Uma aula sobre Bertolt Brecht

Brecht by Man Ray

Brecht by Man Ray

Leio pouco confesso e desde pequeno sempre tive a sensação de que devia ler mais. Com o passar tempo percebo que só poderei ler mais do que quando tinha 18 anos no dia em que inventar maneira de viver sem patrão ou no dia em que o trabalho passe a ser dividido por todos os seres humanos saudáveis e produtivos. Do pouco tempo que li (e do pouco que ouvi) muito foi na companhia de Brecht. Citei-o para quase tudo, do amor, à política, ao resto.
Depois de tamanha ignorância ou oportunismo interpretativo, não resisti a perder o pudor ou a falsa modéstia, de publicar uma aula preparada por mim e por uma partigiana, de modo a que o autor do insulto e outros leitores interessados vejam que não devem citar este homem em nome de nenhum pacifismo (mesmo que declinado sob a relatividade dos teoremas e paradigmas dos profetas da pós-modernidade).

Poderei citar Pessoa para defender o socialismo? Ou Almada para atacar o impropério? Ou Antero o respeitinho e Eça os bons costumes? Haja respeito pelo espírito da obra dos que passam pelos anais da história a abrir caminho.

Deixo quatro poemas esclarecedores de qualquer mal entendido ou usurpação sem margens para duplas leituras.

 

 

 

 A Troca da Roda

Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?

 

 

 Os Esperançosos

Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!

 

 

Sobre A Violência

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguem chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as betulas
E tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operarios na
 rua?


 

Eu queria ser um sábio

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

Bertolt Brecht

Quando a arte transforma!

(publicado originalmente na revista 440hz da Associação de Estudantes do Conservatório de Música de Coimbra por Ana Filipa Lopes e Renato Teixeira) 

“Nos tempos sombrios também se cantará?

Também se cantará sobre os tempos sombrios.”

 

Se Shakespeare brindou, com o seu drama, a chegada da cruzada das luzes burguesas e a partida dos crápulas do obscurantismo, do credo, do feudo, e das ideias, Brecht apagou a fogosidade da revolução dos “melhores”, para brindar o povo com a luta contra o fado operário, contra o drama dos “piores”, cantando a libertação dos oprimidos.

Mais filho do seu tempo, do que filho da sua classe, Bertol(d)t Brecht abandona simbolicamente uma das letras do seu nome, como quem abandona a teia social que o viu nascer, recusando o aliciamento para uma vida mais facilitada…

Em prosa ou em verso, lido ou cantado, Bertolt Brecht acreditava que, com o teatro e a música como ferramentas, combateria a alienação, pilar fundamental do regime capitalista. Se foi no papel que ficou o legado do seu génio, foi e ainda vai sendo, em palco, que mais a sua obra transformou e transforma.

Revolucionário na vida e na obra, pois é acima de tudo através da obra que pretende ajudar na revolução, BB cedo constatou que não só estava falida a estética e a moral burguesa, (moderada ou radical, consoante se demonstrava democrática ou fascista), como cedo também se apercebeu das limitações do realismo soviético. Brecht, revela, na forma como gradualmente vai rejeitando a estética do realismo soviético, a sua extrema clareza não só quanto à forma mas também ao conteúdo que a Revolução começara a ter com a chegada dos oportunistas.

No seu pouco mais de meio século, Brecht lutou acima de tudo contra o nazismo que lavrava um dos maiores pesadelos da história do continente europeu, contra a estética burguesa que aprisionava toda a arte em sumptuosos e inacessíveis museus e pela libertação da classe operária que definhava como havia definhado a escravatura no tempo de Shakespeare.

Atacando no coração dos tiranos da sabedoria, Brecht cunha cada fragmento do seu trabalho, do seu subtexto, para alertar os operários, primeiro da urgência da Revolução, depois da chegada dos oportunistas e dos burocratas. Preferindo combater o nazismo exilado nos Estados Unidos da América, do que combater Estaline na União Soviética, BB torna-se referência da vanguarda intelectual dos “aliados”, sem por isso passar a produzir (como tantos o fizeram) para o ego do seu mundo, mas para continuar a transformar, o próprio ego do mundo.

Mergulhar no universo de Brecht é perceber que tudo o que ele pensava da sociedade era aplicável ao processo criativo. O processo criativo era o momento ideal, segundo Brecht, para violar o dogmatismo dos criadores e a sua pretensa genialidade, era visto como o palco privilegiado para ensaiar as suas concepções sobre o colectivismo, o ataque à hierarquia e a desmaterialização do privilégio de classe, na vida e na produção artística. 

Quando Brecht se cruza com Weil…

Bertolt Brecht dizia “… O objectivo do teatro deveria ser    alterar a sociedade. Os locais de diversão devem tornar-se órgãos de comunicação de massas…

Kurt Weil dizia “… Quero chegar às pessoas reais, a um público mais representativo. Se a música estiver confinada à sala de espectáculos, a sua existência não se justifica…

…e quando em 1927 estas duas mentes se encontraram, a poesia de um e a música do outro, os momentos de criação a dois que se seguiram foram de perfeito enlace, e levaram a algo profundamente novo.

Deste duo resulta uma nova concepção de ópera. Weil e Brecht utilizaram uma linguagem musical e poética acessível à maioria das pessoas, utilizando a sua arte para denunciar as desigualdades da sociedade em que viviam, encorajando as suas audiências a pensar, a inquietarem-se, a questionarem. Era convicção de ambos que o seu papel como artistas era o de exercer uma função transformadora e actuar revolucionariamente sobre a sociedade. Ou seja, não queriam apenas explicar o mundo, mas também transformá-lo.

Das obras de Brecht e Weil destacaram-se “A Ópera do Três Vinténs”, “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny e  “Os Sete Pecados Mortais”. Destas obras aquela que mais impacto e sucesso causou foi a “Ópera dos Três Vinténs”. A “Ópera dos Três Vinténs” estreou em Berlim em 1928. Esta ópera, baseada na “Ópera do Mendigo” de John Gay, foi originalmente produzida em 1728. O texto aborda questões sociais, e o estilo musical é aquele dos cabarets de Berlim. Nesta ópera, o mundo é amoral e profundamente capitalista, sendo que os negócios transcendem o próprio amor – facto que constitui um verdadeiro ataque à sociedade capitalista, no qual as emoções se submetem ao poder económico. Por outro lado, os personagens considerados criminosos acabam por ser recompensados, constituindo este facto uma ilustração daquilo que se passa numa sociedade capitalista.

A repressão da sociedade capitalista é retratada de tal modo, que até os mendigos só podem existir dentro desse sistema, ou seja, que ser mendigo se tornou uma profissão.

“…A comida vem em primeiro lugar. Só depois vem a moral…” – é uma das frases que serve de base à maioria da acção nesta ópera, e que funciona como uma provocação para o espectador, pois colocando a comida antes da moral, apela-se para que se considere as actuais circunstâncias de vida de cada uma das personagens (ladrões, prostitutas, pedintes), em vez de julgá-los no abstracto.

As canções/árias que surgem ao longo desta ópera representam um novo estilo, são operáticas na sua apresentação, mas o seu estilo de cabaret inverte a percepção comum de ópera. Estas canções/árias muitas vezes servem para interromper a acção, e fazer com que o público se desligue dos personagens – funcionando como testemunhos sociais. O objectivo era o de levar os espectadores a pensar sobre a peça, e a sentir que a mudança da sociedade em que viviam era urgente.

Quando Brecht escreveu o texto para esta ópera, o seu interesse pela teoria marxista era recente, e talvez por isso os elementos políticos e sociais da peça não são tão claros como noutros trabalhos que desenvolveu posteriormente. No entanto trata-se de uma obra brilhante, que foi central no sucesso dos trabalhos de Brecht e de Weil.

A colaboração entre estes dois homens termina com a subida de Hitler ao poder, e com o inevitável exílio de ambos… os trabalhos que realizaram em tempo de convulsões sociais, tão provocadores e agitadores política e filosoficamente, deixaram bem claro ao regime de Hitler que a presença de ambos era perigosa.

Entrevista imaginária A Bertolt Brecht nos tempos modernos…

(A partir de textos poéticos do autor)

 Como retratas o tempo em que vivemos?

“… Vivemos em tempos sombrios… Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.”
”Os tempos modernos não começam de uma vez por todas…, o meu avô já vivia numa época velha, o meu neto talvez ainda viva na antiga. A carne nova come-se com velhos garfos. Épocas novas não a fizeram os automóveis, nem os tanques, nem os aviões sobre os telhados, nem os bombardeiros. As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras. A sabedoria continuou a passar de boca em boca.”

 E quem é o responsável pelas sombras dos tempos pós-modernos?

“O que tem fome e te rouba o ultimo pedaço de pão chama-o teu inimigo, mas não saltas ao pescoço do teu ladrão que nunca teve fome.”

 Num contexto em que a grande maioria dos direitos está em causa, o que pensas da privatização do ensino?

“Privatizaram a tua vida, o teu trabalho, a tua hora de amar e o teu direito de pensar. É da empresa privada o teu passo em frente, teu pão e teu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.”

 O que dirias aos jovens de hoje que não se interessam por política?

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da renda, dos sapatos e dos remédios, dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, o pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo…”

 Ainda achas que é possível mudar o mundo?

“Não aceites o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.”

Os resistentes de todo o mundo começam a dar uma resposta, muitas vezes radicalizada, contra as infra-estruturas do poder. O que achas das formas de luta que têm vindo a ser adoptadas por grupos como os sem terra no Brasil, dos estudantes mexicanos que ocuparam a sua universidade quase meio ano ou mesmo do movimento anti-globalização que não para de perseguir cada reunião das grandes instituições do poder politico como o G8, a NATO, a ONU ou a UE?

“Sobre a Violência…, a corrente impetuosa é chamada de violenta, mas o leito do rio que a contém, ninguém chama de violento. A tempestade que faz dobrar as bétulas, é tida como violenta, e a tempestade que as faz dobrar os dorsos dos operários na rua?”

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