Sou um criacionista, um ateu místico…

… por isso, se eu tivesse de escolher o disco do ano para tal vos apresentar e recomendar eu optaria por isto:

Die Schöpfung / A Criação de Haydn; por René Jacobs (o dirigente óbvio e, pela minha parte, “crónico”), o RIAS Kammerchor e a Freiburger Barockorchester, coisa muito recente. Esta eleição deve-se a:

— As linhas melódicas e rítmicas de Haydn plasmam-se e ampliam-se na sua vivacidade (alegre, optimista), e numa clareza rara (por exemplo, o vibrato desaparece nas cordas).

— Jacobs entende e dirige como poucos a enorme potencialidade narrativa e descritiva desta música, desde o início da oratória, intenso na representação do princípio do mundo, a que se segue uma imperturbável quietude (como numa paisagem de Poussin), continuando a escrita de Haydn a descrição dos oceanos, animais e primeiros seres, Adão, Eva…

— Esta oratória é, em si, uma versão peculiar do Antigo Testamento, do Génesis, pois aqui desaparece o Deus tenebroso (de quem José Saramago diz não ser amigo); inclusivamente, creio (e julgo não estar errado) que a Igreja nunca apreciou muito esta obra; que termina não com a expulsão do Paraíso e o Pecado Original, mas antes com Adão e Eva falando da felicidade que sentem um junto do outro numa terra onde tudo é perfeito. Nasce o mundo, nasce e continua sem castigo nem pecado. Típico de Haydn, grande grande Haydn (basta recordar, também por Jacobs, Die Jahreszeiten / As Estações, sempre na Harmonia Mundi).

— Por fim, não sei porque é que esta leitura de René Jacobs não entusiasmou a crítica. A BBC, por exemplo na sua página de crítica musical online, diz mesmo serem preferíveis as leituras de Colin Davis e Karajan.

Karajan, aqui?

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16 Responses to Sou um criacionista, um ateu místico…

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