Ligações frágeis

‘O homem sem ligações’ de que falava Zygmunt Bauman aplica-se bem ao filme Nas Nuvens. Vivemos uma época em que tudo se tornou efémero. Quem sempre trabalhou acorda sem emprego. Como no filme, os tipos do costume vendem-nos essa transformação como um progresso. Quando despedem os pobres coitados, explicam-lhes que ‘todos os grandes homens começaram por ser despedidos, e que este pequeno problema vai tornar-se uma grande oportunidade’. Na vida real os comentadores neoliberais de serviço garantem-nos que não ter segurança no trabalho faz bem à economia. O que interessa que destrua a vida de 600 mil portugueses? São simples danos colaterais para um propósito mais grandioso.
Hoje, ouvi um tipo numa rádio muito cheio de si, a criticar os jornalistas de serem de esquerda e de não perceberem, como ele que tinha uma pós-graduação, o que é a economia. Alguém explica à criatura que a economia é uma escolha, não está pré-determinda nem gravada na pedra. Para uns, a economia são as mais valias bolsistas, para outros, a quantidade de empregos gerados. Uma coisa, como todos sabemos, não implica a outra. Como Cavaco Silva disse uma vez , quando era primeiro-ministro, sobre a crise do Vale do Ave: ‘há empresários ricos com empresas falidas’. A economia é uma luta. Não existe uma solução mágica que contente todos, existem escolhas e políticas diferentes. Cabe-nos a nós escolher um lado.

PS- A quantidade de comentadores que diz que os jornalistas são de “esquerda”, como se isso fosse verdade ou fosse um grande condicionamento à comunicação social. Sinceramente, nunca vi nenhuma dessas vozinhas protestar que os donos dos grupos de comunicação social são maioritariamente de direita, como se a propriedade e a concentração dos meios de comunicação social em alguns grupos não condicionasse a sua pluralidade.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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