Filho da madrugada?

“A maioria dos meus colegas de faculdade ganha o quádruplo do que eu ganho. Estou no Parlamento. Ao contrário do que as pessoas dizem, no Parlamento trabalha-se bastante. (…) Desde sempre tive dificuldade a imaginar-me a trabalhar. Fui para a Faculdade de Economia sem pensar verdadeiramente na opção que estava a tomar. Tinha jeito para a matemática e os meus pais tinham a preocupação que eu fosse para um curso com elevada empregabilidade. (…) Até Londres não tinha o arsenal de conceitos e de autores que me permitiam contestar o que Fukuyama dizia. (…) Ainda não acabei a tese, suspendi-a porque estou no Parlamento e não tenho tempo nem disponibilidade mental. (…) Se não tivesse participado nos blogues, nunca teria sido convidado para as listas do PS. (…) O Pacheco Pereira foi uma figura intelectual importante da minha juventude. Mesmo no meio do bodyboard via quase religiosamente o Flashback. (…) Sou um idealista compulsivo. Por muito que a realidade teime em dizer não, a palavra é uma promessa e pode transpor oposições que parecem intransponíveis. (…) É uma ingenuidade necessária. (…) Sou um anticínico militante. (…) A palavra é sempre a coisa que vai para além da coisa que é. (…) O mais importante é não nos deixarmos contaminar absolutamente pelo que existe, nem fascinar pelo que pode existir, como se não houvesse uma mediação entre as duas. (…) É fácil ser idealista nos blogues. Sou idealista naquilo que escrevo num determinado contexto. (…) Desde que fui eleito deputado, exerço uma auto-censura. Há um conjunto de lealdades que não tinha e passei a ter. (…) Vivemos uma caça às bruxas. Ser um apoiante do Governo actual é uma espécie de crime. Sirvo uma determinada narrativa e sou uma vítima dessa narrativa.”

Não vale a pena discorrer muito mais sobre o personagem, principalmente quando é tão claro a falar na primeira pessoa. Mais do que o homem interessa ver em que é que se transformou a dita ala esquerda do PS. “Os filhos da madrugada”, como titula a entrevista que dá à Pública deste fim-de-semana, faz-nos desejar que o dia chegue o mais depressa possível.

Em anexo, os verdadeiros:

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