O Arrastão aproveitou a visita do Papa para blasfemar

Sem pudor nenhum, o Sérgio Lavos postou, em dias que se queriam de recolhimento e reflexão, “uma fabulosa cover” do Hallelujah do Leonard Cohen. Trata-se, antes que mudem de canal, daquela versão chata do não menos chato Jeff Buckley que abriu caminho à rufuswainwrightização e consequente aschreckamento dessa música, entre outros malefícios para o sistema auditivo da humanidade.

Diz SL que JB, “em modo divino, cheg[ou] onde nenhum homem – incluindo Leonard Cohen – chegou“, penso que com a intenção de elogiar o morto sem ofender a lenda viva. Há aqui duas premissas implícitas que convém esclarecer antes de chegarmos (a)onde o Sérgio Lavos não chegou: a primeira, que Leonard Cohen é o maior; a segunda, que decorre da primeira, é que toda a tentativa de fazer melhor que Cohen é um acto kamikaze votado ao desastre, e que por isso – conclusão – quem sai inteiro entra para o top + do panteão musical. Ora o que surpreende não é que alguém consiga fazer versões “melhores” que o Leonard Cohen: basta despedir o organista e o coro das meninas para termos versões “melhores”, no sentido de versões que não nos envergonhem no elevador, que é o que eu presumo que o Sérgio procure na música depois de ter lido o que ele diz sobre esta chatíssima versão. Como bem avisa um comentador lá no post do Sérgio Lavos, a cover “até é capaz de ser [melhor], mas não chega!”. Quer dizer, depende: no Ídolos chega perfeitamente.

Quem gosta de Leonard Cohen sabe que é impossível não sofrer de schadenfreude ao contrário quando o homem se põe a cantar: Deus sabe quantas vezes desejei que ele se tivesse limitado a escrever a letra e delegado a orquestração a, sei lá, músicos. Don’t do it, Leonard. Mas ele vem, e insiste em cantar, e faz aquilo com um humor tão self-deprecatory que é difícil não gostar dele pelo menos um bocadinho. O que em dias bons salva o Hallelujah dos arranjos foleiros é o humor – da polissemia, da pose de crooner, da sátira a si próprio. Humor ou pudor, o que para o caso é a mesma coisa. Atente-se agora no modo descarado & sofrido com que Jeff Buckley canta a versão dele (que é uma versão da versão do John Cale, também chata mas pelo menos honesta), e sobretudo na ênfase que JB põe no verso “it’s a COLD and broken hallelujah”; note-se como Buckley enche aquele “COLD” de cubos de gelo para mostrar às pessoas que, reparem bem, estão -20 graus e o amor não é uma coisa fofinha. O que Buckley está a tentar dizer-nos por interposta canção é que esteve em lugares a que – lá está – nenhum homem chegou antes dele, e que isso, ouçam todos, é difícil e arriscado e dói mesmo, mesmo muito. O Leonard, apesar do desbragamento dos sintetizadores, nunca teria essa falta de gosto.

Enfim, o João Bonifácio já disse tudo o que havia a dizer sobre o problema. É que mesmo com a música “a resvalar para o pântano do piroso”, gosta-se de Leonard Cohen como se gosta de um homem: apesar de todos os defeitos e against our better judgement; já Buckley, por mais missas acústicas que lhe cantem, só leva ao céu os anjinhos. E é isto o que na verdade distingue, para parafrasear Sérgio Lavos, “a sua presença no mundo”.

P.S. O Jeff Buckley teria ganho em ler o “Death of a Lady’s Man”, um livro em que claramente o Leonard Cohen não estava com o lítio bem regulado, mas que tem os seus momentos – como neste “How to speak poetry” (excertos):

Take the word butterfly. To use this word it is not necessary to make the voice weigh less than an ounce or equip it with small dusty wings. It is not necessary to invent a sunny day or a field of daffodils. It is not necessary to be in love, or to be in love with butterflies. The word butterfly is not a real butterfly. There is the word and there is the butterfly. If you confuse these two items people have the right to laugh at you. Do not make so much of the word. Are you trying to suggest that you love butterflies more perfectly than anyone else, or really understand their nature? The word butterfly is merely data. It is not an opportunity for you to hover, soar, befriend flowers, symbolize beauty and frailty, or in any way impersonate a butterfly. Do not act out words. Never act out words. Never try to leave the floor when you talk about flying. Never close your eyes and jerk your head to one side when you talk about death. Do not fix your burning eyes on me when you speak about love. If you want to impress me when you speak about love put your hand in your pocket or under your dress and play with yourself. If ambition and the hunger for applause have driven you to speak about love you should learn how to do it without disgracing yourself or the material.


(…)

Speak the words with the exact precision with which you would check out a laundry list. Do not become emotional about the lace blouse. Do not get a hard-on when you say panties. Do not get all shivery just because of the towel. The sheets should not provoke a dreamy expression about the eyes. There is no need to weep into the handkerchief. The socks are not there to remind you of strange and distant voyages. It is just your laundry. It is just your clothes. Don’t peep through them. Just wear them.


The poem is nothing but information. It is the Constitution of the inner country. If you declaim it and blow it up with noble intentions then you are no better than the politicians whom you despise. You are just someone waving a flag and making the cheapest kind of appeal to a kind of emotional patriotism. Think of the words as science, not as art. They are a report. You are speaking before a meeting of the Explorers’ Club of the National Geographic Society. These people know all the risks of mountain climbing. They honour you by taking this for granted. If you rub their faces in it that is an insult to their hospitality. Tell them about the height of the mountain, the equipment you used, be specific about the surfaces and the time it took to scale it. Do not work the audience for gasps ans sighs. If you are worthy of gasps and sighs it will not be from your appreciation of the event but from theirs. It will be in the statistics and not the trembling of the voice or the cutting of the air with your hands. It will be in the data and the quiet organization of your presence.

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15 Responses to O Arrastão aproveitou a visita do Papa para blasfemar

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  2. Ibn Erriq diz:

    UI falou, está falado, depois disto nunca mais o mundo será o mesmo.
    O que nos vale é que sempre haverá sumidades acima dos pobre de espírito. LOL

    O diabo deve-se ter esmoucado 😉

  3. Sérgio Lavos diz:

    Portanto a Morgada acha que a versão do Cohen, sendo muito pior do que a do Buckley (chato, chato?? não percebo), é ainda assim melhor porque ele a cantou. Nem vou discutir consigo, cada um tem os deuses que merece, e eu questões de fé não costumo discutir. Um santo Domingo para si, então, na paz do São Leonard.

  4. Sérgio Lavos diz:

    Ah, a única coisa me deixa realmente ofendido é ter comparado o Jeff Buckley com o, esse sim, muito, muito chato Rufus Wainewright. Imperdoável.

    • Morgada de V. diz:

      Mas V. consegue distingui-los, Sérgio?
      O problema deve ser meu, que nunca percebi o entusiasmo com o Jeff Buckley e acho que a melhor maneira de apreciar o Hallelujah é sem som e com legendas.
      Um santo domingo para si também, na paz dos anjos.
      m.

  5. João Ribeiro diz:

    Jeff Buckley, chato? Minha nossa sra., o que se lê por aqui..

  6. Sérgio Lavos diz:

    Não é preciso um cisma por causa disto. Eu gosto de Cohen, claro, grande escritor de canções, mas com um gosto musical atroz – quer dizer, a melodia é muitas vezes certeira, mas os arranjos nunca deixam de cair na piroseira total – exceptuando a fase folk dos anos 60. O Wainwright tem um álbum decente – Poses – e daí para a frente foi sempre a cair em direcção a Judy Garland – e isto não pode ser uma qualidade. Buckley tem um álbum muito, muito bom, Grace, que é preciso ouvir vezes sem conta, até se apreciar como deve ser, e tinha uma voz do outro mundo – o único defeito será um ou outro solo de guitarra ao estilo Led Zepellin, mas ninguém é perfeito. O álbum póstumo é… póstumo e imperfeito, ainda assim melhor do que qualquer coisa que o Rufus tenha feito – ou irá fazer no futuro. O que é que posso dizer mais: Hallelujah, na voz de Buckley, é um portento, mas muito do mérito vai para Cohen, quando decidiu musicar o belíssimo poema.
    Agora, eu fico na paz dos anjos e a M. do Cohen. Acho que fico a perder, nisto tudo.
    Cheers.

    • Morgada de V. diz:

      Concordo com essa proposta de concordata: eu deixo-o em paz e o Sérgio exonera-me de ouvir o Buckley “vezes sem conta” (não sou capaz desse martírio para atingir o reino dos céus).
      Ratifique-se!
      Cheers to you too.
      m.

  7. Pedro Penilo diz:

    1. Éééelá, não me toquem nos Led Zeppelin!
    2. Obrigado à Morgada pela transcrição do livro de Cohen. Muito interessante e educativo (não precisava de insistir tantas vezes na ideia, com tantos exemplos, mas enfim, tinha de dar volume ao livro e os destinatários são diversos…)
    3. Não fiquei muito convencido com a ideia do “piroso colateral”. Que tal fazermos que não falámos nisso…? Não podíamos assentar no princípio da integridade do que é magnífico? Ou ainda acabamos a lamentar o catarro do Tom Waits…

    • Morgada de V. diz:

      Eu também não fiquei convencida, Pedro, acho que com tanta treta deixei de fora o maior argumento a favor do Leonard Cohen: o nariz – não é adorável?
      Mas assentemos nesse princípio, é um magnífico dogma de fé – e eu, quanto ao Tom Waits, sou uma integrista ultramontana.
      Abraços,
      m.

  8. Em algumas canções, a magia é o modo de explicar a importância do indizível. Da mesma maneira, em alguns interpretes, a voz é a maneira exterior de descobrirmos que alguém por dentro se aproxima. Se ouvir o Buckley com hesitação, a sedução é lenta.
    Ouvir Grace deve fazer um desenho no seu rosto. Esse desenho é bom se a música for intensa. O desenho é mau se a musica for aborrecida. Nos imbecis a cara nunca varia.
    Se duvida, oiça.

    Irmão,
    Não preciso de ouvir para crer, como São Tomé, vou fazer fé no que diz.
    A graça esteja consigo.
    m.

  9. Pedro Penilo diz:

    O nariz? Tem piada, não me lembro. Ele canta sempre às escuras… Deixa cá ver…

  10. Por mais que o texto tente apresentar ideia contrária, Jeff Buckley é apenas e só um dos maiores cantautores da história da música. E com um só album, a obra-prima “Grace”, onde está a incrível versão do “Hallelujah”

    Se a ideia da referência à “rufuswainwrightização”, é referir que há por aí muitos tipos chatos, que escrevem canções chatas, apenas com voz e viola, e que depois são logo pretensiosamente denominados singer-songwriters folk, estamos de acordo. Mas, realmente, nem Rufus Wainwright (mesmo que menor), nem muito menos Jeff Buckley, se enquadram nesse cartel.

    • Morgada de V. diz:

      Alto lá, um membro deste blogue que discorda de mim? V. não leu as regras da casa, João?
      Espero que tenha as quotas do Benfica em dia, ou isto vai correr muito mal…

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