Mudar o mundo a posteriori (1)

O Carlos relembrou algo de óbvio, embora muitas vezes esquecido: a política pode e deve almejar a mudança da realidade, não apenas a sua gestão e conservação. Correcto. Mas o PCP tem desta acção proteica uma visão muito mais alargada: deseja alterar o presente e o porvir e também o passado. Para tal, nem precisa de acção: o Verbo tem de bastar. Ignoremos as grotescas tentativas de transformar uma abominação como a Coreia do Norte num exemplo heróico. Concentremo-nos antes no esforço tremendo que hoje em dia fazem na Soeiro para digerir e explicar o colapso da União Soviética, tecendo elaboradas e retorcidas fábulas que ainda se encontram em fluxo, antecedendo por certo a criação de uma nova e férrea mitologia.
Há por lá quem jure que «Gorbatchov teve o papel principal na derrota do socialismo, acompanhado apenas por arrivistas e traidores de que se rodeou para torpedear a mais brilhante conquista da história da humanidade». Outros encontram no capitalismo o vilão que desarticulou a URSS e enfraqueceu o «prestígio do socialismo», enquanto que vozes mais avisadas admitem que «o PCUS se afastou do projecto leninista e gradualmente tomou ali forma um estado burocrático incompatível com os princípios da democracia socialista.»
Mas em nenhuma daquelas sisudas meninges entrará alguma vez a ideia de que se calhar o seu sonho ruiu porque tinha uma qualquer falha de concepção, um bug logo na raiz dos estados ditos socialistas. Não; admitir isso abriria abismos de dúvida, logo de fraqueza.

Fazer por ignorar aspectos da realidade também é mudá-la; mas só mesmo na nossa cabeça.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

11 Responses to Mudar o mundo a posteriori (1)

  1. Luis diz:

    “Fazer por ignorar aspectos da realidade também é mudá-la; mas só mesmo na nossa cabeça.”

    Bem quem parece que anda a fugir de encarar o presente é quem como o Luís Rainha nem sequer ousou ainda opinar sobre o Programa Eleitoral do PCP, um Programa de Ruptura, Patriótico e de Esquerda. Ouse então o Luís Rainha trazer para aqui a discussão deste Programa de Ruptura, Patriótico e de Esquerda. Eu sou dos que acham que a pré-campanha eleitoral é o tempo adequado para tratar de propostas e projectos concretos e que já tivemos quanto baste de romances de Verão e engraçadismos folclóricos, mais ou menos saudosistas.

  2. Fosca-se diz:

    Luis Rainha heterónimo do João Galamba,quiçá do Jaime Nogueira Pinto

  3. Luis Rainha diz:

    Alguém que espalha maiúsculas como em “Programa de Ruptura, Patriótico e de Esquerda” só pode estar com a razão.

  4. i.tavares diz:

    Sabe Senhor.Tenho a convicção,que o mundo se transformará para melhor ,com a influência de homens bons e bons homens. O contrário será continuar nas mãos de quadrilhas de mal feitores,como por exemplo as que nos tem governado a saber:Opus Dei o Grupo de Bildeberg,não sei se é assim que se escreve se não desculpe, podemos também incluir no caso português a maçonaria.

  5. Justiniano diz:

    i.tavares!
    É a trilhateral!

    Rainha!
    Não diga isso…”bug” pode ocorrer que levem a ideia à certa e toca a ceifar pessoal com cara de “bug”, assim à laia de missionário em dia de sopa a extirpar a raíz do mal.

  6. jf diz:

    entre a grécia antiga e as repúblicas actuais distam uns séculos. o manifestou comunista só tem 150 anos, e claro que tem bugs.

  7. Luis diz:

    Coitado, o Luís Rainha ainda nem tempo teve para dar ao menos uma vista de olhos sobre o Programa Eleitoral do PCP acabado de apresentar ao país e que é uma contribuição séria de uma força política responsável, com um percurso de acção, proposta mas também trabalho e obra realizada que se apresenta aos trabalhadores e ao povo pronto a assumir todas as responsabilidades que com o seu apoio e o seu voto os eleitores lhe quiserem atribuir.

    Um programa que acolhe, sistematiza e aprofunda, ainda que sem o esgotar, nas condições concretas a que a política de direita conduziu o país, o vasto património de reflexão e proposta e o inesgotável enriquecimento decorrente da resposta pronta que a cada momento o PCP foi chamado a dar aos mais urgentes problemas nacionais.

    Um programa de ruptura, patriótico e de esquerda, capaz de responder aos problemas que 33 anos de política de direita acumularam no País e de abrir caminho a um outro rumo e a uma outra política, alternativa e de esquerda.

    De ruptura com a política de direita que há mais de três décadas compromete o futuro do país, que responda com a emergência que a situação reclama aos problemas estruturais do país, que retome os valores libertadores de Abril.

    Patriótico porque o novo rumo e a nova política que Portugal precisa tem de recolocar no centro da orientação política a afirmação de um desenvolvimento económico soberano, a redução dos défices estruturais, a defesa intransigente dos interesses nacionais articulada com a necessária cooperação no plano europeu e internacional.

    De esquerda, porque, sem hesitações, inscreve na política alternativa que propõe ao país a valorização do trabalho, a efectivação dos direitos sociais e das funções sociais do Estado, uma distribuição do rendimento mais justa a favor do trabalho e o controlo pelo Estado dos sectores estratégicos nacionais.

    Um Programa que integra e projecta orientações e linhas fundamentais de acção para um programa de governo que assegure uma efectiva política de esquerda. Um Programa que é ao mesmo tempo compromisso e condição de ruptura e de construção de uma nova política e de um outro rumo para o país, indispensáveis a uma vida melhor para os trabalhadores e para o povo, num Portugal de progresso e justiça social.

  8. Luis Rainha diz:

    Que “todas as responsabilidades”? Estamos a falar de um partido com 10% ou menos do eleitorado…
    Mas o coitado do Luis conseguiu ainda chegar àquela parte em que se escreve “considerando a cultura artística e científica como uma componente estratégica essencial para o progresso nos planos económico e social”.
    “cultura artística e científica”? Mas o que é isso? E a Arte agora é coisa “essencial” para o tal plano económico?
    Desisti.
    O Vidal que não leia isto que vocês lá perdem mais um voto.

  9. Luis diz:

    “Estamos a falar de um partido com 10% ou menos do eleitorado…” coisa pouca, portanto…Olha para ele tão grande!

  10. Carlos Vidal diz:

    Há só uma coisa que me faz alguma confusão no teu texto. Vejamos se me explico. Cito-te:
    “Mas o PCP tem desta acção proteica uma visão muito mais alargada: deseja alterar o presente e o porvir e também o passado.”

    À partida a frase parece ser um bom argumento. Mas, pensando bem…
    As leituras que tecemos do passado, na história, na filosofia, na ciência, etc, estão fixadas por quem?
    Não será que as podemos mudar todas as semanas, de forma fundada?
    (Ou todos os anos? De onde te vem o passado como “escrita fixada”?)

  11. Luis Rainha diz:

    Carlos,

    Quando apagas gente de fotografias, quando te recusas sequer a analisar o passado, quando partes de uma ideologia presente e forças a história a encaminhar-se para esse zénite, não estás a fazer leituras; estás voluntária e utilitariamente a deformar o passado.
    E não te esqueças e que o nosso relacionamento com esse passado está aberto a polémicas, aprofundamentos e complexificações; experimenta agora ir para o PCP a questionar a bondade de um estado como o da URSS…

Os comentários estão fechados.