Ainda sobre Berlusconi

O que se está a passar na blogosfera com o recente caso Berlusconi, em particular entre o 5 Dias e o Arrastão, fez-me sensação de déjà vu relativamente a algo do género que se passou no ano passado. Em poucas palavras: acerca de um assunto diferente, num outro país estrangeiro, o Daniel Oliveira e os seus interlocutores (entre os quais se contavam, coincidentemente, o José Neves e o Nuno Ramos de Almeida) passaram, de forma lesta, da discussão do caso para um o debate sobre a violência em termos genéricos. Tornamo-nos de novo audiência para aquele que é um debate ideológico-filosófico antigo entre amigos* (mesmo  que resvale para categorizações menos simpáticas – o ano passado um jardim infantil; este, um tasco pouco recomendável) –   acabando por repetir-se as mesmas e mesmas coisas, falando-se de violência sem a definir, atacando bonecos de palha, e  esquecendo-se do evento em si.  É sobre este que gostaria de deixar algumas notas para reflexão e comentário. Em particular, agradeço desde já comentários dos leitores que vivam em Itália e/ou conheçam de forma priviligiada a situação italiana, que possam confirmar ou refutar a minha impressão.

Berlusconi criou, praticamente, uma guarda pretoriana. Praticamente à parte do poder judicial, cujo único objectivo é protegê-lo. Que não o protegeu. Ficou, em primeiro lugar, provado que uma extrema política qualquer (ao contrário de Portugal, há-as, e com muita força, em Itália) poderia facilmente acabar com a vida do Cavalieri. Ficou constatado que o homem mais poderoso sangra.

Berlusconi, lembremo-nos, não é um revolucionário, nem um ideólogo.  É um egoísta, acima de tudo. Não o motiva um projecto político que não seja o de se tornar a si próprio mais rico e poderoso. É um velhote, tem 70 anos, e acabou de se divorciar. E agora, voltando ao primeiro ponto, apercebeu-se que sangra.

Mais, que é muito fácil fazê-lo sangrar. Não tem falado, não tem vindo martirizar-se, não tem,  contrariamente à análise do Daniel, capitalizado o martírio para avançar uma causa política.

Talvez esteja enganado, mas penso que pela primeira vez, Berlusconi sente medo. Sente que a sua exposição tem consequências, e talvez sinta que não precisa de se expor tanto.

Talvez eu esteja enganado mas, dito isto, e tendo em conta os recentes e sérios problemas na coligação do governo,  penso que assistiremos dentro de semanas à demissão do senhor que rustiu a democracia italiana nos últimos 15 anos.  Se tal remoção se der, a violência exercida por este simpatizante da Democratici di Sinistra poderá vir a revelar-se ironicamente positiva para a democracia e a esquerda parlamentar, aquela que se desunha nas condenações mais veementes  da agressão.

Por outro lado, há muitas extremas e muitas formas não-parlamentares de combate político em Itália. De uma parte e de outra, estão a sentir-se cada vez mais autorizadas a fazer política como nos anos 70 e 80, se me faço entender. Com esquerdas e direitas que não se entendem no parlamento, nem confiam nele, com alas extremas sem pudores, isto pode vir a acontecer. Não é difícil imaginar um cenário em que, ressabiada com a queda forçada de Berlusconi,  e fragmentada, a direita perca o poder para um governo de esquerda em minoria, e parta para um discurso populista musculado, enquanto grupos das duas extremas se revezam em ataques físicos.

Finalmente, sobre a especulação de que o envolvido no acidente teria distúrbios mentais, já ouvi questionar –  “qual deles?”.

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