TGV e investimento público

Um dia destes será discutida a apreciação parlamentar do projecto do TGV. Ao que parece a esquerda prepara-se para apoiar o governo, sob condições. Vamos por partes.
Mais ano, menos ano Portugal terá linhas de TGV. A questão não deve ser colocada sobre ser-se contra ou a favor, mas sim, se esta é a melhor altura para o fazer. Na minha opinião não é.
Como parece ser óbvio para todos, o investimento público é vital para a dinamização da economia. Se é certo que o TGV trará novas dinâmicas económicas a longo prazo, a operação financeira apenas será aliciante para a banca, grandes empresas de construção nacional e indústria ferroviária estrangeira – é bom que não nos esqueçamos que o ataque ao aparelho produtivo nacional também se fez em empresas como a Sorefame/Bombardier onde, se um dia fomos dos melhores, os sucessivos governos PS/PSD pactuaram com o seu desmembramento. Ou seja, neste contexto, a decisão sobre a construção do TGV beneficia o grande capital e não terá grande efeito no fragilizado tecido económico nacional.
No que diz respeito ao investimento público na área da construção parece-me que os investimentos em escolas (purgado da lógica feudal e tentacular da Parque Escolar), centros de saúde/hospitais, reabilitação urbana(*) e rede ferroviária nacional serão os que produzirão mais impacto no fortalecimento dos sectores associados, directa e indirectamente, à construção.

(*) A reabilitação urbana é um jargão muito utilizado no politicamente correcto, portanto, importa esclarecer uns quantos pontos em que há muito por fazer:
– Intervenções nos espaços públicos de uso colectivo (praças, ruas, passeios… espaços entre-edifícios);
– Reabilitação de edifícios públicos e património habitacional do Estado para colocação no mercado de arrendamento – não nos esqueçamos que, com o aumento da dificuldade de obtenção de crédito e com a precarização crescente das relações laborais, começa a haver uma geração que não consegue sair de casa dos pais;
– Políticas de incentivo à diminuição do trajecto casa-trabalho e à utilização dos transportes públicos colectivos;
– Recolocação de actividade comercial e económica nos centros das cidades;

(também publicado no Aparelho de Estado)

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