Mundo vermelho

Oiçam a música. Oiçam-na outra vez. Quando me garantem que houve violência a mais, digo-vos que houve a menos. Todos os dias, uma coisa sem nome exerce-se sobre os excluídos. O mais grave dessa brutalidade é que os torna invisíveis. A maioria da cidade não tem direitos. Não são cidadãos. Alguns não podem votar. Vivem no desemprego que às vezes se transforma em emprego de miséria. Nascem condenados. São apenas livres de ser reprimidos – são os Homo Sacer de que fala Agamben. Enquanto a gente se ocupa da telenovela da pequena política, dos pequenos arranjos parlamentares, do elogio do funcionário político do mês, tudo permanece permanentemente na mesma. Peço desculpa de não acreditar no consenso, por mais democrático que seja. A haver solução, estou longe de acreditar que exista, ela não vai ser doce. Tudo o que é novo tem as suas dores, na melhor das hipóteses, de parto. Não há mudança sem revolta. Não se quebra uma violência oculta e permanente, sem, como falava Benjamin, uma violência sagrada.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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