“Internacionalizar” a treta (actualizado)

José Sócrates, no desvario pós-europeias, veio com uma ideia fresca: internacionalização. No que diz respeito à arquitectura, não sei se rir se temer.
Com o aumento exponencial do número de licenciados em arquitectura, a internacionalização, tem sido a única forma de subsistência dos novos arquitectos e da maioria de criadores que não se enquadrem na teia de poderes que José Sócrates institucionalizou. Há arquitectos portugueses espalhados por todo o mundo, num processo que costumo chamar de “mala de cartão de licenciados”. Uma geração imensa que, ora se viu obrigada a fugir do país para encontrar trabalho ora, a partir de Portugal e só com dificuldades pela frente, vai tentando construir a sua vida a partir de concursos no estrangeiro.
Embora silenciados pela comunicação social, marginalizados pela crítica de arquitectura ocupada a rescrever sempre os mesmos textos laudatórios, e ostensivamente ignorados pela Ordem dos Arquitectos e instituições culturais do Estado, esta geração tem conseguido óptimos resultados no estrangeiro. Veja-se os exemplos recentes de Nuno Rosado em Teerão, João Miguel Fernandes na Albânia, Atelier Data e Moov em Dallas, Paulo Moreira (Noel Hill Travel Award 2009 atribuído pelo American Institute of Architects), Improptu em Inglaterra ou Jorge Rocha Antunes vencendo o White House Redux. Todos nomes desconhecidos da maioria dos portugueses.
Com o governo Sócrates toda esta gente fica fora da encomenda pública em Portugal, seja por ter incentivado a fuga aos concursos públicos, seja por ter institucionalizado a prática do ajuste directo aos amigos e conhecidos. Estas práticas indecorosas, não sendo de hoje, são cada vez mais públicas e notórias, desde a Câmara de Póvoa de Lanhoso (notícia Público Local, 2009.07.05, versão impressa) que adjudicou o seu PDM a uma empresa criada uns meses antes por um dos seus chefes de divisão sob o pretexto de ser gente que “conhece o concelho”, à inenarrável Parque Escolar que entre outras estranhas adjudicações já brindou um arquitecto, dirigente da Ordem, com onze projectos ou a Sociedade Frente Tejo que utiliza como um dos factores de escolha a proximidade do projectista com o vereador do urbanismo.
Espero sinceramente que este discurso sobre internacionalização seja exclusivamente eleitoralista, não se vá dar o caso de, também pelo mundo fora, os novos arquitectos portugueses terem de passar a gozar das mesmas dificuldades que sentem em Portugal.

(actualização) Referenciar alguns ateliers premiados significa, felizmente porque são muitos, não elencar outros. Se da lista anterior apenas conheço dois (moov e o Paulo) fui-me lembrando de alguns amigos premiados que, sem querer, deixei de fora: os Embaixada premiados no contractworld.award 2009, o Luís Pereira Miguel 1º prémio no concurso para uma loja da Benetton na Rússia, os kaputt! na Líbia e os Plaren em Tatlin ou o Jorge Graça Costa ao ver a sua investigação premiada no Japão e ignorada pelas entidades oficiais em Portugal.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , . Bookmark the permalink.

5 respostas a “Internacionalizar” a treta (actualizado)

  1. miguel dias diz:

    Evito fazer referência aos posts que publico no meu blog na caixa de comentários dos outros.
    Mas se não levares a mal, Tiago, aqui fica um link. é apenas mais uma achega.
    http://aventar.eu/2009/06/25/parque-jurassico/
    E já agora parabéns aos nossos colegas.

  2. o sátiro diz:

    em desespero, o ps-governo vai nomear chusmas de “boyszinhos” e “girlszinhas” para os poucos tachos ainda vagos. Esperemos k toda a oposição denuncie…

  3. Filipe A S diz:

    Infelizmente no que aos arquitectos e ao trabalho em arquitectura diz respeito, quem ainda por cá anda não se pode queixar apenas dos (des)Governos…
    Esses exemplos que citas, da Povoa do Lanhoso e da Parque Escolar são quase anedóticos. Mas o Terreiro do Paço é ainda mais de bradar aos céus, sobretudo tendo em conta a carga simbólica do local, no que à cidade de Lisboa diz respeito mas também ao país. Procedimentalmente é tudo farinha do mesmo saco, mas escandalizam-me menos os outros dois casos. Já agora como será que foi adjudicado o projecto da requalificação da marginal (Carcavelos-Cascais)? O autor é o mesmo…

  4. lol… bom final! estou a tratar deste assunto da “internacionalização” no catálogo do Habitar Portugal… mas hoje à tarde já nos veremos…

  5. Pingback: [Informao] "Atrs das Costas" - As historias que devem ser contadas - Arquitectura.pt

Os comentários estão fechados.