Sem compromissos

1928heartfield
É preciso ler os sinais: os partidos de extrema direita e de protesto subiram um pouco por toda a Europa, a social democracia afundou-se, os partidos da esquerda socialista vegetaram, tirando em Portugal, porque um pouco por toda a Europa essas forças não aparecem comprometidas com o desastre económico em que vive mundo. As pessoas tendem a esquecer-se que o ascenso do fascismo deu-se durante a crise dos anos 30 e não foi apareceu por geração espontânea. Nessa altura, havia um forte movimento comunista que deu combates aos fascistas e, mesmo assim, foi precisa uma guerra mundial para derrotar o nazismo. Neste momento, os partidos à esquerda da social democracia vivem envergonhados a repetir as palavras que lhes puseram na boca. Falam em reformas, exibem os fatinhos maconde, e pregam o bom senso, contentam-se com as migalhas das mesas dos poderosos. Para existir uma alternativa de esquerda ao desastre do capitalismo, ela tem de se afirmar sem compromissos com esta gestão, sem a pretensão de ocupar os cargos subalternos de poder, num qualquer governo social democrata.
Ninguém diz que isto é fácil, ninguém diz que isto é rápido (as pessoas tendem a confundir a sua vida com o tempo hitórico), nem se sabe à partida se isto é possível, mas é preciso perceber que é substancialmente diferente mudar a vida do que mudar de vida. A segunda já foi ensaida, com um assinalável sucesso pessoal por pessoas com um grande sentido de oportunidade, uma data de vezes, para aqueles que pretendem conseguir a primeira, muitas vezes, não resta mais do que, usando as palavras de Beckett, “tentar outra vez, falhar mais uma vez, falhar melhor”. É preciso a ousadia de apostar numa esquerda revolucionária que não mascare as palavras, chame os bois pelos seus próprios nomes, combata a extrema direita nas ruas e se assuma como uma alternativa de política e não de imagem. Toda a política pressupõe uma escolha, uma mudança tem que se alicerçar em dar palco à aqueles que estão excluídos desta sociedade, como designa Rancière, “a parte dos sem parte”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

12 Responses to Sem compromissos

Os comentários estão fechados.