Kremlinologia 2.0

“Se centenas de combatentes republicanos na guerra civil espanhola foram internados em França no campo de concentração de Le Vernet, a sorte de muitos outros não foi melhor na União Soviética. Quem se revelara capaz de lutar num lado poderia fazê-lo no outro, além do que, os comunistas espanhóis haviam mostrado uma capacidade de mobilização e de organização incómoda numa situação em que só se pretendia a obediência passiva. Stalin e o seu bureau político não tinham disposição para correr riscos e enviaram para campos de trabalho numerosos refugiados da guerra civil espanhola. […]

Pelas mesmas razões que o haviam levado a prender combatentes da guerra civil espanhola e antifascistas polacos e lituanos, o bureau político staliniano decidiu, terminada a guerra, internar em campos de concentração muitos, ou mesmo a maior parte, dos militares soviéticos que tinham sido aprisionados pelas forças do Eixo. Era comum a justificação de que esses militares haviam demonstrado pouca combatividade, pois não lutaram até à morte, mas o argumento revela uma completa indiferença quanto às condições em que se processara uma guerra onde os confrontos pessoais quase não existiam e onde se executavam deslocações de enormes massas humanas. A coragem individual pouco contribuía para que massas de soldados fossem ou não cercadas.

Uma vez mais, vemos o que os dirigentes stalinianos realmente temiam ao sabermos que entre os antigos prisioneiros de guerra soviéticos condenados ao internamento nos campos de concentração da Sibéria estavam incluídos aqueles que se haviam destacado na formação de organismos de resistência dentro dos campos de concentração nazis. «Numerosos russos que haviam sobrevivido aos campos de concentração nacionais-socialistas foram depois internados nos do seu país. Mesmo um oficial superior como Nikolay Simakov, unanimemente considerado como o responsável pelos grupos de resistência russos em Buchenwald, foi posto depois da guerra nas prisões soviéticas», observa Hermann Langbein, um dos melhores especialistas do assunto. «Jorge Semprun, que naquela época foi um quadro superior do Partido Comunista espanhol e que esteve ele próprio internado em Buchenwald, escreve que «a maior parte [dos detidos soviéticos] passou directamente dos campos alemães para os gulags stalinianos».”

João Bernardo, Os náufragos, Passa Palavra

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