O destino do terror

O recurso a actos considerados “terroristas” não tem a modernidade que se julga. Se as gerações mais novas apenas ouviram a generalização desse vocábulo desde o início da cruzada de Bush contra os “infiéis”, a verdade é que este epíteto é usado desde a formação do Estado como estrutura formal da organização das pessoas.

No império romano os bárbaros eram os terroristas de então, os escravos que se revoltavam terroristas ficavam, os movimentos anti-coloniais terroristas lhes chamavam. Nos tempos modernos quem desafia a sacrossanta democracia de mercado por fora das instituições e das regras pré-definidas, terrorista é ou terrorista será. Não importa que seja um pacifista que caminha pelas ruas de Seattle, Génova ou Copenhaga, que desce as avenidas com colares da paz e as mãos pintadas de branco erguidas para os céus, ou um mais inquieto anarquista de turno, se a sua forma de acção for além do voto e do abaixo-assinado o mais provável é o seu nome vir a constar numa qualquer lista de potenciais terroristas nesta ou naquela polícia secreta.

Há contudo, em particular desde a explosão do “terrorismo” islâmico, um dilema para os que optam pela difusão do medo na sua acção política. A questão é então sobre o destino do medo. Dois filmes reflectem com muita qualidade esse dilema no interior de duas organizações que marcaram os anos setenta: as Brigadas Vermelhas em Itália e a Facção Exército Vermelho mais conhecida por Baader-Meinhof na Alemanha.

A melhor juventude, uma longa-metragem de Marco Tullio Giordana, mostra como pode ser devastador para uma organização a desfocagem na selecção dos alvos do medo. Giulia, uma das personagens principais, faz parte das Brigadas Vermelhas, e vê a sua acção política destruir a sua vida quando a organização à qual pertence passa ao ataque aos alvos fáceis deixando os verdadeiros responsáveis políticos fora da mira. No complexo Baader-Meinhof, pode ver-se que essa facilitação do destino da acção política leva ao afastamento total da organização relativamente ao estado de espírito germânico. Ainda que sobrevivessem a três gerações de rebeldes, é importante lembrar (e apesar de reaccionário o filme lembra isso) que no início da sua actividade a organização gozava do apoio de um em cada quatro alemães. O mesmo vale para as outras organizações armadas da Europa, da ETA, ao IRA, ou mesmo qualquer organização guerrilheira da América do Sul ou do continente africano.

Sempre que o destino do medo passou a ser populações indefesas ou quadros médios de segunda linha, estas organizações perderam a ponte que as podia ligar às massas, enveredando por um caminho que só podia ter um destino: o isolacionismo.

Se é verdade que o Estado moderno dá poucas oportunidades reformistas, o que levará a prazo ao aumento exponencial dos revolucionários, não é menos verdade que estes têm que ponderar com muita sobriedade a sua acção política, de foram a que ela vá de facto à raiz dos problemas e não se limite a fisgar meia dúzia de abrunhos marginais. É demasiado fácil, demasiado injusto e demasiado improcedente rebentar aviões contra esta ou aquela torre diabólica ou assustar 400 passageiros que viajam na véspera de natal. Este tipo de terror não pode almejar coisa nenhuma e para tal basta perceber que quem o inventou e divulgou não foram integristas islâmicos mas ocidentais convictos que andaram décadas a financiar a demência anti-comunista da burguesia nacionalista árabe, hispânica ou israelita.

Sem nunca ter posto uma bomba nem tão pouco atentado contra a integridade física de ninguém, meia dúzia de berros nas manifestações antiglobalização, meia dúzia de invasões do senado da Universidade de Coimbra e uns empurrões aos fascistas numa missa em homenagem ao Salazar valer-me-ão o título de terrorista para toda a vida. A passagem pelo Bloco de Esquerda e pelo Ruptura FER quase me davam credibilidade democrática, mas para mal dos meus pecados acabei por sair. Como não passa no meu horizonte a capitulação à democracia burguesa não creio que possa gozar da absolvição de outros enfants terribles. Uso este exemplo pessoal para demonstrar que sobram poucas oportunidades aos que querem correr por fora do sistema de evitar o tão pesado como perigoso rótulo de terrorista. Estejamos a falar das diabruras de um “jovem radical pequeno-burguês de fachada socialista” (antecipo desde já a crítica dos ortodoxos de direita e de esquerda), estejamos a falar da ocupação de uma fábrica por um grupo de operários impolutos.

Um dilema e uma reflexão que se torna fundamental numa altura em que o combate à normalidade violenta não mais pode ser feita apenas com o recurso à normalidade apática e atónica das orquestras mudas das instituições. Citando pela enésima vez a Alice de Lewis Carroll a questão é “quem é o chefe” e isso vale mais do que o que os múltiplos significados atribuídos às palavras.

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