Estereótipo, primarismo e provocação num pobre “texto” de J. Teixeira Lopes


Hélio Oiticica. Nildo da Mangueira com a capa-parangolé “incorporo a revolta”. 1967.

Leia-se bem esta pérola, que desconheço quem e o que representa no BE (talvez o próprio BE, quem sabe); está aqui tudo o que a autodenominada “esquerda democrática” diz do PCP: que tem uma concepção estalinista dos direitos humanos (não adianta criticar ou repudiar Estaline, é-se sempre estalinista quando o BE, o PS ou o CDS querem); além do mais, os “direitos humanos” e a “democracia” (esta sim, uma verdadeira cortina de ferro, pois aponta o dedo do “totalitarismo” a toda e qualquer proposta social-política de ruptura) fazem parte de uma ética retórica de extrema pobreza e sem significado: os “direitos humanos” são, do ponto de vista da argumentação séria, um conceito vazio, que parte de um “homem” fraco a necessitar de protecção legislativa. Por outro lado, também é o conceito que legitima  as “invasões humanitárias”.

Os outros clichés do BE também estão aqui: as ideias vagas de “socialismo século XXI” ou de “socialismo” contra o comunismo do PCP (esta oposição não percebo mesmo), a retórica também fútil da “diferença” e da “dialéctica perpétua” (o que é isto?). Por fim, J. Teixeira Lopes brinda-nos com a mais obtusa das acusações: quando a realidade contradiz o partido é a realidade que está errada e nunca o partido. Este argumento é inaceitável e infantil: ora bem, claro que é a realidade que está errada, evidentemente. E julgo que qualquer partido assim o considera ou deve considerar, porque a política é exactamente um trabalho de transformação da realidade, e não um processo de perpétua adaptação (apesar de J. Teixeira Lopes e o BE gostarem muito da palavra “perpétua”, que é nome de vizinha).

Repito: julga o partido que é a realidade que está errada……. Politicamente está errada, claro. Precisamente porque a política não é nem será adaptação à realidade. Ou o Bloco de Esquerda julga e defende que é? Ainda usam este argumento? Dr. Francisco Louçã, ainda estão neste patamar?

Leia-se então um pedaço da pérola, depois toda:

O PCP mantém intacta a visão estalinista sobre o indivíduo e os Direitos, Liberdades e Garantias fundamentais. Por isso, a questão das subjectividades e da política da diferença e do vivido devem subjugar-se aos princípios tidos como universais e colocados no topo da hierarquia. (…) Por outro lado, a eliminação física de adversários e o seu silenciamento serão sempre justificáveis face a fins supremos (visão teleológica da História).

Concretamente, J. Teixeira Lopes está a falar de quê?

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30 Responses to Estereótipo, primarismo e provocação num pobre “texto” de J. Teixeira Lopes

  1. closer diz:

    Há ligeireza em algumas críticas de João Teixeira Lopes. Mas peço ao autor deste texto que tenha a paciência de ler o Avante semanalmente com atenção. De forma discreta lá vão surgindo as pérolas de apoio à Coreia do Norte ou à China.
    Infelizmente, o texto de Carlos Vidal sofre do mal que critica: é pobre de ideias. Quando é que o PCP rompeu ideologicamente com o estalinismo quer na teoria, quer na prática? Desde quando é que os direitos humanos são arma de arremesso? recentemente o Avante rejubilava com o facto do PC da China já ter 78 milhões de membros, mas nem uma palavra foi proferida sobre a repressão aos uigures.
    O problema de Carlos Vidal é que por detrás de uma retórica«pesada» e quase filosófica, o Muro de Berlim continua a funcionar. E os processos de Moscovo de 1937 nunca existiram. Nem a expulsão de Luísa Mesquita …

  2. Leo diz:

    Desculpe lá mas quem é este Lopes?

  3. Luis Rainha diz:

    Os direitos humanos são um conceito vazio porque remetem para um homem fraco? Mas o homem, genericamente falando, será forte onde? E trata-se de um conceito a evitar pois já justificou invasões? Olha que a democracia também “justificou” a invasão do Iraque e os direitos das mulheres também foram em tempos uma das desculpas para invadir o Egipto. Deita-se fora tudo o que é abusado para fins manhosos? Isto é que me parece um argumento débil…

  4. Luis Rainha diz:

    Mas a coisa tem passagens deliciosas, lá isso tem. Como esta: «extirpa-se a própria dialéctica no seu movimento perpétuo e prefere-se a cristalização monolítica e propagandística, assente numa série de palavras e sub-conceitos fetiche que devem ser repetidos à exaustão para se tornarem discurso “Comunista”. »
    Ahn?

  5. Luis Rainha diz:

    Já agora, quando afirma que «Se a realidade contradiz o Partido é a realidade que está mal e jamais o Partido» o homem pode ter em mente coisas como a “explicação” (ou a assumida falta dela, ou as diferentes versões da coisa, sei lá) que o PCP adianta para descrever o fim da União Soviética. Ou foi traição de uns quantos, com o Gorbachev à cabeça, ou foi um ataque letal do capitalismo… ou simplesmente andam a leste do que se tem passado no mundo.
    É que isso da transformação da realidade é bonito mas tende a funcionar mal quando aplicado ao que já aconteceu.

  6. JP diz:

    O pós-modernismo no seu melhor.
    O artigo não faz o menor sentido e não passa de um chorrilho de preconceitos. Talvez fosse melhor JTL deixar de se informar sobre o PCP através do Expresso.

    Quanto ao texto, há uma máxima americana que o resume bem:
    “If you can’t dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit!”

  7. Beatriz diz:

    Pois mas eu prefiro esta noticia elucidativa….

    O candidato da CDU por Alcochete Jorge Giro andou a trocar uns sopapos com Luis Proença candidato do do PSD á mesma Camara.

    Isto sim é que é debate politico, não é Caro Carlos Vidal….

  8. Corvo diz:

    Naturalmente os chamados artigos de opinião de puro ataque ao BE , com que nos brinda semanalmente o Avante, não são provocatórios….

    O artigo de opinião do Teixeira Lopes, até está bem feito, rebatam as afirmações que ele faz.

    Afinal qual é a posição do PCP sobre a Coreia do Norte…

    Afinal qual é a posição do PCP sobre a repressão no Irão….

    Porque defende o PCP o regime que vigora na China…..

    Quando se sabe o que se passou com Luisa Mesquita, com Carlos Sousa de Setubal, com o Presidente da Camara de Sines, com o Presidente da Camara da Marinha Grande etc etc etc.

    E as criticas que alguns destes militantes fizeram ao funcionamento anti-democratico da direcção do PCP.

    A aberração em que se transformou o principio leninista do centralismo democratico, que hoje não é mais que Centralismo Burocratico.

    Em suma se o PCP estiver interessado em rebater politicamente , deve fazê-lo com argumentos politicos.

    E não com artigos de opinião do Avante , em que se chega ao ataque pessoal.

  9. Justiniano diz:

    Vidal!
    Acompanho-o no desdém e na nortada ao T. Lopes, continue enquanto a vergasta ainda está quente, assim à guisa ferreiro.
    Não sabia que o PCP tinha uma visão sobre o indivíduo.
    Também não sabia que o BE já tinha interiorizado o discurso legitimador liberal (direitos, liberdades e garantias).

  10. Sérgio Pinto diz:

    Carlos Vidal,

    A retórica que usa para escapar à realidade é muito bonita e tal, mas continua sem explicar o que leva o PCP a continuar a incluir, nas suas teses aprovadas em congresso, regimes adoráveis como os da Coreia do Norte, da China ou do Vietname como exemplos a seguir

  11. Justiniano diz:

    Os “Direitos Humanos” (vazio???!!! Pode é estar demasiado cheio!!! Não é Vidal!?), aqueles inerentes à dignidade da pessoa humana (gente) não partem de um ” “homem” fraco a necessitar de protecção legislativa.”. Pelo contrário, meu caro, são hetero determinantes, não necessitam é de perturbação legislativa.

  12. Leo diz:

    “o Muro de Berlim continua a funcionar. E os processos de Moscovo de 1937 nunca existiram. Nem a expulsão de Luísa Mesquita …” ????
    Interligar casos de há mais de 70 anos passados a milhares de quilómetros de distância envolvendo protagonistas soviéticos, com outros de há vinte anos igualmente a milhares de quilómetros de distância envolvendo desta vez protagonistas germânicos com o desrespeito dos Estatutos partidários por parte duma ex-deputada comunista é no mínimo tontice… à Lopes.

  13. ezequiel diz:

    eu n conheço o Sr Teixeira mas interpretei este seu texto contorcido desta forma:

    Visão Teleológica-Telos: criar uma grande merda!

    assim

    pode-se sacrificar um indivíduo ou vários (mas nunca a maioria, seria uma chatice) em nome da criação de uma grande merda.

    dado que o comunismo

    “é um horizonte q se afasta à medida que dele nos aproximamos….” (piada Húngara, julgo eu)

    o telos, nunca realizado, transforma-se, por via da impossibilidade da sua concretização, num transcendente normativo puro, sempre eticamente defensável…mas nunca transformado em realidade. para o comunista a realidade é a grande culpada, claro. a realidade é que paga às favas. o transcendente mantêm a sua pureza, a sua grande sedução, jamais “contaminado” pelas muitas contradições da história. comunas e be’s são freiras e padres disfarçados: o ideal vem sempre primeiro. erradi. bahh LOL

    em suma, o sr teixeira parece estar a querer dizer que o comunismo é um ideal que inspira muitos sacrifícios dos não religiosos. LOL ou será que ele quer dizer que o comunismo assenta na ilusão imbecil de que é possível compreender e explicar o politico e o social cientificamente? (com as categorias e lógica do marxismo, comunismo, com ou sem estaline) eu sempre gostei muito dos aspectos religiosos do Marxismo. nem imagina a felicidade que senti quando compreendi que os comunas e outras aves da esquerda são religiosos. nem imagina. dei pulos de alegria.

    por outras palavras, o sr teixeira está a dizer que se o sr prof Vidal fosse PM deportaria para Mirandela (terra linda) toda a crew do Jugular, com os seus amigos e familiares…. uns aninhos de trabalhos forçados para ensinar aquela malvada da f a saber o que custa a vida. LOL LOL ehe heh eh eh eh todos a picar pedra. eh eheh eh e he:) n seja assim, sr prof. eu imagino-o até como director do SIS, um gigantesco quarto, repleto de grandes obras pedagógicas. há que ensinar esta gente, não é sr prof?? é preciso ensiná-los a ver a verdade. não é isso que o sr pensa?? 🙂

    são mesmo simples.

    eu safava-me porque o sr Prof simpatiza comigo, apesar de tudo. 🙂

    cumprimentos
    ezequiel

  14. ezequiel diz:

    mas os preços das viagens para Cuba baixariam radicalmente…

    podia ir lá comprar charutos. eh ehe heh eh

    🙂

  15. Leo diz:

    1 – “Afinal qual é a posição do PCP sobre a Coreia do Norte…” Pela enésima vez aí vai o que foi aprovado no ultimo Congresso: “Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia. Com percursos diversos, experiências históricas próprias, evoluções distintas, problemas e contradições inerentes ao processo de transformação social num quadro de relações capitalistas dominantes, estes países estão sujeitos pelo imperialismo a uma intensa campanha de pressões económicas, ameaças militares e operações de desestabilização e intoxicação mediática que encerram graves perigos para a segurança internacional e que, a vingarem, significariam um grave retrocesso na luta libertadora. Independentemente das avaliações diferenciadas em relação ao caminho e às características destes processos – a exigir uma permanente e cuidada observação e análise – e das inquietações e discordâncias, por vezes de princípio, que suscitam à luz das concepções programáticas próprias do Partido, o PCP considera que não há vias únicas de transformação social e reafirma o inalienável direito destes países e dos seus povos, como de todos os povos do mundo, a decidir livremente sobre o seu próprio caminho. É esse o interesse da causa do progresso social e da paz em todo o mundo.”

    http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=32864&Itemid=763

    2 – “Afinal qual é a posição do PCP sobre a repressão no Irão….” ??? Só o interessa a “repressão no Irão”? A que ocorre – neste preciso momento – nas Honduras, Iraque, Afeganistão, Somália, Etc., são coisas de somenos?

    3 – “Porque defende o PCP o regime que vigora na China…..” Verá que encontra a resposta no 1.

  16. Leo diz:

    “Pois mas eu prefiro esta noticia elucidativa….” E curiosamente, nem sei porque associação de ideias, veio-me à memória o enxerto de porrada que activistas do BE deram, numas anteriores campanhas eleitorais, a jovens activistas da CDU frente, salvo o erro a uma empresa têxtil lá prás bandas de Vizela, a pretexto de que “a fábrica é nossa, não têm o direito de aqui distribuirem propaganda”. Resta dizer-lhe Beatriz que um dos jovens teve que receber tratamento hospitalar. Pode conferir a história com os seus colegas vizelenses.

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  18. Beatriz diz:

    O candidato do PSD á Camara de Alcochete Luis Proença, desistiu da candidatura , porque não quer que a familia sofra as consequências da sua opção politica.

    O que tem a dizer disto o candidato Jorge Giro da CDU, e já agora o PCP de Alcochete…….

    O militante do PCP Pedro Namora de Setubal , depois de dizer cobras e lagartos da militante do PCP Dores Meira tambem de Setubal, vai-se candidatar pelo PPM.

    Pedro Namora via traição por todo o lado, acusava militantes do PCP por dá cá aquela palha de de sociais democratas , de trairem o comunismo, inimigo de tudo o que lhe cheirasse a esquerda não alinhada com o seu divino e intocável PCP.

    São normalmente estes mais radicais, tipo Leo, Carlos Vidal e companhia, que seguem anos mais tarde ,seguem o exemplo da excelsa Zita Seabra.

  19. Beatriz diz:

    Leo quer que eu lhe relembre, a forma como o PCP actuava nos plenários da Lisnave, e as constantes agressões a militantes de outras forças politica, sobretudo de esquerda.

    Quer que eu lhe relembre como forças á esquerda do PCP , eram literalmente atacadas , quando tentavam fazer campanha em certas zonas do Alentejo , ou em cetas fábricas de Setubal.

    Há uma historia de anos , de sectarismo agudo, e uma incapacidade de certos miltantes do PCP, de lidarem com pessoas com outro tipo de opiniões.

    E esse sectarismo, tem depois consequências como o caso de Alcochete.

    O mais estranho é que o PCP tem como aliado preferencial nas autarquias o PSD, mas pelos vistos em Alcochete não é o caso

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  21. António Figueira diz:

    Este texto é interessante e o Carlos Vidal parece-me que fez bem em destacá-lo; à parte as suas passagens mais pitorescas (as elocubrações sobre “as subjectividades”, por exemplo), reflecte a contradição (irresolúvel?) de um partido whiggish, “liberal-radical”, que poderia ser a ala esquerda do PS se o PS não fosse o que é (o slogan “justiça na economia” resume-o bem), mas que se apresenta ao mesmo tempo como partido de trabalhadores; ora o BE poderá ser um partido para trabalhadores – o que não é, é um partido de trabalhadores, e este texto prova-o bem.

    PS: O BE é a mais bem sucedida tentativa de sempre de romper o tetra-partidarismo da II República; é, a vários títulos, um fenómeno político e social muito interessante e, no entanto, não existe, nem sequer na academia, um estudo decente sobre ele – que explique a sua origem, caracterize a sua base de apoio, defina a sua influência, etc.; é uma pena.

  22. Leo diz:

    A Beatriz por força quer-nos responsabilizar por opções alheias e coitada ficou parada no século passado. O mais que lhe posso dizer é que estamos em pleno século 21. E no ano da graça de 2009 a mês e meio de eleições legislativas.

  23. Leo diz:

    O que o António Figueira chama de “passagens mais pitorescas” eu chamo de insuportável pesporrência, insultuoso, difamante, ofensivo. Não particularmente para mim ou para a minha geração, mas para os que nos precederam e ajudaram a construir coisas como a Reforma Agrária, as Nacionalizações e a elaborar a Constituição da República Portuguesa, fruto maior do Portugal de Abril que persiste.

  24. Sérgio Pinto diz:

    O mais que lhe posso dizer é que estamos em pleno século 21. E no ano da graça de 2009 a mês e meio de eleições legislativas.

    Ao que parece, mesmo em 2009, ainda continuam a eleger a Coreia do Norte como exemplo e a ficar completamente emudecidos perante a repressão brutal exercida pelo regime chinês.

  25. Chico da Tasca diz:

    Eu não queria intervir nesta discussão mas não resisto a este parágrafo de um tal de Leo :

    “Não particularmente para mim ou para a minha geração, mas para os que nos precederam e ajudaram a construir coisas como a Reforma Agrária, as Nacionalizações e a elaborar a Constituição da República Portuguesa, fruto maior do Portugal de Abril que persiste.”

    As “coisas” a que se refere : a Reforma Agrária, as Nacionalizações, a Constituição são todas elas uma boa merda, e por junto, mandaram-nos vinte anos ou mais para trás, de tal forma que ainda andamos a pagá-las.

    Senhor Leo, o Comunismo, ou por outra, o Comuno-Fascismo, é pura e simplesmente indefensável !!!!

  26. Carlos Vidal diz:

    Bom, tentarei clarificar algumas questões, pois todas é impossível, e, não sendo militante do PCP, sei que as posições ou discussões sobre certos países não têm consenso interno. Mas vamos a exemplos e a concretizações detalhadas (que não coincidem forçosamente com as posições do partido):

    1.
    O BE sempre se arvorou em porta-voz de todos os povos oprimidos, todos por igual (como se, por exemplo, o problema basco e o palestiniano fossem idênticos), tratando todos os problemas étnicos ou de nacionalidades da mesma forma. Ora, tratando tudo por igual e amplificando tudo, acabam por não pensar em nada e em transformar as lutas que dizem observar e atentar em espectáculo circense. Tem acontecido.
    Quanto aos conflitos étnicos e problemas de nacionalidades, não sei o que o BE pretende, mas palpita-me uma solução de multiplicação dos estados existentes por 100 ou 200, como se a criação de um “estado” fosse solução mágica para tudo (só em Espanha nasceriam mais quatro ou cinco, contudo sem composição étnica pura, e seria horrível se tal pureza fosse possível). O que pretende o BE e seus apoiantes? Eu, por exemplo, sou o mais possível crítico de Israel, mas apoiaria uma solução 1 estado 2 povos (segundo um modelo que resultou na África do Sul com o fim do apartheid, considerando eu que o apartheid existe em Israel). Portanto, pretende o BE um encapsulamento mundial tipo 1 povo 1 estado (uigures, corsos, bascos, curdos……………)?? Bom, se o PCP é acusado de universalismo (que é uma forma de cosmopolitismo) a este propósito, ainda bem, pois a partição étnica do BE para resolver problemas éticos é tenebrosamente errada (nacionalista e de direita dura).
    Concretamente, a China oprime os uigures? Sim, pelas notícias sim, não sou negacionista, tal como prime os tibetanos que antes eram oprimidos numa sociedade feudal (o que não justifica a situação actual). Soluções: mais 2 estados? Federações?
    Falando mais a sério, à distância em que estou/estamos do problema parece-me uma boa solução aplicar-se ao Tibete e a outros territórios autonomias como a de Macau e Hong Kong. Agora não defendo é 1 etnia = 1 estado: isto deixo para o PNR !

    2.
    O eterno problema da Europa de Leste. Outra vez, não é verdade? É uma questão mais do que complexa, que não posso abordar e muito menos aqui, mas posso dizer que não pretendo contrariar a realidade e os factos: estes modelos desapareceram para sempre, falharam porque os seus partidos comunistas se equivaleram a Estados (mas há mais razões); contudo, a hipótese comunista permanece intacta (e por isso não compreendo a oposição de J Teixeira Lopes entre “comunismo” e “socialismo” – coisa tão abstrusa nunca li !!!!!!!!!!!!!!!! – desculpem-me os pontos de exclamação).
    Hipótese intacta, com ponto de partida presente e futuro sem repetições do passado. Até porque a política é invenção e sempre imprevisível.
    Assunto encerrado? (Pelo menos no post e nesta caixa)

    3.
    Direitos humanos e democracia.
    Sempre disse que os “direitos” são para mim uma retórica vazia (uma palavra de caoutchouc dizia Auguste Blanqui da “democracia”), mas a democracia é uma retórica ainda mais perigosa e sufocante, porque é legitimadora de várias formas de exclusão, de perpetuação de oligarquias, negando-se sempre a si mesma.
    Os “direitos” tendem a hiper-valorizar uma dimensão biológica do homem (a ética da vida, das ciências da vida, o direito à vida – como se isto fizesse sentido – o direito a não ser tourado, etc), retórica a que se juntam enunciados linguagísticos (e digo isto num sentido pejorativo), uma linguagem tão oca que até serve para invadir países desobedientes (recentemente, o Iraque), como antes a expansão da fé servia para o mesmo. Logo, os “direitos” actuais são uma secularização da expansão da espiritualidade ocidental de outrora.
    O “direito à expressão” também é vazio, pois qualquer pessoa se exprime com ou sem esse direito. Mas pode-se contra-argumentar: é verdade, mas só se exprime se for em democracia. E voltamos ao princípio. Isto é falso, porque a democracia censura e exclui.
    Censura e exclui, repito.

    Por exemplo, há obviamente pontos do programa do BE com que me identifico: a saída da NATO e um trabalho no sentido da dissolução dos blocos militares obsoletos, sem sentido na actualidade; um programa de nacionalizações, da EDP à banca, como aliás o PCP tb propõe, que coloca as suas medidas numa tónica que eu prefiro pela clareza, falando em ruptura. Aqui, os “democratas” questionam logo: “mas em que mundo esta gente pensa que vive?” Ora a democracia é esta verdadeira “cortina de ferro” contra a invenção, imaginação, contra formas de programar, conceber ou projectar outros processos de organização colectiva e de sociedade.
    Então, para que serve a democracia? Precisamente, para impedir a política como invenção.

    4.
    Repito que gostava de compreender melhor a oposição esboçada no texto de J. Teixeira Lopes entre comunismo e socialismo.

  27. Leo diz:

    “a Reforma Agrária, as Nacionalizações, a Constituição são todas elas uma boa merda” e a maior merda foi o 25 de Abril, certo? É a sua opinião. No caso da Constituição francamente minoritária.

  28. Leo diz:

    “Repito que gostava de compreender melhor a oposição esboçada no texto de J. Teixeira Lopes entre comunismo e socialismo.”

    Parece-me que isso não passa de um pretexto dele para agitar o papão que traz sempre vantagens eleitorais a quem o agita: o do estalinismo.

    Pavlov explica. Afinal a 48 anos de fascismo seguiram-se dois “gloriosos” anos de demagogia MRPPista/Maoista/Trotskista/Estalinista e 33 tristes anos de políticas de direita pura e dura protagonizada por auto-proclamados “socialistas/sociais-democratas”. E não é por acaso que à frente dos principais media (públicos ou estatais) estiveram e continuam a estar os tais MRPPistas/Maoistas/Trotskistas/Estalinistas. Devidamente reciclados e com o inaudível descaramento de sempre, confluindo no ataque (ou silenciamento, ridicularização, amesquinhamento) ao inimigo de há quase um século.

    Mas a luta continua. E nós estamos para durar e lutar.

  29. Leo diz:

    Eu aconselho as Novas Oportunidades ao Sérgio. Lá ensinam a interpretar textos. Se nem isso der, que tal lavar bem os ouvidos?

  30. Sérgio Pinto diz:

    Leo,

    Parece tão bem informado sobre as Novas Oportunidades que depreendo que seja um produto dessa formação.
    Lamento, mas sou obrigado a declinar. No que toca a formação prefiro a minha Universidade, sempre me permite encontrar um leque mais diversificado de visões e perspectivas sobre o mundo do que as que se podem descobrir no comité central do PCP.

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