O escândalo dos preços dos combustíveis

Os preços sem impostos, portanto aqueles que revertem para as empresas, dos combustíveis em Portugal são sistematicamente superiores aos preços médios da União Europeia, apesar dos salários em Portugal serem cerca de metade dos salários médios da UE27. E essa diferença não tem parado de aumentar atingindo em 2010 valores inaceitáveis. Apesar disso o governo e a chamada Autoridade da Concorrência mantêm uma total passividade.
De acordo com dados da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia, em 2008, a média dos preços mensais da gasolina 95 sem impostos (o preço que reverte para as empresas) em Portugal foi superior ao preço médio da UE27 em 3,2%; em 2009, essa média aumentou para 5,3%; e, em 2010, considerando os 4 meses iniciais do ano, que são aqueles de que já se dispõe de informação, essa diferença, para mais, atingiu já 5,9%. Portanto, entre 2008 e 2010, a diferença percentual de preços subiu em 84%. Em relação ao gasóleo a situação é ainda mais
grave. Em 2008, a média dos preços mensais do gasóleo, sem impostos, portanto o preço que reverte integralmente para as empresas, em Portugal foi superior ao preço médio da UE27 em 2,9%; em 2009, essa diferença para mais aumentou para 6,5%; e, em 2010, considerando apenas os 4 meses iniciais do ano, que são aqueles que já se dispõe de informação, essa diferença atingiu já 7,7%. Portanto, entre 2008 e 2010, a diferença percentual de preços entre Portugal e UE27 subiu em 165,5%. E neste caso não colhe o argumento habitual utilizado pelas petrolíferas e
pelos seus defensores – o preço do petróleo – pois a origem do petróleo adquirido pela esmagadora maiorias dos outros países da UE27 é a mesma de Portugal.
Esta diferença de preços dá um lucro extra muito elevado às petrolíferas em Portugal à custa dos consumidores portugueses que enfrentam dificuldades crescentes. Tomando como base a previsão de consumo de gasolina 95 e de gasóleo em Portugal durante o ano de 2010, estimamos que só esta diferença de preços entre Portugal e a UE27, dê às petrolíferas um lucro extraordinário de 48,7 milhões € na gasolina 95, e de 241,1 milhões € no gasóleo. Portanto, mais 289,8 milhões € só nestes dois combustíveis e apenas este ano. E isto em plena crise quando os consumidores portugueses já enfrentam grandes dificuldades. Também aqui os sacrifícios não são repartidos de uma forma justa, já que os grupos económicos têm mão livre para aumentar sem qualquer controlo os seus lucros. E é isso precisamente o que estão a fazer perante a passividade colaboracionista do governo e da Autoridade da Concorrência que estão reféns das petrolíferas.
Os dados da Direcção Geral da Energia do Ministério da Economia também revelam que, em Abril de 2010, em 25 países da U.E. (as excepções eram apenas Chipre a Dinamarca), o preço da gasolina 95 sem impostos, portanto o preço que reverte para as empresas, era inferior ao preço em Portugal. E em relação ao preço médio da UE27 sem imposto, o preço da gasolina 95 em Portugal era superior ao preço médio da União Europeia em 5,5%. A situação era ainda mais grave a nível do preço do gasóleo já que, com excepção apenas da Grécia, o preço em Portugal
era superior ao preço praticado nos restantes 26 países da U.E.; e, em relação ao preço médio da UE27, o preço pago em Portugal era superior em 7,8%.
Se análise for feita incorporando os impostos conclui-se que, em Abril de 2010, de acordo também com os dados da Direcção Geral da Energia do Ministério da Economia, o preço de venda ao público da gasolina 95, portanto com impostos, era superior ao preço sem impostos em 139,6%, quando a média na UE27 é de 130,8%, portanto uma diferença para menos de 6,7%. Mas a nível do gasóleo a situação era já inversa. Em Portugal, na mesma data, o preço de venda ao público do gasóleo, portanto com impostos, era superior ao preço sem impostos em 91,8%, quando a
média na UE27 era de 101,6%. Fica assim claro que a razão para os elevados preços de combustíveis em Portugal pagos pelos consumidores portugueses não é apenas a elevada carga fiscal, como pretendem fazer crer as petrolíferas e todos os seus defensores, mas também os elevados preços sem impostos cobrados pelas empresas, superiores aos preços praticados em quase todos os países da União Europeia como provam os próprios dados da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia, o que determina que o preço final (PVP), seja mais elevado.

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2 Responses to O escândalo dos preços dos combustíveis

  1. dinis diz:

    Parabéns Dr.Eugénio Rosa.O sr. é um Prof. comparado com esses economistas-astrólogos.Aprecio muito o seu trabalho porque,contra números não há argumentos!

    Os reaccionários de todos os matizes estão tristes pq a crise não é provocada pelas greves ‘selvagens’ mas, sim pelos sociopatas do ‘mercado’ e tutti quanti parasitas. A sua obra é valiosa para tapar a boca à soberba da estupidez reinante do senso comum.
    Abraço

  2. idi na hui diz:

    Fantástico!Só um comentário,o q significa q os opinantes (obtusos) fogem dos seus escritos como o diabo da cruz

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