A PELE DA PINTURA: importantíssima inauguração na próxima quinta-feira, 21.30h, na Galeria Filomena Soares

(R. da Manuten̤̣o, 80 Рat̩ 5 de Setembro)

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(S/ título. 2009. 190 x 140 cm)

Trata-se da exposição individual de Rui Ferreira, pintor, autor de uma obra que já se tornou um interessante paradigma das várias vias e “caminhos de luta” (consigo mesma, no fundo) que vêm gizando os destinos da pintura actual. Tive oportunidade de escrever no catálogo da sua anterior individual nesta mesma galeria:

«Devido à sua muito particular organização compositiva (em múltiplas e infindáveis mas visíveis redes filiformes justapostas ou sobrepostas, redes de linhas e manchas que se interpenetram até se obscurecerem nos seus contornos), por causa de uma execução regrada e mecânica (em que há um processo de trabalho definido com muita precisão, gerando formas e deixando-as evoluir por si), assumindo sempre uma forte vibração retiniana (paradoxal, pois a acumulação de efeitos lumínicos, extremamente densa, apresenta à distância uma espécie de monocromia), insistindo Rui Ferreira numa aparentemente forte carga matérica (que advém das redes filiformes que constituem o campo da tela, mas uma matéria que é dependente da forma e composição e não autónoma), por todos estes motivos as experiências de Rui Ferreira, desde 2003, obrigam-nos a pensar na pintura como uma pele de grande impacto – a pintura é uma pele e o lugar onde se entretecem linhas, cores, texturas (sempre mais formais do que matéricas), uma pele que pode ser a camada exterior e o “resultado” de sucessivas intercamadas mais ou menos ocultas ou indistrinçáveis.» [2007]

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(S/ título. 2009. 190 x 140 cm)

Ora, o título da presente exposição é precisamente “PELE”. Trata-se de reforçar uma impressão evidente em todos os trabalhos anteriores: a de que a pintura é um corpo orgânico, quase “biológico”, que se exibe diante da retina – a retina perscruta esse corpo e a sua pele. Desta vez trata-se de ocultar a pele da pintura com umas estranhas manchas brancas que nos obrigam a uma grande concentração visual se quisermos compreender o que por baixo dessas manchas se pode encontrar: jogos de peles.

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(S/ título. 2009. 150 x 114 cm)

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16 Responses to A PELE DA PINTURA: importantíssima inauguração na próxima quinta-feira, 21.30h, na Galeria Filomena Soares

  1. LAM diz:

    Isto é uma porra. De repente há coisas que merecem luz e outras que trilharam os mesmos caminhos há anos, morreram na escuridão. Mas ok, é novo, vem dos júniores…
    Carlos, se tivesse conhecido o trabalho do Miguel Ângelo (do Porto, falecido em acidente há talvez 2 anos), teria feito a mesma apreciação crítica ou coisa muito próxima. A pele e tudo que oculta e revela.

  2. Carlos Vidal diz:

    Caro LAM, compreendo o que quer dizer.
    Mas, sobre o trabalho do Rui Ferreira acrescentaria que ele é valiosíssimo não pela novidade, mas pela forma como trilha caminhos da tradição da pintura. Revelados por autores do século XX, mas não apenas – afinal, a pele táctil da pintura já era bem conhecida por Rembrandt.

    De qualquer modo, de repente, não me vem à memória nenhum trabalho do artista portuense Miguel Ângelo, não sei se o conheço.
    Tem mais dados sobre o autor ?

    • Dalila d' Alte diz:

      Olá. Sou irmã do Pintor Miguel d’ Alte. Tenho vindo a reunir a sua Obra, pois está muito dispersa, dado que ele vivia exclusivamente da pintura que produzia. E, num país como o nosso, devem calcular as privações e dificuldades porque passou, sem nunca ter desistido e sem nunca se ter “vendido”, fazendo concessões aos compradores, nunca abdicando de uma “linguagem” pessoal. Tenho 3 Álbuns dele no facebook, abertos à consulta de toda a gente, pois continuo à procura de obras dele, das quais não sei o paradeiro. O meu objectivo é reuni-las num catálogo “raisonné” para que todos conheçam o grande Pintior que foi o Miguel d’ Alte, meu irmão.

      • Armando Carvalho diz:

        Olá Dalila.
        Tenho uma amiga que tem duas serigrafias que o seu irmão ofereceu ao defunto marido, em VN Cerveira. Ela está a passar por muito graves dificuldades económicas e esses são os únicos valores de que dispõe para, contra vontade, poder alienar. Será que me pode aconselhar neste assunto? Caso afirmativo dar-lhe-hei o contacto directo . Obrigado, fico à espera de notícias suas.

        Armando Carvalho

  3. LAM diz:

    Erro meu, assim nunca mais lá ía…..
    Tratava-o por Miguel Ângelo (o nome dele era Miguel Ângelo D´Alte), mas era mais conhecia “na praça” por Miguel D´Alte e era assim que assinava.
    Estava ligado à coop. Árvore e à bienal de Cerveira. Foi dos artistas a que o Jaime Isidoro ajudou e durante uns tempos (conheci-o nessa altura) “fazia” atelier na cave da Alvarez. Isto há coisa de 25 anos. Faleceu de acidente talvez há 2 anos, teria 50 anos +ou-.
    Não acompanhei o seu trabalho mais recente. Os trabalhos a que me refiro – e que por sinal recordei-me deles ao ler aqui há bem pouco tempo um post seu sobre as “artes visuais” e o que elas ocultam mais do que revelam – seriam dessa época. Coisa talvez um bocado antiga para pescar documentação. Mas era gajo com trabalho muito interessante, pelo menos esse mais antigo que conheci.

  4. Carlos Vidal diz:

    Por Miguel D’Alte, é verdade, já vou lá, mas mesmo assim confesso que o conheço mal. Morreu de acidente em 2007, como diz, e teve relação recente com uma galeria da Miguel Bombarda. O que torna as coisas mais fáceis de localizar.
    A Miguel Bombarda foi uma das ruas mais interessantes do país, o Rui Rio deixou-a entrar em decadência. Eu trabalhei até 2002 com o Ulisses da Quadrado Azul, e os galeristas mais conhecidos e ambiciosos da rua tiveram de vir para Lisboa. Não resultou com o Fernando Santos, os outros vão andando.

    Quanto à pintura. Parece-me que o Miguel D’Alte colocava outros problemas, diferentes do Rui Ferreira. O Miguel D’Alte era mais representacional, surgiam por vezes “sinais”, pedaços de figuras, alusões poéticas, signos, etc. O Rui mecaniza mais, e, paradoxalmente, ao mesmo tempo que mecaniza o processo (ou se deixa mecanizar por ele), admite na pintura uma vertente matérica e táctil muito forte. Mas é algo muito interior à pintura e “dentro” da superfície. Quer dizer, se tocar numa destas obras não lhe vai sentir grandes relevos, nem empastamentos, não, não se trata disso.
    Um conceito que se aplica à obra do Rui é, por exemplo, o de “informe” como definido e proposto por Georges Bataille. Bataille fala de uma espécie de “revolução interior” na obra de arte (pictórica ou poética), algo que decorre dentro da obra e por fora mal se nota. Por isso é que esta pintura é muito orgânica, mas não muito texturada.
    Enfim, particularidades. Passe pela galeria até Setembro, se puder.
    Abraço amigo.

  5. nf diz:

    Mas o que é que está por baixo da ‘pele’?

  6. Carlos Vidal diz:

    Pergunta bem, caro nf, e eu creio que o que está por baixo é exactamente a própria pintura. Trata-se da pintura em estado puro, o que eu gosto de chamar a “opticalidade”, o meio através do qual se “faz” a pintura. A pele é o “quadro”, e o “quadro” como coisa definitiva que contemplamos, é aquilo que oculta a pintura em estado puro, bruto.
    (No catálogo da última expo do Rui Ferreira, nesta galeria, desenvolvo tais questões.)

  7. Caro C V
    ainda cá ando!…

    Tenho em meu poder uns desenhos a lápis de cor do Rui Leitão que de algum modo me remete para estes trabalhos; mas pela imagem aqui exposta não se consegue perceber bem o desenho ou os signos da representação.

    cumprimentos cá dos algarves da beira-serra e não do “all…”

  8. almajecta diz:

    Ora bolas, a banalidade da academia de vanguarda, atascada de texto para promover e divulgar mais um seguidista do Richter.

  9. Carlos Vidal diz:

    Muito bem.
    Grande Jecta, sempre em forma. (Para quando Saas-Fee? Ou ainda pelo Convento de S. Francisco??)
    E o grande Richter, esse mesmo, nunca deixou de ser um farol.

    Acho mesmo que Richter e Pollock dominam os últimos 50 anos.
    Na escultura, é a Bourgeois, não será?

  10. LAM diz:

    O Almajecta vai ao ponto. E vírgula, mais uma vez. Aquilo somado dá Richter.

    p.s. (sem más conotações), aquela conversa sobre o Mguel d´Alte deixa-me um bocado sem rede. Estou a pensar em trabalhos que vi há talvez 25 anos, não tenho possibilidade de fundamentar. Há diferenças com estas pinturas de Rui Ferreira, claro. Mas a razão não andava longe. Talvez a diferença (estou a pensar alto) estivesse na tal vertente matérica de que o Carlos fala. Nas tais pinturas que recordo do Miguel, em cima do reboliço, no esconde e tapa e refaz, havia “planura”, extensas manchas negras, não tanto orgânicas como estas do Rui Ferreira, mais plasmadas, mas o objectivo não andava longe.

    p.s. do p.s. (não, não sou o Santos Silva), sabia do Ulisses em Lx e do Zé Mário, não sabia do Fernando santos.
    Em Miguel Bombarda o único sítio em que o Miguel poderia ter exposto teria sido no Canedo… (puta de sorte).

  11. Cândida diz:

    Estive nesta exposição ontem, e achei fascinante a quantidade de sentimentos e emoções que o olhar profundo destas telas despoletou em mim.

    Sem dúvida uma exposição que vale a pena visitar com tempo suficiente para se sonhar com a magia das cores.

  12. Carlos Vidal diz:

    Cândida, estamos em total e absoluta sintonia.

    É talvez a melhor exposição do Rui Ferreira. Imperdível.

  13. almajecta diz:

    e pelas imagens que aqui vislumbro, todo o meu ser formal, decorativo e ilustrativo iluminado se revela em e para além de mim numa profundidade infinita e deslumbrante projectada na mágica da função construens/destruens do tapa em branco e do descobre em puntini rede retinianamente coloriti. Experimenta-me-os.

  14. almajecta diz:

    Imperdível quer dizer: Conselhos de António Botto, certo? Ora, ora.

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