Et Pluribus Unum

Ontem o meu camarada Zé Neves, aqui no 5 dias, manifestava a sua alegria pela diversidade de tendências ideológico-políticas cá da casa, uma alegria que partilho sem quaisquer reservas. Porque essa diversidade é, como o Neves bem aponta, uma diversidade à esquerda, ou à esquerda do centro, deixando de lado os equívocos que a expressão “esquerda” carrega consigo.

Mas essa partilha não deixa de me fazer questionar sobre a adesão quase automática que gera, nos dias que correm, a celebração da diversidade, seja ela cultural, ideológica ou de qualquer outro tipo. Posto de forma resumida, a diversidade é hoje, nas nossas sociedades, um dos mais poderosos operadores de consenso. Mas o que quer dizer, concretamente, defender ou celebrar a diversidade? Porque é que a diversidade, e mais concretamente a diversidade político-ideológica, é uma coisa boa em si?

A diversidade cultural, de estilos de vida, de gostos, é um facto da vida e mais concretamente da vida nas sociedades contemporâneas. Não é uma coisa boa nem má. Não deve ser reprimida, mas também não deve servir de base para uma proposta política. Quando a diferença serve de legitimação para uma ordem desigual, então ela deve ser combatida em nome da igualdade, mas combater pela igualdade é diferente de combater pela diversidade.

E quanto á diversidade político-ideológica? O que é que funda a evidência da bondade dessa diversidade? E será que negar a desejabilidade dessa diversidade significa colocarmo-nos automaticamente no campo da nostalgia do socialismo real? Não me parece que seja assim. Importa considerar a situação a partir da qual se fala, e os dias de hoje, as condições de luta que se nos apresentam, não oferecem outra hipótese que não a da convivência com posições político-ideológicas diversas. O que não significa que não seja desejável uma ordem política onde não haja quem pense como o Pacheco Pereira ou o Ferreira Fernandes. Não necessariamente à conta da eliminação física dos adversários, mas sim da luta contra as desigualdades e hierarquias que são condições de possibilidade do espaço ideológico onde essas pessoas (e outras) se inscrevem. Não há projecto político digno desse nome que não contenha em si uma ideia de homem novo.

É por isso que não condeno as situações históricas em que, em nome da luta popular e igualitária, a tal diversidade político ideológica deu lugar à unidade do corpo político, uma unidade essencial para defender, por exemplo, as conquistas de uma revolução. Que importa o interesse egoísta de alguns, quando em jogo estão as conquistas de muitos?

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