O amor é cego

Os portugueses não gozam da melhor reputação no estrangeiro, culpa certamente de ineficazes campanhas de marketing, e nem os mal-afamados se coíbem de nos depreciar. Os italianos, em mais um daqueles casos em que ficámos com a fama sem o proveito, desencorajam os borlistas com um “dai, non fare il portoghese” (não te armes em português) – que ecoa o esconjuro anti-lusitano de Don Cesare, personagem do “La Loi” para quem “a pior das infelicidades [era] nascer português”. Pior que a calúnia é a indiferença a que nos vota a generalidade da Europa. Em Inglaterra (our oldest ally), onde aos franceses se chama, com acinte, “Frogs”, como aos chineses “Chinks” e aos espanhóis “Spics”, estranhando a ausência de mimos xenófobos especialmente cunhados para os portugueses, foi-me dito que éramos “worse than the Spics”. Mas há quem entre dois males nos prefira a nuestros hermanos, e quem pensa assim é galego. Não me surpreende que um poeta da Galiza tenha pedido asilo político em Portugal, surpreende-me é que não haja muitos mais pedidos, petições em massa, dos nossos irmãos injustamente esquecidos. Os bascos e os catalães brandem orgulhosamente os seus idiomas como marca ontogénica de independência; a Galiza orgulha-se do seu “português galego”, que alguns gostariam de ver integrado na mesma pátria linguística, o galego-luso-brasileiro, com direito a acordo ortográfico comum. Há uns anos, várias associações da Galiza apresentaram uma petição – então ridicularizada pelos eurodeputados portugueses – para que o galego não fosse “segregado” como língua autónoma no Parlamento Europeu, um claro ataque à “unidade da língua portuguesa“. “Em Espanha, sê galego; na Europa e no mundo, galaico-português”, poderia ser o mote da Galiza. Eu mesma tive a experiência, corroborada por outros testemunhos, do caloroso afecto com que um galego saúda um português sempre que o acaso os junta no estrangeiro – em contraste com a cautela envergonhada com que os portugueses se evitam quando, de férias em Paris ou Nova Iorque, detectam um compatriota. Esta paixão que os galegos sentem por nós não é de agora, e prima tanto pela constância como pela raridade. É tempo de retribuirmos. O governo português devia por isso abrir corredores humanitários da Galiza para o Minho, para evacuar quantos requerentes de asilo queiram refugiar-se em Portugal, e fazê-lo com urgência: o amor pode ser cego, mas eterno não é de certeza.

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6 Responses to O amor é cego

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O meu pai costumava dizer que o amor era eterno , só as personagens é que mudam. Sobre o teu post, cabe-me dizer que teriam mais sucesso corredores humanitários para fugirmos para a Galiza. Eu aproveitaria o balanço e, ultrapassando a Galiza pela esquerda, instalava-me no casco viejo de Donostia, com vista para os bêbados e o mar.

  2. Ana diz:

    Sem querer ofender, parece-me que este texto foi escrito por uma provinciana com complexo de inferioridade.

  3. Ana, a mim não me ofende, mas se realmente não quer ofender, como diz, sugiro que critique o texto e o que nele lhe parece provinciano, em vez de criticar a autora.

  4. LAM diz:

    Comprovo por experiência própria em 2 ocasiões o que diz o post.
    Sou do Porto e já me vi saudado por galegos (e eu encafuado pq não sou de grandes expansões públicas) quer em londres quer, imagine-se, em Madrid. Assim a modos como “compatriota”.
    E no meu caso o sentimento é recíproco. Adoro a galiza e os galegos e sempre que há uns diazitos ao alto estou lá caído para uns petiscos e para o resto.

  5. E eu sou de Viana do Castelo, logo também compatriota dos galegos.

  6. henrique diz:

    Só uma coisinha:

    o ‘fare a portoghese’ não vem de os portugueses serem ou parecerem pobres ou forretas.

    No século XVI D Manuel II enviou a famosa embaixada ao papa; animais exóticos nunca vistos, especiarias e metais preciosos..

    fare à portoghese era aproveitar do maná, passando-se por portugueses

    🙂

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