A nossa “guerra da Argélia” e os inóquos do costume (ou a evidência de uma metáfora)


JAMES COLEMAN. Retake with Evidence. 2007 (com Harvey Keitel).

É evidente que, por enquanto e certamente no futuro (e apesar de um cego apego pelo poder), é evidente que não causou o mesmo número de mortos e de tragédias humanas, individuais, colectivas, nacionais, mas, efectivamente, o poder do Partido “Socialista” em Portugal desde 1975 (em Portugal e Macau, note-se!) e, sobretudo, a actual governação de J Sócrates, o seu mundo político e empresarial (tal diria eu o mesmo do mundo político – a CIA, Carlucci – de M Soares, e do seu mundo empresarial: Ho, Berlusconi…), ainda a excelente  relação de J Sócrates com a Procuradoria da República e o Supremo, nas pessoas de Pinto Monteiro (já se demitiu?) e Noronha do Nascimento, diria que esta gente que nos governa e nos governa desde 1975, devem ser encarados como a nossa “guerra da Argélia” (e já explicarei melhor); repito, pois nunca pensei de forma diferente: o PS, Soares ou J Sócrates são a nossa guerra da Argélia, aliás como Berlusconi é a guerra da Argélia dos italianos ou Bush foi a guerra da Argélia dos norte-americanos (o mesmo se diria de Blair, etc.). Mas é o caso francês, a guerra da Argélia francesa, ou seja, a própria da própria, que aqui me interessa. Bom, e porque venho então aqui falar da guerra da Argélia?

Por causa do manifesto dos “121”! Dos 121 intelectuais franceses, dos homens sempre corajosos que dão o seu nome e rosto por aquilo que toda a gente decente tem de dar, e tem de dar nunca tergiversando; e pior, piores, são aqueles que passam o seu tempo a justificarem-se (o que tem sido abundante nestas páginas do 5dias) por não dar nome e apoio àquilo que é – e só isso e nada mais “é!” – decente!

Hoje, aqui e agora em Portugal, a decência política (repito, política) apenas está do lado de quem denuncia, critica ou combate mesmo, seja ao lado de quem for, o governo de J Sócrates! Como diria Lenine, noutro contexto, não há aqui nenhuma 3ª linha ou 3ª via e, como muitos concordarão, naquele tempo Kronstadt não era essa 3ª via, porque pura e simplesmente não podia sê-lo.

O manifesto dos “121” ou a “Déclaration sur le droit à l’insoumission dans la guerre d’Algérie”, publicado em 1961, foi simplesmente assinado por quem tinha a decência no seu lugar, e a coragem a sublinhá-la. Foi o texto assinado por gente que sempre militou na esquerda e extrema-esquerda (Sartre, Michèle Bernstein, Guy Debord, Edouard Glissant, Henri Lefebvre…), por surrealistas e editores (Breton, Maspero, Masson), por gente de direita ou extrema-direita (Robert Scipion ou Maurice Blanchot), por Adamov, Duras, Boulez, a galerista Denise René, Alain Resnais… Dois tópicos ressaltavam da leitura do texto: a) colocar franceses a dizer que a guerra do povo argelino contra a França era totalmente legítima e b) proceder à denúncia de massacres e tortura sistemática por parte das forças francesas.

Ora, muitos dos democratas de hoje e admiradores do bufo Orwell, onde estavam e de que lado estavam em 1975? Contra o PREC, certamente! O movimento popular, efusivo, incontrolado e eventualmente violento, fosse maoista, estalinista, comunista e/ou autonomista, foi certamente um dos factos emancipatórios do século XX. Diria mesmo que o penúltimo movimento emancipatório do século foi a Revolução Cultural chinesa e provavelmente o último (até agora, e eu sigo, como se sabe, com bastante expectativa o percurso da Venezuela) foi o nosso PREC, antes de ser traído pelos termidorianos e “democratas” de serviço. Exibem algumas vozes deste blogue os seus tentames de estabelecimento de uma “3ª Via”, nem J Sócrates nem sim nem não nem nim. Tudo isto é normal e previsível. E o problema é esse. Mas esse é um problema deveras banal. Banal em demasia.

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