O que é o “pacifismo”? De que cor é? Que religião é essa (que responda o Daniel Oliveira)?

pariscommune.1

Não cuideis que vim a meter a paz na terra; não vim a meter a paz, senão a espada.
Porque eu vim a pôr em dissenção ao homem contra seu pai, e à filha contra sua mãe; e á nora contra sua sogra.
E os inimigos do homem seus domésticos serão.
Quem ama pai e mãe mais que a mim, não é digno de mim; e quem ama filho ou filha mais que a mim, não é digno de mim.

(Mateus, X, 34-37)

Muito oportuno o post em que o Rick Dangerous do Spectrum, uma vez mais (e eu já o fiz aqui várias vezes), ridiculariza o pacifismo daqueles que, como Daniel Oliveira, consideraram vândalos os manifestantes de rua gregos e agora apelidam os iranianos de democratas, como se os violentos fossem antidemocratas e os pacifistas fossem sempre democratas (ou os pacifistas apenas recorressem à violência «quando a sua vida está em causa»). Ora uns e outros (presto-lhes homenagem) lutam contra distintas e, ao mesmo tempo, a mesma forma de violência, que podemos chamar poder ou Estado. Porque o Estado é a violência por natureza (a «violência naturalizada»), apesar das suas tentativas de «contenção»; por exemplo, o Estado não reprime pura e simplesmente a «diferença», porque a reduz à representação – troca sempre uma forma de violência por outra, procurando a «menor» para se perpetuar (com Maquiavel e Badiou podemos aprender isto e muito mais). E porque é que Daniel Oliveira diz não considerar «vândalos» os iranianos? Leia-se (inacreditável!): «Acontece que no Irão não há uma democracia. E, apesar de continuar a preferir e defender as manifestações pacíficas, isso faz toda a diferença. Aqueles manifestantes, se são apanhados, podem bem encontrar a morte» (Daniel Oliveira, no seu melhor!).

Há várias coisas que ficam por esclarecer; por exemplo: é melhor morrer às mãos de uma polícia «democrata» ou de uma polícia «totalitária»? Na Grécia ou no Irão? (É a primeira hipótese, evidentemente: morre-se democraticamente.)
Ou seja, o «democrata», se é violento, é-o sempre em nome da «democracia». Se uma sociedade já é «democrata» (a grega ou a portuguesa) o violento passa de imediato a «vândalo».
Isto podia ter sido escrito por Salazar: «tudo pela democracia, nada contra a democracia!»

Fiquei a conhecer melhor os vândalos Wagner, Bakunine ou Louise Michel.
Em que escola é que estas coisas se aprendem? Como aperfeiçoar este magnífico conhecimento?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 Responses to O que é o “pacifismo”? De que cor é? Que religião é essa (que responda o Daniel Oliveira)?

  1. Pascoal diz:

    “Isto podia ter sido escrito por Salazar: «tudo pela democracia, nada contra a democracia!»
    Oh Vidal, não te armes em Vital; achas que o Salazar defenderia essa tese?

  2. sumiati diz:

    Se a logica é uma batata como é que ainda respira?

  3. JDC diz:

    Que eu saiba, os iranianos não saem para a rua de cara tapada a destruir e pilhar indiscriminadamente, muitas vezes prejudicando aqueles por quem, supostamente, estariam a lutar. No Irão vemos pessoas a marchar e protestar nas ruas e a violência resulta, isso sim, de uma repressão policial.
    Na Grécia assistimos a uma sublevação violenta destinada apenas a causar o caos, no Irão vemos um grupo (muito muito maior) de pessoas a contestar o resultado de umas eleições…
    Se não vê a diferença entre uns e outros e acha que é tudo igual…

  4. almajecta diz:

    Dum-Dum carlos, o mata moscas da prometida ao serviço do humanistismo.

  5. Carlos Vidal diz:

    Caro JDC, eu não digo que é tudo igual, o que eu rejeito é o pacifismo como valor absoluto. E, já agora, recuso a “democracia” como forma de manutenção da ordem.

  6. Manifesto aqui uma opinião que em tempos já me valeu, da parte do Spectrum, o “prémio da infâmia estalinista”:
    1. Partilho da desconfiança do Carlos Vidal em relação à absolutização do pacifismo e da cultura da não-violência (respeitando entretanto sempre todos os momentos em que esta última se exerceu com coragem, diria, como um certo tipo de violência simbólica e, simultaneamente, como violência que se admite contra o próprio “corpo”), nos pressupostos de que o Estado que administra a exploração exerce sempre violência que gera violência (visível e/ou invisível, portanto reconhecida e/ou omitida).
    2. Distingo deste debate, claramente como não fazendo parte dele, um certo tipo de “desacato” (a palavra “violência” não tem aqui lugar), que fez história na curta história do movimento anti/contra-globalização, promovido por grupos de jovens de cara tapada – com sucesso garantido nas coberturas noticiosas e alimentando-as objectivamente – que não era “a festa dos pobres”, nem momento de indignação espontânea ou provocada, ou ainda acto gizado de guerra política (como as acções dos movimentos anti-coloniais) cujo resultado deve ser (uma) vitória sobre o inimigo, mas se assemelhava mais à mistura de adrenalina adolescente, parkour de “esquerda a precisar de alguma coisa para fazer”.
    3. Sabemos ainda sobejamente que (no caso da Grécia, temos imagens inequívocas a prová-lo) este tipo de actos de vandalismo são também provocados por agentes infiltrados da ordem repressiva, mostrando como lhe são estes actos, enquanto imagem de “descontrolo e caos”, imensamente favoráveis.
    4. Este comentário não pretende fazer nenhum tipo de avaliação ou comparação entre as situações grega e iraniana.

  7. Rick Dangerous diz:

    O que está a acontecer no Irão é, em grande medida, desconhecido. Lamento ferir as certezas dos comentadores do 5 Dias, mas uma parte da contestação ao regime está a ser feita por jovens de cara tapada que destroem propriedade privada e instrumentos de controle policial do espaço público, cortam estradas, para além de pilharem armazéns e supermercados.
    Tapam a cara para não serem identificados. Pilham para obter aquilo que de outra maneira não poderiam obter. E destroem tudo aquilo que acham estar a mais. Nesse sentido, são tão pragmáticos como os seus congéneres europeus. O comentário de JDC é, por isso, tão idiota como os editoriais do Correio da Manhã, e resulta do óbvio preconceito ordeiro e moderado que teme todos os conflitos que escapam ao enquadramento de uma qualquer direcção sindical ou partidária.
    O comentário do Pedro Penilo merece alguma atenção. O prémio da infâmia estalinista não lhe foi atribuído pela opinião que aqui manifestou. Deixo aqui integralmente o comentário que valeu tão bonita distinção, convidando o leitor a avaliar por si só:
    “Um amigo nosso tinha sido espancado. Infelizmente, tenho de reconhecer, pertence àquele tipo de jovens (que fazem as notícias de abertura dos telejornais, sobre as manifestações anti-globalização) que fazem a “apologia do desacato” e que se pelam por uma boa batalha campal com a polícia. Esta minha amiga ficou surpreendida: em vez de compaixão, encontrou irritação. Ela diz-me que é necessário radicalizar a luta, e eu pergunto-lhe se quer dizer com isso atirar bolas de tinta para dentro de lojas (onde estes jovens, aliás, costumam comprar roupa). Também acho que é preciso radicalizar a luta. Temos um mês para preparar a Greve Geral. Entretanto, estes jovens vão prestando um belo serviço ao inimigo (e não é só à extrema direita).”
    Tudo isto pode ser recordado consultando os arquivos do spectrum de Abril e Maio de 2007, relativos a uma manifestação anti-autoritária que decorreu no diaz 25 de Abril e foi brutalmente espancada pela PSP.
    spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2007/04/na_rua_do_carmo_1.html#comments
    spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2007/04/da_infamia_era.html#comments
    spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2007/05/jusquici_tout_v.html#comments
    O amigo, evidentemente, era eu, acusado de prestar um belo serviço ao inimigo. Lamento Pedro, mas isso continuará a merecer os mesmos adjectivos – infame e estalinista.
    A distinção entre violência e desacato tem a seriedade que se conhece. Os movimentos anti-coloniais também eram considerados «terroristas», o que só desloca o debate para o campo da semântica.
    A adrenalina adolescente é mais do mesmo. Nenhum argumento político, apenas uma fuga ao debate. O que se pode responder? Que talvez te falte um pouco de testosterona?

  8. JDC diz:

    Rick Dangerous,

    Sim, vendo as imagens dos desacatos na Grécia e no Irão vemos que a proporção entre manifestantes e vandalos é a mesma… Comparar o que foi uma batalha campal, onde os participantes apenas iam para a rua com esse intuito sabendo que a polícia estava sob trela política com as pessoas que arriscam a vida, de cara destapada, mostra toda a idiotice do meu comentário. Tenha dó.
    Obviamente que, no Irão, também há quem se aproveite da situação para, como disse, fazer azo a algum “pragmatismo”. Mas as filmagens que nos têm chegado mostram algo muito superior a isso. Só não vê quem não quer.

  9. Na crítica que faço da “apologia do desacato”, não nomeio ninguém: critico comportamentos. As minhas opiniões estão gravadas na internete com o meu nome: Pedro Penilo.

    Entretanto, esse nome está na internete fichado com a classificação de “estalinista” e “infame”. O autor dessa classificação pública é alguém que dá pelo “nome de guerra” de Ricky Dangerous. Estou certo de que isto livra o autor de chatices na sua vida quotidiana, pessoal e profissional. Para alguém que se apelida de Ricky Dangerous, o prémio da testosterona.

    Registo que Ricky Dangerous define como “congéneres europeus” daqueles que lutam nas ruas de Teerão, os tradicionais grupos de “cegada” que abrilhantavam as aberturas dos telejornais, nos dias de maior dinamismo das manifestações anti/contra-globalização.

    O que eu vejo nas imagens que vêm do Irão, não são “jovens de cara tapada” (certamente haverá alguns…) – são centenas de milhares de homens e mulheres de cara destapada, em protesto e fúria, a apanhar com balas igualmente destapadas.

  10. Carlos Vidal diz:

    Caro Rick Dangerous,
    Não há nenhuma razão para chamar “estalinista” a um comunista. Quer partamos de Bakunine, Stirner, Marx, Saint-Just, Lenine, Debord ou Badiou, temos fortes inimigos comuns: o “império da mercadoria”.
    De resto, os tipos das direitas (PS/PSD/CDS) é que gostam de usar esse classifivativo.
    Por outro lado, Pedro Penilo, não posso reduzir a contestação grega ou outra (antiglobalização), eventualmente com poucas “ideias” ao vandalismo, nem reduzo ao vandalismo o que os habitantes das Belas-Vistas (Setúbal ou Paris) deste mundo fazem, quando algo os mobiliza.

    Tentei no meu post perceber o que pode ligar a rua grega e os seus actos à rua iraniana, à rua da Bela-Vista ou à rua de Watts (analisada por Debord). E interessa-me mais o que pode ligar tudo isso do que enfatizar as diferenças ou fazer o elogio do pacifismo pelo pacifismo.

    Como disse, não aceito a democracia que se quer implementar como garantia de uma ordem imutável das sociedades, seja onde for. Depois disto, não creio que as nossas diferenças sejam assim tão grandes.
    Abraços.
    CV

  11. Rick Dangerous diz:

    Como se eu te dissesse o que quer que fosse ao abrigo do anonimato. Falámos depois disso e disseste-me que lamentavas ter usado certos termos. Agora vens recordar esse triste episódio. Não é certamente por tua causa que assino rick dangerous. A não ser que tenhas mudado de profissão…
    Invocaste a adrenalina, respondo-te com testosterona. A conversa não irá mais longe.
    Caro Carlos Vidal, a barricada há-de ser sempre clara entre comunistas e estalinistas. Isso não está aberto aos debates tácticos. Um abraço.

  12. Carlos Vidal diz:

    “a barricada há-de ser sempre clara entre comunistas e estalinistas. Isso não está aberto aos debates tácticos.”
    (Rick Dangerous)

    Claro, Rick Dangerous, claríssimo.
    Por isso está aberto aos debates teóricos.
    Entre comunistas, evidentemente.

  13. Em relação ao comunismo :

    25 de Novembro sempre, comunismo nunca mais !!!!

  14. almajecta diz:

    25 de Abril de 1975, Eleições para a Assembleia Constituinte com uma taxa de participação de 91,7%. Resultados dos Partidos com representação parlamentar: PS 37,9%; PPD 26,4%; PCP 12,5%; CDS 7,6%; MDP 4,1%; UDP 0,7%.
    Onde estão o chapéu, o U e o Outubro?
    Vamos lá defender o grande timoneiro e com coragem, chega de invenções das “niceties” sociais.

  15. O valor absoluto do pacifismo é uma coisa que não existe. Existe a defesa do pacifismo. Considero que ele é a forma mais eficaz de combate político. Mas só não vê quem não quer duas diferenças:
    Quando a violência resulta exclusivamente da resistência imediata à repressão policial ou quando, pelo contrário, ela é a forma previligiada de acção e de comunicação.
    Quando ela acontece em regimes onde todas as formas democráticas de intervenção (greve, eleições, expressão pública do protesto) estão esgotadas ou quando ela contece em democracia.

    Sou um pacifista. Mas, como disse num debate, a violência pode ser compreensível em determinadas situações extremas. Não condeno, como disse nesse mesmo debate, mas nem por isso passo a achar que ela trará bons resultados. Ainda assim, tudo o que vi das imagens que me chegam do Irão é de resistência (grande parte das vezes pacifica: até salvam polícias da fúria da multidão) às investidas policiais. Não vi um único ataque a instalações civis.

    Por fim, não sendo um argumento, também tem de contar: a dimensão social do protesto.

    Concluindo: não defendo nenhum valor em absoluto. Sou um tipo dado ao relativismo. O que não impede que defenda valores e que, não os fazendo absolutos, distinga violência e violência, contextos e circunstâncias.

    Recordo que ser preso numa manifestação no Irão pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Os comentários estão fechados.