Conversas da treta (1) – Da reprodução dos Coelhos


Num livro colectivo de crítica à obra de Zizek, chamado The Truth of Zizek, uma das críticas que é feita a Zizek é que ele tem um discurso encantatório sobre a realidade, mas não dá nenhuma pista para sua transformação. Um dos autores, Simon Critchley, acusa: “Eu lembro-me de perguntar, há vários anos, a Zizek as implicações para a acção política do seu trabalho. Ele respondeu-me, caracteristicamente, ‘eu tenho o chapéu, mas falta-me o coelho’. A minha questão é onde está o coelho? É preciso um coelho, talvez mais se queremos que eles se reproduzam”.
Zizek, num artigo sintomaticamente intitulado: ‘Com amigos destes, quem precisa de inimigos’, não nega esta interpelação, admite ‘manter-se crítico acerca dos coelhos que são oferecidos nos dias de hoje à esquerda’. Para ele, é preciso uma séria análise sobre os coelhos e não floreados retóricos, sobre como é melhor ter um coelho do que não ter.
Zizek defende que, neste momento, a célebre tese de Marx sobre Feuerbach deve ser invertida: mais do que transformar o mundo é preciso pensá-lo.
O autor defende que vivemos tempos negros para as ‘políticas emancipatórias’, que é possível fazer a crítica do capitalismo, apontar as contradições e insuficiencias das formas de legitimação democrática que ele encontra e até prever as crises que o capitalismo necessariamente engendrará no seu funcionamento, mas estamos, neste momento, incapazes de formular um projecto de mudança global. Apesar de achar que o apelos ‘baratos’ à superação do capitalismo e a sua forma de legitimação democrática, apelos úteis a médio prazo, são inúteis nos dias que correm, Zizek não está disposto a aceitar a substituição da ideia de mudança radical e global, pela defesa da multiplicação de práticas locais de resistência como único horizonte da transformação.
Todos os posts – que neste blogue aparecem sobre violência, capitalismo e a sua superação, a multiplicação das práticas de auto-determinação que não se vêem em lado nenhum – não passam, na minha opinião, de retórica. Uma retórica meramente encantatória, mas que é certamente necessária para fazer um luto e refazer pensamentos. Ela multiplica-se em centenas de blogues, site e livros. Sem se ter conseguido responder a estas perguntas fundamentais para uma esquerda radical: qual é o projecto da transformação? Quais são os sujeitos que terão interesse em fazer essa, mesma, transformação?

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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