Kim il Sung live on Benfica TV

SUNGA

Observar alguns minutos da Benfica TV é uma experiência a um tempo hilariante e quase alucinatória. Ali, todas as faltas contra o Glorioso foram inventadas; cada queda na área inimiga é um penalty escandalosamente roubado; cada exibição titubeante um monumento à arte suprema do futebol. Ali, o Benfica é uma entidade infalível, magnífica e inquestionada porque inquestionável.
Visitar o Simplex deixa-nos uma sensação de pasmo similar. Sócrates esmaga todos os oponentes. Melhor, espeta-lhes cabazadas homéricas. A sua sageza e capacidade discursiva não têm fim. Mais do que como um tribuno, aquele homem é descrito como a materialização de todas as virtudes: ele esclarece, ele ilustra, ele argumenta, ele humilha os adversários. Imagina-se que todos os oponentes partam para os debates contra semelhante força da Natureza com nós na garganta, ameaças de incontinência urinária e fraquezas várias nos membros inferiores. Afinal, contra uma figura deste sobre-humano jaez, o que pode um simples mortal sonhar fazer? (Ninguém imaginaria que a criatura em questão é aquela que até chegar a PM só acumulou nódoas e suspeitas no currículo, mas enfim…)
Os fiéis evocam a sua figura miraculosa como os pobres norte-coreanos recordam o seu mito fundador: as andorinhas cantam para sublinhar cada sorriso seu e da sua serena face jorra a luz que ilumina o mundo e escorraça a ignorância.
O Zé Neves já aludiu ao carácter quasi-religioso da experiência simplex e à raridade de um poucochinho que seja de comedimento por parte dos acólitos. Fica a dúvida: aquela malta não entende as tristes figuras que faz? Perderam de repente o sentido das proporções e do ridículo? Haverá calculismo ou carreirismo que compense a pública incineração da dignidade, da independência e de qualquer resquício de pensamento sério?
A realçar esta faceta mística, já apareceu um fiel a lamentar que se ande a «trocar Deus pelo iPod», desfiando depois um rosário de platitudes onde confunde ciência com tecnologia e entoa ainda umas eco-preces. Mas claro está que esta alma iluminada não poderia terminar sem uma grotesca ressalva ritual, não fosse a seita lapidá-lo por apostasia: «para evitar aproveitamentos informo que apoio o excelente e pioneiro investimento realizado pelo Governo PS em matéria de ciência e tecnologia ao longo dos últimos 4 anos».
Ouçam bem o que vos digo: o socratismo ainda vai dar em religião. Não tarda, começam a pedir-nos dízimos.

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