Deixa a chuva cair

Sentado no sofá, com uma almofadinha de cor indefinível a aconchegar-me as costas, penso no problema da falta de vitalidade da vida contemporânea. Estou pronto para uma mudança radical. Qual é a tecla do telecomando? São possíveis filhos adoptivos da classe operária, mas fofos? Onde pára o proletariado? Sendo obrigado a ver o Gossip Girl, pela minha acompanhante, parece-me claro que o pior de tudo não é os ricos terem-nos fodido a vida, é obrigarem-nos a assistir aos seus sonhos pueris. Provavelmente, nem são deles, pertencem a algum betinho da Musgueira. Gosto desta passagem de Shakeaspeare (Macbeth, 3º acto, Cena 3) em que Banquo sai do castelo, acompanhado pelo filho, e comenta para uns homens que se encontram no exterior, que a chuva vem aí. Obtém como única resposta uma lámina a rasgar o peito e uma frase curta: “Deixa a chuva cair.” Parece-me uma mudança simpática. Na vida, pior do que as algemas são as almofadas.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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