Resistência Islâmica – rescaldo de um debate

Ao longo da última semana lancei um conjunto de posts que pretendiam levantar a questão da resistência islâmica. O facto de serem posts com poucas coisas escritas, entre o provocatório e o iconográfico, permitiu que o debate entre os comentaristas ganhasse relevância. Era a intenção e viu as suas melhores expectativas ultrapassadas. Num único tema e ao longo de sete entradas foram feitos mais de trezentos comentários o que dá expressão e actualidade ao tema. Infelizmente a quantidade dos comentários não é sinónimo de grande eloquência. Mesmo em comentaristas que costumamos ver menos presos a dogmas e preconceitos ouvimos dizer expressões como capitulação ao islamo-fascismo, paralelos entre a resistência islâmica e a Al-Qaeda e mistificações de todas as espécies e feitios relativamente aos povos muçulmanos. Boa parte desses comentários parecem tirados do tempo da guerra entre os povos ibéricos e os povos magrebinos, da albarda de um qualquer cruzado devoto.

Passemos então à desmistificação:

Sempre se defenderam povos e movimentos independentemente dos seus perfis religiosos.

De Marter Luther King a Malcom X, do Dalai Lama ao Nelson Mandela, do Ximenes Belo ao Obama, dos indígenas da América do Sul às lideranças da África livre, dos Sem Terra a praticamente todas as sublevações populares.

Todos os que defendem estes povos e estes movimentos não invocaram o carácter retrógrado que os seus credos advogam para ficar à margem. Nem assim poderia ser. Alguém imagina que ao aterrar num acampamento de Sem Terra os gurus do ateísmo fossem pregar contra nosso senhor Jesus Cristo? Proibir o culto em nome da laicidade do processo? Retirar o véu ou proibir a carecada reaccionária do Dalai Lama e dos seus discípulos? Contestar a razão de Exército Republicano Irlandês por causa da Reforma ou da Contra-Reforma ou o independentismo tchetcheno pela sua devoção a Alá?

Em abono da verdade, toda e qualquer religião é em si retrógrada pelo que elevar isso a princípio teórico (não me alinho com religiosos) é uma masmorra táctica inultrapassável. Todos eles professaram as mais diferentes crenças e todos eles mereceram o apoio táctico da esquerda laica e socialista na defesa da sua auto-determinação e independência.

Não pode haver uma superioridade moral de umas religiões relativamente a outras. De resto, a haver uma hierarquia de sangue derramado, a religião católica apostólica romana é seguramente aquela que já enterrou mais cadáveres.

Há uma diferença entre as direcções de resistência islâmica entroncadas em movimentos sociais sólidos, e a Al-Qaeda, que ainda está para se perceber o que é.

Ser contra a NATO e contra as guerras do império e não defender a vitória do que os lhe oferecem resistência é uma posição niilista e inconsequente que em último caso legitima a intervenção da NATO em nome de todos nós. É urgente defender a retirada de Portugal da NATO e é urgente que os nossos impostos deixem de servir para matar no Iraque, no Afeganistão, na Somália, no Médio Oriente e na Palestina. (No próximo mês de Novembro estarão em Portugal para alargar a todos os países o âmbito do seu conceito estratégico.)

Deve ser considerado um acto de resistência todo e qualquer acto contra as tropas invasoras ou contra os mercenários que se colocam à sua disposição. Seja a vítima islâmica ou balsâmica. A defesa de que a vítima se professe livremente sem exploração colonial é uma resolução mais do que aceitável. É legítima e desejável. O ataque contra civis é um acto de cobardia e não ficaria espantado se a maior parte deles fossem instigados pelas forças secretas da entente colonial.

A defesa da vitória da resistência islâmica não pressupõe a defesa do seu programa político. Muitos defenderam a vitória de Moscovo e de Washington sobre Berlim sem serem nem fervorosos estalinistas nem adeptos da economia de mercado. Estavam contra Hitler e isso era tudo o que bastava. Ainda assim e como foi dito ao longo do debate a maioria das forças islâmicas defende uma democracia representativa. Da mesma forma podemos defender a ocupação de terras ao lado de um sem terra e ainda assim pregar contra os evangélicos ou a igreja universal do reino de deus que é entre os camponeses quem mais crentes granjeiam. Estamos portanto a falar de unidade táctica militar num conflito onde é claro para todos quem é a vítima e quem é o agressor. Fazer unidade com a vitima não é professar todos os seus desejos nem calar toda e qualquer crítica que seja justa de se fazer.

Do Líbano à Palestina podem ser dadas lições de democracia quer aos EUA quer a Israel. A maior ameaça à paz mundial é o imperialismo e os seus exércitos. Nenhum movimento ou país islâmico tem qualquer intenção de entrar por qualquer outro país adentro a exportar (impor) o seu modelo político, social, económico ou religioso e explorar os seus recursos naturais. Os aliados da entente ocidental fazem tudo isso por quase todo o planeta.

Não devemos por isso cair na ratoeira da islamofobia. Será sempre esse o argumento para a carnificina. A defesa da auto-determinação dos povos implica isso mesmo: que se respeitem as suas determinações e a sua forma de ser livre. Uma vez ocupado, tudo o resto é secundário, pelo que os meus preconceitos estarão sempre depois da minha solidariedade.

Podemos e devemos sonhar com vista à obtenção de uma melhor resistência. Mas enquanto não temos outra não podemos ficar agarrados apenas à esperança. Porque para os povos sob o jugo colonial enquanto não houver justiça não haverá paz e a guerra será sempre melhor do que a paz dos cemitérios.

[Roteiro de um debate]

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