UMA CONFISSÃO


Bispo de Hipona

CARÍSSIMO ZÉ NEVES

Tudo o que for acontecendo, tudo o que vem acontecendo, tende a favorecer um rápido liame de problemas. Por meu lado, pelo contrário, vou agora escrever para todos vós sem afectação e sem canseira, como a coisa mais natural e mais fácil do mundo, através da língua que aprendi e na maioria das circunstâncias sempre falei. Não sou eu que a tenho de modificar nem de modificar-me. Os ciganos consideram com razão que só devemos dizer a verdade na nossa própria língua; na do inimigo deverá reinar sempre a mentira, costumo eu citar. E deste modo me fui encarreirando, durante toda a adolescência, lenta mas inevitavelmente, para uma vida de aventuras e de olhos abertos.

Confesso que vi concluir-se, antes dos meus vinte anos, a parte pacífica da minha juventude; e a partir daí a obrigação que tive foi a de seguir sem freio todas as minhas propensões indesejáveis, embora em condições sempre difíceis. Senti primeiro simpatias pelo círculo de gente, muito atractivo, diga-se de passagem, onde um extremo niilismo já nada queria saber, nem prosseguir, sobretudo, de quanto fora anteriormente admitido como ocupação da vida ou das artes. E, repara, este meio facilmente me reconheceu como um dos seus.

E ali se extinguiram rapidamente as minhas últimas possibilidades de voltar um dia ao fluxo normal da existência. Ou seja, Zé, toda a minha vida sempre vi tempos inquietos, tumultos extremos na sociedade, e destruições sem fim; e eu entro nessas desordens.

Sempre com amizade,

Carlos Vidal

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