Viva o horror, viva a arte: uma resposta a Saramago

O que é que Saramago nos diz da Bíblia, livro que eu adoro e devoro? Bom, que é um catálogo de maus costumes, de horrores, de crueldade, do pior da natureza humana, um puro e dramático absurdo sem o qual a humanidade hoje viveria melhor. Mas o problema está precisamente aí: a arte e os artistas abominam esse “mundo melhor” de que fala Saramago, um mundo sem crueldade e sem vingança, um mundo clean, liofilizado e pasteurizado, uma coisa limpa, inodora e – pasme-se, o pior de tudo – um mundo racional e humano.

Este sim, seria o horror dos horrores. Este paraíso da convivialidade, relacionalidade, harmonia e humanidade. Num mundo desses eu não gostaria de viver. Esse é o mundo dos poderes existentes (mas decadentes), o mundo da economia vigente, o mundo desenhado por ricos e poderosos, ou militantes e chefes das instituições poderosas que Saramago se tem especializado recentemente em apoiar: desde os Zapateros aos mais pequeninos Antónios Costas – fique ele com esse mundo que eu quero o mundo sacrificial do humano que deseja ultrapassar ou superar a sua fraca condição (que Georges Bataille, tudo menos católico, muito bem compreendeu!); gosto, sim, e não estou a fazer teatro nietzschiano, gosto do horror divino que inspirou Michelangelo a encarquilhar-se, mais em nome da arte que de Deus (!), durante mais de três anos nos andaimes da Sistina pintando o tecto que hoje celebramos e, evidentemente, Saramago não (impossível celebrá-lo – seria hipócrita se o fizesse). Michelangelo que desmanchou literalmente a sua ossatura vivendo três anos (!!) de ventre para cima com um tecto, uma parede branca e informe, como horizonte a dois ou três palmos da sua testa. Não, não seria o mundo limpo e humano de Saramago que o inspiraria, digo eu que o toscano não passaria um único mês naquela horrível situação de vida em nome desse mundo “humano”.

Ora merda para o humano mundo “humano”. Que viva pois a crueldade da espada que Cristo, em Mateus, disse vir trazer à terra (X, 34-37). De facto, Saramago sabe ainda pouco. Quase nada. Não sabe ele que se sacrificaram, em meados do século XVIII, cerca de 4000 (quatro mil !!!!) jovens rapazes por ano para produzir industrialmente a máquina vocal mais esplendorosa e eficaz que jamais a humanidade concebeu? Quatro mil jovens eram castrados só em Itália por essa altura, sendo cerca de três mil em Nápoles, onde os Conservatórios, quatro (!) produziam castrati como se de uma indústria se tratasse, Conservatórios religiosos católicos, note-se bem, que deixaram de ser lugares de beneficência para serem lugares arriscados de corte de testículos e de canais espermáticos para que jovens chegassem à idade adulta com capacidade muscular, vocal e pulmonar (para 3 ou 4 oitavas) desenvolvidíssimas e laringe pré-púbere, máquinas vocais que superavam em muito as das mulheres e dos actuais contra-tenores (pobres imitações).

Desses 4000 jovens que anualmente eram amputados ficaram as glórias de Farinelli, Cafarelli e Sanesino, lendas, metade homens-metade mulheres ou metade máquinas, discípulos desse torcionário (?) professor e notável compositor que foi Nicola Porpora (que os impressionáveis não o ouçam, então). Em nome de quê esta prática?, e a produção destas vozes para a imortal música de Porpora, Caldara, Vivaldi e Handel?? Em nome da beleza musical?? Não, não apenas, mas também em nome do que a igreja achava ser essa mesma “beleza musical”. A igreja que no seu Livro dos livros era e é um “catálogo de crueldades” também o era em arte, e graças a Deus (ou a outra entidade, uma vez que não me posso considerar um crente) que o era e foi. Coisas da vida…

Cecilia Bartoli, neste seu último e também na minha opinião melhor disco (o pior data de 2003 e foi dedicado a Salieri, não por causa da música deste, mas porque aí Bartoli se comporta como uma Kalashnikov de pirotecnia vocal), precisamente intitulado Sacrificium (saiu este mês), presta homenagem a este “massacre” em nome do belo e às ruas de Nápoles de então, o reino mais pobre de Itália, onde nas portas das lojas mais vulgares se lia, “Qui si castrano ragazzi a buon mercato!” Ora, “bom preço”, nem mais, e “Evviva il coltellino”. Crime e glória. Ou como alguém dizia em meados do século XIX – “embora tenha sido um avanço moral para a humanidade ter acabado com esta ignominiosa prática, foi uma perda irreparável para a arte a privação destas vozes sobrenaturais”.

Crime e glória, e que viva em nós o sobrenatural.
Sobretudo o que sabemos fabricar!

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