O que J. Galamba e J. Lopes desconhecem acerca da “esfera pública” (e o desejo irrealizável de a domesticar)

(NOTA PRÉVIA: quando faço uma análise crítica de um tema ou de alguém que discordo identifico o meu contendor e, obviamente, o tema. J. Galamba, do Jugular – claro! – não sabe nem o consegue fazer claramente: quando chama “filho da puta” a quem não condena, por si só, a violência, eu não sei a quem ele se refere: se a C. Vidal se a alguém do Spectrum, ou a um comentador desse blogue, etc. Que cresça e aprenda a ler – quando falei em “violência” do Estado, referia-me a uma tese de Badiou sobre o Estado e o “excesso do estado”/”excesso da situação” – também é um “filho da puta”? Bom, vamos ao post, um outro assunto: )

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Esfera pública: hipnose, consumo, “arcadas” (Walter Benjamin)

No seu polémico e deveras entusiasmante ensaio, Normas para o Parque Humano, Peter Sloterdijk mostra-nos, a partir de Heidegger, como o humanismo fracassou na sua tarefa disciplinadora e de amansamento da espécie humana. O humanismo não passaria, neste entendimento sloterdijkiano, de um amansamento da espécie à custa de uma obrigatoriedade de leitura de certos textos canónicos. Esta obrigatoriedade da leitura de certos textos (as volumosas cartas para amigos), ou imposição de cânones de comportamento, serviria nada mais nada menos que a preservação do poder nas mãos de quem já o tem, uma seita, um clube, isto num plano de homologação generalizada. Só esta lógica e desejo de amansamento explica que o crítico de cinema João Lopes fale da inexistência de um entendimento “católico” da degradação da humanidade do primeiro-ministro (que ele caracteriza como o outro, um outro genérico, o próximo, diria Lévinas) e João Galamba, do Jugular, de uma “degradação da esfera pública” como degradação “humana de todos nós” (e já analisarei, a partir de Habermas, este conceito).

Um e outro, Galamba e Lopes, partilham a ideia de que se intenta destruir o valor simbólico do primeiro-ministro neste tempo de “ideologia televisiva”, esquecendo um e outro que só se pode destruir simbolicamente aquele que quis simbolizar aquilo que não é, nem nunca foi: por exemplo, o “rigor” qualitativo que a actual equipa do Ministério da Educação quis fazer de conta que exigia à classe docente partindo do princípio inaceitável que essa classe não o possuía, não é compaginável com a polémica que em tempos rodeou a licenciatura do próprio primeiro-ministro. Sobre estas contradições, J. Lopes e J. Galamba nada dizem. Preferem falar genericamente em “espaço” e “esfera pública”. Olhemos detidamente para esta “esfera” e para as suas contradições.

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Esfera pública: a arquitectura como espectáculo

Uma das conquistas das sociedades liberais democráticas, representantes de uma etapa de desenvolvimento do estádio civilizacional do capitalismo e do paradigma vivencial da burguesia ascendente, é o espaço público e a esfera pública, que Jürgen Habermas analisa pormenorizadamente no seu livro A Transformação Estrutural da Esfera Pública (1962). Esta assumiu na polis e na sua gestão um papel relevante desde o século XVII em Inglaterra, transformada pela revolução industrial mais tarde, e associada a uma outra etapa de desenvolvimento dos modelos mercantilistas de produção de riqueza; correspondendo ao aparecimento dos mass-media e à estrutura do estado moderno e dos seus novos espaços de circulação: de pessoas, de mercadorias e mensagens (como a publicidade ou a actividade multipartidária), o que inclui não só a praça pública mas também locais de encontro e de formação de opinião, do café aos jornais. E hoje, de imediato, teremos de acrescentar um processo de que desconhecemos as consequências, para a democracia como para a dita “esfera pública”: as redes últimas da globalização e a Internet.

Ora, é precisamente esta nova realidade tecnológica, como hoje se comprova a toda a hora pelas imagens que nos chegam do Irão, que nos diz ser impossível pretender amansar a espécie humana – daí, por exemplo, Sloterdijk ter falado na tecnologia como forma de desinibição.

Mas, lendo, por exemplo, um antigo texto de Georges Bataille perceberemos logo que essa dita “liberalidade” do espaço público era um logro ou uma meia falsidade. Que nos diz Bataille? Faz-nos uma crítica da arquitectura, que é aquilo que nos envolve na “esfera pública”:

“A arquitectura é a expressão do verdadeiro ser das sociedades, tal como a fisionomia humana é a expressão do ser dos indivíduos. (…) De facto, só o ser ideal da sociedade, o que ordena e proíbe com autoridade, se exprime nas composições arquitectónicas propriamente ditas. Por isso os grandes monumentos se levantam como diques, contrapondo a lógica da majestade e da autoridade a todos os elementos equívocos: sob a forma de catedrais e palácios é que a Igreja ou o Estado se dirige e impõe silêncio às multidões. Com efeito, é evidente que os monumentos inspiram o bom comportamento social e até, frequentes vezes, um verdadeiro temor. A tomada da Bastilha simboliza este estado de coisas: é difícil explicar um tal movimento da multidão, não sendo pela animosidade do povo contra os monumentos que são seus verdadeiros senhores” (Documents, 6, 1929).

Ora, o que me parece é que nem J. Galamba, nem J. Lopes entendem esta dimensão de atracção crítica pelo poder simbólico que se fragiliza irrecuperavelmente quando, no fundo, nada de concreto simboliza ou, como diria Marx, não contém nem um átomo de verdade. Deste modo, esse poder cai às suas próprias mãos, e não ao sabor eventualmente degradante da “ideologia televisiva” (ou seja lá o que for que os dois bloggers nomeiem nas suas elucubrações não muito esclarecidas da realidade).

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