Dia de reflexão

Hoje é dia de reflexão, e eu, que já reflecti e já votei, fiquei entregue ao ócio, que é, como sabem, o pai de todos os vícios. Daí ao youtube foi um passo – ou uma queda no abismo de links de que se fazem as horas perdidas na internet –, e dali a esta canção, a do “Baisers Volés”, um par de cliques mal aconselhados. Por causa da lista de músicas associadas ao título, descubro que o clássico de Trenet foi importado pelos Estados Unidos em 1957 (os melómanos podem exasperar-se o que quiserem com a extemporaneidade da minha descoberta, cinquenta anos depois de o mal estar feito: eu nasci em 1973, tenho a desculpa de não ser desse tempo). Nestas conversões além-Atlântico, os americanos, forever in love with the French, têm o mau hábito de trucidar qualquer resquício de subtileza com orquestrações épicas e letras redondinhas, e aqui não emendaram a mão, desnaturando o que não passava de um desafabo sentimental de um tipo sozinho em noite de chuva para o transformar num hollywoodesco farewell a puxar pela lágrima fácil – e comparem-se as letras de uma e de outra para ver que tenho razão. A música fez furor nos EUA, onde foi sendo sucessivamente cantada por sucessivos crooners, não sem os seus encantos mas sempre com o sabor enlatado das conclusões bem arrumadinhas. Do “Que reste-t-il de nos amours” a este “I Wish You Love” vai a distância que separa quem leu os “Fragmentos do discurso amoroso” de quem só conhece o amor, esse “encontro de duas salivas”, dos filmes da Disney. A coisa começa mal e acaba pior: “espero que estejas bem lá onde estiveres e que os passarinhos cantem, e sobretudo que não te falte amor”. Ignorem a imagem dos passarinhos, porque há limites para o mau-gosto, mas desejar a um ex muito amor é coisa que só acontece aos bons dos letristas norte-americanos, todos a transbordar de caridade cristã. Haverá dores de corno mais bem resolvidas que outras, mas uma pessoa normal, quando pensa num ex, pensa na quantidade de livros e CDs que nunca foram devolvidos, com todos os epítetos ternurentos que o ex-ser merece, ou, estando os humores de feição, nisso em que estão aí a pensar. Calhando supor que o/a ex tem nova/o namorada/o – em vez de recolher a um mosteiro/convento ou de pôr fim à vida, como mandam as regras da decência –,  a improbabilidade de desejar que o facínora “esteja bem” deve ler-se como “espero que estejas bem, na medida do possível para quem não está com a minha fantástica pessoinha, e que nos intervalos de estares bem (que hão-de ser fatalmente muitos, não estando tu comigo) penses persistente e obcecadamente em mim, muito mais do que eu penso em ti, que é coisa que só acontece em ocasionais dias de chuva quando a televisão não está a dar nada de jeito”. Pensar no outro sem nós na fotografia, de preferência fotogénicos, pode até ser possível – mas então já não estamos a falar de amantes, estamos a falar de monges tibetanos ou de velhos amigos ou de política de boa vizinhança ou de outra coisa qualquer, e não há desculpa para atormentar gente de bem a afogar whiskies em lounges de hotel com estas xaropadas pseudo-amorosas. 
Felizmente os brasileiros, que nas canções de amor ainda levam a palma, resgataram o “Que reste-t-il” de um destino pior que a morte, como se dizia nos romances de cordel. Foi enquanto procurava a versão do João Gilberto que havia de fazer jus ao que de bom e de mau tem esta canção, malheuresement introuvable sur internet, que encontrei esta de Didier Sustrac (um francês do género de assombrar elevadores, malgré uma colaboração arrivista com Chico Buarque e Márcio Faraco). O vídeo, com péssima imagem e pior som mas métrica indiscutível de bossa nova, foi gravado na Sorbonne; aqui chegada, parei de perseguir a canção, porque me pareceu que, assim imperfeita e quase inaudível, a minha frasezinha musical estava finalmente onde devia estar, no lugar de onde nunca devia ter saído.

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4 Responses to Dia de reflexão

  1. Teodoro Silva diz:

    É completamente errado considerar-se o dia de hoje como “dia de reflexão”. Quem não tiver tido o discernimento de ao longo destes longos 4 anos de reflectir sobre a incompetência destes governantes, não é hoje, um dia normal de apenas 24 horas, que vai pensar sobre isso.

  2. aiaiquefaltadepaciencia diz:

    Os norte-americanos são umas bestas sem subtileza, já sabemos, sem literatura (tal com os ingleses) nem música (tal como os ingleses), nem poesia (tal como os ingleses).
    A bem dizer, a gente nem sabe como e porque vivem.

  3. Reboliço diz:

    Talvez goste desta “jukebox,” com mais umas quantas versões da cantiga: http://sem-se-ver.blogspot.com/2007/05/menina-dana-new-juke-box-que-reste-t-l.html

  4. Desculpem só responder agora, ontem não pude fazê-lo.
    Teodoro, não posso estar mais de acordo.
    aiaiquepaciencia, não sei que lhe diga, é a primeira vez que me acusam de anti-anglofonismo primário. Vou reflectir.
    Reboliço, muito obrigada pelo link – que tem a versão do João Gilberto com francês castiço que não conseguia encontrar, e do Boris Vian, da Stacey Kent, a letra em português com a Rosa Passos… Muito obrigada mesmo!

    Boa semana a todos.

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