Verdades desveladas

Há 4 anos, o António escreveu aqui um dos textos mais lúcidos que li acerca das incursões dos legisladores franceses no fascinante mundo da moda islâmica.
«A ideia de que o Estado não pode nunca estabelecer proibições destinadas a salvaguardar a liberdade individual não é liberal nem libertária, é absurda». Mais: «No caso do véu, os poderes públicos estabeleceram uma proibição que teve como objectivo a salvaguarda da liberdade individual, e a liberdade consiste também na participação do indivíduo na definição (e no acatamento) da vontade geral que ditou essa intervenção dos poderes públicos e se traduz por essa proibição – é a liberdade democrática.» Hoje, apesar da histeria que tomou conta desta questão, acho que tudo isto continua a fazer sentido.
Mas há quem tenha entretanto mudado de ideias. Uma militante infatigável destas coisas, a Fernanda Câncio, apoiou com entusiasmo a declaração do António: «escusado dizer, presumo, que estou de acordo com tudo o que escreveste. mas digo de qualquer modo». Hoje, ao que parece, já não é bem assim: «É nesta distinção entre o respeito pela auto-determinação de adultas (desde que não vinculadas a uma tarefa de representação estatal) e a imposição da regra a todas as mulheres que para mim se risca a fronteira».
Novas fronteiras que se desenham na pergunta supostamente fatal: «E dizer que as mulheres que usam véu precisam desta interdição para se libertarem é dizer que não lhes reconhecemos a capacidade de serem livres. Mas, a ser assim, tanto faz usarem ou não véu. Verdade?» Falso: reconhecemos sim a infeliz capacidade de alguns homens coarctarem a liberdade de muitas mulheres – e essa deve acabar o mais depressa possível. Mesmo que uma mulher de burca passe a ter a mesma hipótese de entrar num tribunal que eu tenho de lá aparecer de tronco nu – não me parece um preço alto de mais. E mesmo que isso seja entrar no jogo dos fundamentalistas, sempre à cata de públicos martírios.

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