego e aquilo levou a uma troca de ideias sobre variedades linguísticas, dialectos e demais palavrões.  Como é uma coisa que  me interessa bastante, volto a abusar da vossa paciência com outra posta, desta vez sobre língua.

A posta da que parte tudo é esta:

http://5dias.net/2010/09/20/primeiro-dia-do-curso

Sou um apaixonado das línguas mas tenho que confessar que o caso do Mirandês não o tenho tratado em profundidade. A minha ideia inicial (como linguista estrangeiro alheio a considerações sociais ou políticas locais) é que o Mirandês pertence (dentro da família das línguas romances peninsulares) à sub-família do Astur-Leonês (junto com o Asturiano, mal chamado Bable no passado, e o Leonês). Na hora de nos expandirmos (porrada mediante), fomos todos (catalão, galaico-português e castelhano) pro sul até “fechar os territórios”. Os coitadinhos dos outros três ficaram lá, pequenitos eles. Com o avançar da política, as línguas antes citadas já passaram por diferentes fases, até a situação actual (algumas com oficialidade reconhecida, outras nem por isso). Essas fases são resultado de questões políticas. Sempre. Isto que cá explico é ao que me levou a minha formação académica (à qual, sejamos sinceros, nunca liguei muito mas que me tem proporcionado uma série de certezas) (como gosto sempre de confronta-las e acredito na dúvida como percurso, peço a eventuais leitores da posta que sejam especialistas no tema que comentem).

Agora vou pegar no comentário do Francisco, já que acho que diz coisas bem interessantes. (E outras que é preciso matizar):

A maioria das terras da raia devido ao isolamento criaram formas diferentes de falar o português.não é falar mal o português é uma forma diferente e criativa de falar o português.o barranquenho é uma delas. nunca passou “pela cabeça” passar a ser outra língua que não o português.

1.- As áreas onde há contacto de línguas criam novas variedades. Acontece sempre. Aconteceu com o latim e as línguas que se falavam na península, aconteceu com os crioulos e acontece com o Jafaikan (que, pelos vistos, é no que vai acabar o inglês). Mas atenção, isto não acontece por causa do isolamento. Muito pelo contrário. É (como o carinho) uma questão de contacto. Duas línguas em contacto e numa situação de igualdade criam novas variedades idiomáticas (em situações de desigualdade também, mas uma delas tende a desaparecer em detrimento da outra. Daí a necessidade de políticas linguísticas concretas e correctas). O isolamento provoca o contrário, pois sem contacto com outras  a língua tende a manter-se intacta (sofre variações, mais as naturais da própria língua com o passo do tempo). Se não fosse assim, teria sido impossível  recuperar línguas tão isoladas como as Papúes e relaciona-las numa família (seriam tremendamente diferentes umas das outras).

2.- Não é, como o Francisco bem aponta, uma forma de falar “mal” o português. Mas também não é uma forma “criativa”. Segundo a sua tese, estamos diante de simplesmente uma variante (tentemos retirar os adjectivos, assim será uma descrição muito mais simples e objectiva) do português, tal como o Barranquenho. A diferença que o Francisco aponta é que o Barranquenho “não quer” ser outra língua diferente do português. Estamos perante duas variedades das quais uma tem vontade de ser diferente. Não me ficou claro se são os falantes os que querem esta categoria própria ou é coisa de algum sector de poder local. A clarificação deste ponto seria importante para a análise… espero que nos comentários se resolva.

2.2.- A língua portuguesa não existe. (Momento para que a gente grite e procure em internet se o país foi à falência linguística e, com sorte, pânico entre os professores catedráticos). O que existe é um conglomerado de variantes (em base ao território mas também em base a grupos sociais) das quais se escolhe (ou inventa) uma para exercer de variedade standart. Acontece com todas as línguas (por isso passamos a vida aprendendo inglês e quando nos largam em Kilkenny, Texas ou no Soho não entendemos a ponta de um corno até nos acostumarmos à variedade local. O mesmo com o português dos alemães que foram visitar Olhão e achavam que estavam em Euskadi). Esta escolha é política, obviamente. E esta variedade não é nem melhor nem pior que as outras. É, simplesmente, o standart. O que o Francisco diz é que o Mirandês não se separa tanto do standart como para ser uma língua própria.

Bom, vou-me molhar: É o mirandês uma língua própria? A mim (que venho de fora e não tenho negócio no assunto) parece-me que sim. Tem traços de evolução (desde o latim, pois não esqueçamos nunca que mirandês, galego, espanhol, português são, em origem, “latim mal falado”) que são alheios ao português e que são marca de identidade na família astur-leonesa. Pelos vistos o Barranquenho é uma adaptação fonética influenciada pelo espanhol sobre uma base gramatical portuguesa… estaríamos perante duas situações diferentes (vou tentar a metáfora gastronómica porque o futebol, metáfora de preferência, levanta-me ultimamente dores de cabeça): Temos uma pizza quatro estações em massa fina à qual acrescentamos depois um topping de queijo (barranquenho) e uma pizza quatro estações em massa fofa. As duas são pizzas  (línguas românicas filhas do latim), quatro estações (peninsulares e ocidentais), mas uma é massa fina (família galego-portuguesa) e outra fofa (astur-leonesa). O que compramos na loja é o pacote base (4 estações. O Português standart) e depois metemos queijo por cima (e temos uma variação ou dialecto). O que compramos na loja é outro produto diferente mais relacionado (mirandês), ao que também podemos acrescentar diferentes ingredientes (desconfio que o mirandês tenha dialectos). Bom, não faço a mínima ideia se a metáfora que acabo de cozinhar funciona ou não… mas fiquei com fome! Ah! É importantíssimo explicar que, neste caso, não há produtos melhores do que outros: todos servem para o mesmo e cumprem a sua função de maravilha. (ah! também devemos criar a convenção que pizza massa fina e pizza massa fofa são produtos diferentes… não me chegou algo melhor à cabeça no momento).

quanto ao “mirandês”está escrito e não se muda qualquer letra ou vírgula.quanto ao galego nada a dizer

(volto citar ao Francisco)

Salvando a parte de decidir se Mirandês é língua ou engenho, houve uma coisa nos comentários do Francisco que me chamou a atenção. A sua ideia sobre o mirandês é clara e inamovível: é uma variedade do português. Ora, do galego não tem nada a dizer. Espero bem que seja por respeito a quem isto escreve (mas tal não é necessário). Qual o motivo para o galego não ser uma variedade do português? (já ora: qual o motivo para o português não ser uma variedade do galego?). É este de carácter linguístico? Vejo difícil que o Francisco tenha resolvido uma questão que na Galiza ainda não foi resolvida e já levam décadas à porrada. A ocupação favorita dos nossos especialistas é atirarem-se coisas à cabeça (e não falo de artigos, falo de cadeiras, cinzeiros, garrafas partidas…) por culpa da integração ou não na família linguística do português. Entre ser variedades do mesmo idioma ou idiomas que já foram um e que evoluíram por separado sendo agora impossíveis de se reintegrar há toneladas de canetas, artigos, livros e postas escritas. Com argumentações linguísticas e com argumentações políticas.

Então, qual é o motivo para não meter o galego no saco? Só pode ser político: países diferentes, línguas diferentes. (Revirando isto, vemos o caso do Mirandês: mesmo país, mesma língua). Mas as línguas são como os pássaros, e pouco entendem de fronteiras.

A minha língua (ou variante da nossa língua) já foi considerada um dialecto. Uma simples variante… do espanhol. Também foi considerada um tipo de defeito da fala (lástima não existirem logopedas naquela época… teriam feito fortuna). Hoje em dia só conseguem manter esta ideia certos “opinadores” da extrema-direita mais ignorante. Análise científica em mão, não pode ser sustentada tamanha parvoíce. Mas isso não foi motivo para que fosse ideia comum do século XV ao XIX (e alguns resíduos humanos no XX e XXI). Hoje em dia afirmamos que é língua distinta do espanhol e que partilha família com o português, em base a uma série de critérios de carácter gramatical (que não vou citar porque esta posta está a ser uma seca e os meus colegas do 5dias estão a fazer uma reunião para me expulsar) que o mirandês não partilha. Quando Rosalía de Castro (que sei que o Francisco conhece) começa a escrever em galego a finais do XIX há quem a acusa de querer diferenciar-se (entre outra série de coisas mais horríveis com as quais levou, e leva, na cabeça), de ter motivações políticas (como se fosse possível fazer qualquer coisa sem ideologia) e demais. Tudo isso com base, claro, em considerações políticas e prejuízos.

Quando falamos de línguas (e eu venho de uma situação linguística muito complicada, lá na Galiza, onde os condicionamentos políticos podem acabar com um idioma) devemos separar muito claramente os critérios científicos dos políticos. As línguas (formadas por processos linguísticos) são catalogadas e estruturadas em base a critérios políticos. É inevitável. Ora bem, quando falemos sobre elas devemos vigiar os nossos prejuízos, detecta-los e livrar-nos deles.

NOTA: A posta foi escrita passando por vários teclados configurados para diferentes países… sei que é uma vergonha ter tantas faltas de ortografia numa posta sobre língua mas foram as circunstâncias. Irei corrigindo conforme as localize.


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