O livro cor-de-rosa de Manuel Alegre

Anda toda a gente a dar entrevistas íntimas. Nunca percebi esta coisa de os recortes privados da vida das figuras mais ou menos públicas serem notícia. Depois do deputado “idealista, leal e antícinico” Galamba, foi a vez de Manuel Alegre. Sigo a mesma fórmula, ou seja, retirar as interjeições jornalísticas e deixar o entrevistado falar na primeira pessoa. Trata-se de uma entrevista de pré-campanha eleitoral mas também de promoção do seu mais recente livro. No campo político Alegre dá acima de tudo resposta à candidatura de Fernando Nobre, revelando que de facto esta o deixou nervoso mas com um pretexto para não falar do PS e do Governo. No campo promocional Alegre faz uma péssima publicidade ao que acabou de escrever. O paralelo com o livro vermelho de Mao, não sei se feito pelo candidato se pelo jornalista, é perfeitamente disparatado, ainda para mais porque é feito relativamente à cor e ao número de capítulos dos dois livros. Sobre a introdução da palavra “presidente” no titulo da entrevista só pode ter duas leituras, ou se trata de uma brincadeira de mau gosto ou de uma golpada anti-democrática.

PS: Alegre tem aberto horizontes e interpretado uma nova esperança nos mais vastos sectores da população e dos oprimidos. Desta feita o elogio vem do inenarrável e insuspeito Nuno Rogeiro. Deve ter sido depois de ler as declarações de Alegre sobre a Nato e a guerra do Afeganistão aqui.

“Sou, dos candidatos às presidenciais, o único que entrou em combate. (…) Este livro começa pela memória mais antiga que eu tenho, que é a de um miúdo sentado num pátio de uma casa a pregar pregos direitos numa tábua, coisa que eu nunca mais fui capaz de fazer. (…) [O seu último livro] surge um pouco como aquele filme do Fellini, o 8«, em que o realizador está numa crise de criação e resolve fazer um filme sobre isso mesmo. Este livro começa pela frase ‘É difícil escrever um livro’ e depois veio o resto. (…) São bordões, como uma sequência musical em que há uma nota que vem e que desencadeia as seguintes. Está-se sempre perante um miúdo que é armado ao pingarelho, que falhou um tiro ou engoliu os comprimidos. É a sequência musical que tem que ver com a música da escrita. (…) “Há uma prosódia que está perto da prosódia poética. (…) Creio que há muita gente que gosta da minha prosa. Vê-se. (…) Senti e estava a bater com força na cadência. Tanto que não organizei o livro mas foi ele que se fez de um modo aparentemente caótico. (…)Estou certo que terá sido um dos grandes desgostos da minha irmã, mas aquilo era uma tentação porque eu tinha a espingarda de pressão de ar que o meu pai me tinha dado e não acertava nos pardais – a espingarda estaria desafinada porque eu até tenho pontaria –, até que um dia comecei a olhar para a boneca e não resisti. Seria para ver se a espingarda funcionava? Disparei e quase desfiz a boneca. São aquelas tentações e crueldades que os miúdos têm. É como cortar o rabo às lagartixas, aqueles que não os cortaram quando eram pequenos depois cortam coisas às pessoas quando são grandes. (…)A paixão aconteceu-me muito poucas vezes. (…) Eu não desertei e não quis desertar, quis viver a experiência da guerra e vivi em situação de combate no pior momento da guerra em Angola, que foi 1962/63, com as minas a rebentar em Nambuangongo e Quipedro, que era a capital da guerra.”

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