Eu não sou o Carlos Vidal


A Deposição, de Caravaggio. Pinacoteca do Vaticano.

Isto foi assim: em meados de Fevereiro, estando eu em Roma, fui ao Vaticano pedir as bênçãos papais e ver a Deposição de Caravaggio, mas no lugar onde devia estar o quadro, nienti. Com a minha imitação aproximada do idioma local, perguntei ao guarda: “Sai dov’è il Caravaggio?“. Ele respondeu-me em italiano perfeito (lá aprendem-no desde pequeninos): “L’hanno portato via questa mattina, per una esposizione in Scuderie del Quirinale“. Resumindo, a Deposição fora deposta para a tal exposição que o Carlos Vidal falhou mas eu vi, e eu achei que a vida imitava a arte, porque regressando às imediações de um computador verifiquei que o Sol tinha voltado a sorrir na pátria, apesar da providência cautelar interposta por Rui Pedro Soares, tudo indicando que o PM seria também ele finalmente deposto. Na posse deste auspicioso augúrio, aguardei com tranquilidade que Sócrates fizesse o que se esperava dele e se demitisse, mas afinal foi o que se viu.
Bref, salvei o que podia ser salvo, e voltei a Roma para ver a tal exposição – magnífica, embora os áudio-guias, que são sempre de evitar, fossem neste caso ainda mais detestáveis, porque o guia inglês teimava em chamar “Carrrravaggio” ao pintor, o que me fez ter vontade de o enviar para a serra do Buggio (bugiar, if you get the picture). Mas estou a ser injusta: foi por causa de um comentário do abominável áudio-guia que percebi hoje, a folhear o catálogo da mostra, o mistério da abulia do povo português perante a sucessão de escândalos no país. A propósito do Amor Vincit Omnia, dizia o senhor inglês do áudio-guia que o primeiro proprietário o mantinha coberto por um lençol, não tanto pela nudez do cupido, mas para que as visitas não fossem ofuscadas pelo génio caravaggeschi e pudessem apreciar os restantes quadros da colecção, todos inferiores. Só depois de vistos todos os quadros é que o Amor Vincit Omnia era destapado, remetendo os restantes à sua insignificância. Esta concorrência desleal acontece mesmo entre quadros de Caravaggio: no Quirinale estavam 26, e cada um fazia esquecer o anterior*, como se nunca tivesse havido outro quadro a não ser o que tínhamos à frente – tal como as telas da Igreja de San Luigi dei Francesi, que vi a seguir, me fariam esquecer a exposição do Quirinale, o guarda-chuva e uma multa antiga que tinha para pagar.
Mutatis mutandis, passa-se o mesmo fenómeno de encandeamento com o primeiro-ministro: a colecção de escândalos é tão vasta e impressionante que cada novo caso ofusca os anteriores, e cada nova explicação faz esquecer o bizantino das precedentes, e de caso em caso vamos perdendo a perspectiva global da mostra, correndo o risco de acabarmos um dia a recordar o primeiro-ministro, quando ele finalmente se for, pelo último mau chiste ou trapalhada menor – o que a mim me faz perder a vontade de falar sequer no assunto, porque me parece que estamos sempre a ver o mesmo quadro, e não é propriamente an oil painting. O povo, no seu desdém castiço pela arte, tb acha que é tudo mais do mesmo, e por isso não sei se o Amor veramente Vincit Omnia: Sócrates parece querer vencer a paciência do mais santo, e nesse campeonato, lamento informar, continua na frente.


Amor Vincit Omnia, Caravaggio. Staatliche Museum, Berlim.

* com a singular excepção da Annunciazione, que fechava a mostra do Quirinale, e que eu, que não percebo rigorosamente nada disto, achei menos caravaggesco que os restantes, não sei se o Professor concorda.

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5 Responses to Eu não sou o Carlos Vidal

  1. Grande posta, Morgada. Um bom texto é um bom texto é um texto.

  2. Carlos Vidal diz:

    Querida Morgada, V. não é certamente o CV, não, porque este, eu, seu atento leitor, apenas saberia partir de Caravaggio para Carvaggio, e a minha cara parte do lombardo para Sócrates. Bravo! Gostei (como não?). Como disse, eu parto do lombardo para o lombardo e de J Sócrates para J Sócrates, portanto um pouco mais limitado serei.

    Quanto à Anunciação.
    Repare bem, estão lá as marcas do lombardo, as que poucos entenderam em vida e nos séculos seguintes à vida (vinda) dele, Merisi: repare então – o corpo do anjo sobre-iluminado, ou sobreexposto como eu gosto de dizer, recortado do fundo sem tonalidades ou valores intemédios (isso usava-se em Ticiano ou Rembrandt, nunca no lombardo); reforço da sobreexposição do corpo do anjo com a cobertura do panejamento branco. Acontece aqui outra coisa: a tela está em mau estado. É só isso.
    Aliás, só muito depois de executada foi atribuída a Caravaggio (no final do século XVIII). Antes era de Guido Reni, o que era absurdo mas era assim tratada.
    O primeiro catálogo raisonée do Caravaggio, creio que não a inclui. Refiro-me ao esforço de Walter Friedlander, incluído nos seus “Caravaggio Studies” de 1955. Depois, noutros catálogos já é recenseada: nos de Mina Gregori, este ano nos de Sebastien Schütze e Sybille Ebert-Schifferer.

    A propósito: vai a Florença, cara Morgada?

    • Morgada de V. diz:

      You’re very kind.
      É isso, de facto, a tela está em mau estado e el angelito é caravaggesco abbastanza, eu é que não percebo nada disto e achei-o menos vistoso, para usar o termo técnico.
      Já tinha arranjado outra desculpa para ir a Florença este ano, e nessa altura tentarei ir ver i Caravaggeschi. A ver se me educo.

  3. antonio diz:

    E Morgada, no meu tempo em Firenze/Florença, os guias (todos de uniforme) era tudo ex-estudantes italianos, licenciados em História, em ‘empregos de verão’…

    Teve azar, ou as coisas mudaram.

    Thanks for the Caravaggio pics./Grazie tante.

    🙂

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