VALE TUDO? Vale.

Leio a entrevista de Ferro Rodrigues ontem ao “Expresso”, e vejo que numa das partes, ou por causa de uma das suas partes, eu estou perante uma das mais ridículas entrevistas recentes a um político ou ex-dirigente político – refiro-me à forma como o tema “coligações” aí é abordado. O PS fez e faz da exigência de publicação de “programa” eleitoral aos outros partidos o seu cavalo de batalha. Acusa o PSD por não o ter apresentado e/ou publicado (e ainda hoje uma voz sem espírito crítico e completamente rendida à propaganda banal, M. Vale de Almeida, insiste nesta questão). Acusa-se o PCP e o BE de terem programas “fora da realidade” e/ou quase iguais – como já disse, e reafirmo-o as vezes necessárias, esta acusação de estar “fora da realidade” é a mais estúpida de todas. Como se a realidade, tal como a temos defronte, tivesse de condicionar o nosso pensamento, ideias e modo de vida.

Entretanto, o PSD apresentou o que chamou de linhas programáticas, insistindo num programa “minimalista”. O BE apresentou o seu e a CDU igualmente. Os destes últimos são claríssimos: propõem nacionalizações de sectores-chave da economia nacional (lógico e de aplaudir), regulação estatal da banca (ou nacionalização da banca comercial), recusa de privatizações que o PS tem encapotadas e ocultas, melhoramento e cuidado dos serviços públicos, algo que nestes anos o PS tem tentado destruir. As linhas programáticas do PSD, obviamente, nada têm a ver com estes tópicos.

Mas Ferro Rodrigues, dirigente ou ex-dirigente do PS, a tudo isto é indiferente, ao ponto de dizer que o PS vai lá com todos: BE, PCP/PEV – CDU e PSD. COM TODOS! Chama-se o BE e o PCP e, se não der, chama-se o PSD, mantendo sempre o PS num sítio chamado “Governo”, vá lá saber-se porquê. Ora, este “ir com todos” é rasurar e rasgar o trabalho programático de cada um, é ignorar os outros e a sua singularidade, é desrespeitar as ideias contrárias e a própria democracia. É dizer: que ninguém apresente programas que para nada servem. É dizer ainda que o ideial seria cada um ter programa em branco. Brancura total como este livro de 1 página do conceptualista Robert Barry:

Robert Barry. “One Page Book”. Edição 2007.

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