Tomasi di Lancaster

Nos anos setenta, havia uma só estação de televisão e uma só telenovela por dia. Nessa altura, todas as telenovelas eram grandes êxitos. A terceira ou quarta telenovela a ir para o ar chamava-se “O Astro” e contava a história de um astrólogo que trapaceava as meninas. Um dia, quando a novela ainda estava a passar, o galã brasileiro que fazia de “Astro” resolveu vir a Portugal, aproveitar um pouco a popularidade de que gozava (achava ele). Foi recebido no aeroporto por um bando de mulheres em fúria, que queria bater-lhe por causa daquilo que ele fazia às meninas. Não sei se a esta hora ele já terá recuperado do choque.

Mais perto de nós, diz-se (eu não ouvi) que Catarina Furtado terá uma vez afirmado, numa entrevista, que “como diz Burt Lancaster, é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”.

E mais perto ainda, a propósito deste post, eu tive direito a conselhos terapêuticos, a mensagens preocupadas, a manifestações de sentido pesar. A todas e todos, quero por isso dizer que a primeira pessoa desse post não sou eu, que a minha líbido tem se portado bem, obrigado, que a conta do shrink ainda não me impede de mudar o óleo ao carro, que a orientação da minha casa continua a pertencer à minha fiel Ludmila (que vai lá duas vezes por semana e tem idade para ser minha mãe, entenda-se) e que eu não ajudo camponesas da Beira-Baixa nos duros caminhos da fama (embora possa ficar-lhes com o requeijão, se elas se descuidarem). Sei bem que a fronteira entre a ficção e a realidade é por vezes ténue, mas eu estou demasiado gordo para fazer strip-teases morais à frente de tanta gente.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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