Tudo o que tem de saber, e tem mesmo de saber!! (se quiser, claro), sobre o mais enigmático quadro da história da arte

 

Velázquez. Las Meninas.1656.

 

1.

O tema principal deste post é a oposição entre interpretável e interpretação (um dos temas de uma tese que presentemente ultimo). Expliquemo-nos. Com Las Meninas (1656) que, para o primeiro biógrafo de Velázquez, António Palomino (La Vida de don Diego Velázquez, livro incluído em Parnaso pintoresco laureado español, de 1724), é la mas ilustre obra de Don Diego Velásquez, e é também, na minha opinião, a mise en abyme perfeita.

Las Meninas é uma mise en abyme por, pelo menos, três razões: (i) começamos obviamente por destacar que aqui Velázquez se auto-retrata trabalhando (dentro do trabalho), pincel suspenso sobre a paleta, gesto e olhar pensantes e fixo este último no espectador (nós?), no casal real (?), ou … nele mesmo que pinta Las Meninas ?, pois sabe-se que a tela que tem à sua frente tem as dimensões exactas de Las Meninas (ii) É uma mise en abyme porque contém pinturas perfeitamente identificáveis e identificadas dentro dela: Palomino fala-nos de telas de Rubens a partir das Metamorfoses de Ovídeo; ainda cópias de J. B. M. del Mazo a partir de originais de Rubens (Palas e Aracne) e Jacob Jordaens (Apolo e Marsias); (iii) Las Meninas é ainda uma mise en abyme pois, segundo Palomino, o pintor ocupa-se de uma tela que deixa entrever porquanto se encontra reflectida no espelho ao fundo da sala (esta é a primeira de uma infinita quantidade de teses sobre o quadro: para Palomino, Velázquez pinta um duplo retrato real que se reflecte no espelho no centro da composição: «Deu mostras Velázquez de um claro engenho em desvelar-nos o que pintava com traça engenhosa, servindo-se da luz cristalina de um espelho, que pintou na última parede da Galeria em frente do Quadro, no qual a reflexão ou repercussão nos representa os nossos Católicos Reis Felipe [IV] e Mariana [de Áustria]».

 

2.

Prossigamos a descrição, ainda sem intentar uma interpretação (apesar ou porque a descrição contém valiosos elementos interpretativos): da esquerda para a direita, vemos, avançada em relação à linha das figuras do primeiro plano e em direcção ao espectador, quase paralela ao bordo inferior do rectângulo (em linha com o cão dormindo), apoiada num cavalete, a tela que Velázquez pinta, como disse, exactamente com as mesmas dimensões da tela que hoje vemos no Prado intitulada Las Meninas; não podemos afirmar com segurança que Velázquez pinta a mesma cena colectiva que estamos a ver, como indicia a tela que tem à frente e ao contrário do afirmado por Palomino, que nos diz que o pintor trabalha num duplo retrato real.

Duplo retrato real??

 

3.

Diz-nos o historiador Daniel Arasse que um duplo retrato real, pelo menos de acordo com a postura do rei e da rainha espelhados ao centro, não pode de modo algum ter as dimensões da tela que o pintor tem defronte de si (seria uma brutalidade), além de que um «duplo retrato real», enquanto género, não existe e nunca existiu. Então, que fazer?

Em frente à tela, um dos poucos dados incontestáveis, Velázquez é ele próprio, é verdade, num momento de pausa e de observação certamente do modelo ou modelos; o rei e a rainha estão sem dúvida reflectidos no espelho  ao fundo da parede, mais ou menos ao centro mas não coincidentes com o ponto de fuga da composição. O ponto de fuga coincide com a figura que ao fundo (vindo não se sabe de onde) desce em direcção à cena, José Nieto, o duplo de Velázquez (ainda os efeitos da mise en abyme); duplo, porque Nieto é o aposentador da rainha e Velázquez teria sido promovido a aposentador do rei, e duplo ainda porque parece soerguer a sua mão direita num gesto que se assemelha ao do pintor pegando no pincel que toca a tela.

Voltando ao primeiro plano: formando um triângulo com o espelho e José Nieto, temos ao centro a infanta Margarida, ladeada por familiares (à sua esquerda, nossa direita, Isabel de Velasco, à sua direita Maria Agustina Sarmiento) e de rosto inclinado (a 3/4); ainda em primeiro plano, à direita, os bobos: Maria Barbola e Nicolasito Pertusato; em segundo plano e em semi-obscuridade, Marcela de Ulloa e um guarda-damas. Como disse, o ponto de fuga da composição localiza-se em José Nieto, precisamente no seu antebraço direito (o que segura um pincel?, capricho de Velázquez?). Logo, se o rei e a rainha se reflectem no espelho do fundo, o espectador, colocado segundo o ponto de fuga (em frente a José Nieto), deve estar junto ao casal real.Estranho.

 

4.

Segundo Jonathan Brown, um dos mais destacados especialistas velázquenhos, Las Meninas é obra para uma interpretação sem fim. E eu sugiro que não existe «interpretação» para Las Meninas, pois a interpretação sem fim não pode ser interpretação. Mas, por outro lado, ao longo da história da arte dificilmente encontramos um quadro mais interpretável que este. Temos aqui, no meu modesto entendimento, com extrema claridade, uma oposição entre interpretação e interpretrável, entidades que se excluem mutuamente. A interpretação sem fim de Brown é uma interpretabilidade e nunca uma interpretacionalidade (interpretação).

Porque o interpretável é o que se mantém interpretável – sem interpretação. Las Meninas é um capricho, que é na consideração de António Palomino, Carducho e Cesare Ripa, a mais criativa das formas de pintura. E podemos interpretar este capricho? Ou melhor, pode uma pintura ser interpretada?? Qualquer pintura??

 

5.

Sobre Las Meninas, eu destacaria OITO leituras, todas elas bastante credíveis: hipótese 1 – o espelho na parede do fundo, onde surgem as figuras do rei e da rainha, reflecte aquilo que o artista está a pintar, ou seja, o espelho é um reflexo do quadro (leitura de Preziado de la Vega, Leo Steinberg e Victor Stoichita); Hipótese 2 – o espelho reflecte os reis que ou vêem Velázquez trabalhando ou por ele estão sendo retratados (Sánchez Cantón, Ortega y Gasset, Jonathan Brown e Enriqueta Harris); hipótese 3 – o espelho não pode nem reflectir o casal real nem o que Velázquez está pintando, pois as leis da refracção não o permitiriam; hipótese 4 – O espelho é antes um quadro (Paul Claudel e Kebler); hipótese 5 – Velázquez está a pintar o rei Filipe IV; hipótese 6 – Velázquez está a pintar a infanta Margarida; hipótese 7 – não se pode determinar o que Velázquez está a pintar; hipótese 8 – (já referida por Daniel Arasse) é a hipótese mise en abîme, pois considera que Velázquez está a pintar o próprio Las Meninas (porque o quadro que ele tem à sua frente e onde trabalha tem as mesmas dimensões que o Las Meninas que vemos no Prado……………… ).

Saímos então deste labirinto considerando que o quadro é interpretável, mas não tem interpretação.

 

6.

Ora é precisamente a interpretação sem fim que nos diz que não existe uma interpretação da obra de arte. Aliás, de qualquer obra de arte. Portanto, o interpretável (Las Meninas é, como qualquer outra, uma obra interpretável) não conduz nem à infinitude das interpretações, nem à sua finitude, seja ela manifesta em uma interpretação ou dez ou vinte. O interpretável é a consciência da obra e da sua possibilidade interpretativa, desde que não manifesta na interpretação. Interpretável é o que não é nem está nem pode ser interpretado. O interpretável consiste em saber que a obra existe, está diante de nós, mas não tem interpretação. Se nos lançarmos numa interpretação infinita, provamos que a obra é interpretável, sim, mas a nenhuma interpretação chegámos.

Confuso?

Talvez não. Concentremo-nos e pensemos bem.

 

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10 Responses to Tudo o que tem de saber, e tem mesmo de saber!! (se quiser, claro), sobre o mais enigmático quadro da história da arte

  1. q diz:

    Concordo. Para mais qualquer interpretação precisa de ser descrita em palavras. Ora, se se interpreta, se se descreve, para quê o objecto artístico? A partir do momento em que existe para ser interpretado deixa de ter razão de existir.

  2. q diz:

    Só um pormenor: a hipótese 4 é absurda. Se fosse um quadro não reflectiria a luz que vem do lado direito do quadro e que se mantém nas figuras reflectidas. Se fosse um quadro, aliás, seria uma entidade tão obscura como os outros quadros em cima.

  3. jptelo diz:

    Eu tenho uma interpretação, assim meio pró-marxista (:-)). É mais uma, é a minha, não nego nenhuma das outras.

    O pintor está, de facto, a pintar os reis, que estão na posição do espectador, ou seja, no nosso lugar. O que Velazquez está a dizer é: “Qualquer um pode ser rei e rainha, vocês são os reis”. Notem que ninguém, no quadro, está a prestar muita atenção ao casal real. O pintor está a olhar para eles, mas está a ser pago para isso. Uma das infantas está a olhar para os pais, o que é normal sendo filha. De resto, a atenção da maioria das personagens está centrada na infanta. Pormenor importante: o cão não está a ligar nenhuma aos reis. Estes fazem-lhe sono.

  4. Paulo Ribeiro diz:

    talvez o mais interessante discurso sobre as “meninas”, venha da pena de michel foucault, que, colocou no início do seu livro “a ordem das coisas”. ora bem, o quadro mostra velázquez a pintar os reis de espanha, filipe iv e mariana de áustria. no entanto, apenas vemos o pintor; não vemos nem o seu quadro, nem os modelos, ou seja, o casal real. em vez disso vemos todos quantos vêem o casal real, nomeadamente a infanta margarita, as meninas cortesãs e, claro, os anões cabeçudos. ora, o que nos diz que velázquez está a pintar o casa real? na parte de trás da sala, ao lado de uma porta que abre o espaço para trás, está pendurado um espelho. este abre o espaço, ao mesmo tempo, para trás e para a frente, onde se encontram os seus modelos invisíveis. no espelho vê-se reflectido o casal real. o rei e a rainha contemplam a cena que observamos no quadro, e todos os que aparecem no quadro contemplam o rei e a rainha. qual é a tese de foucault? com isto, quer ilustrar a tese seguinte: devido ao seu condicionamento cultural, velázquez, não era capaz de encarar o observador como sujeito e objecto ao mesmo tempo. em sua opinião, isso mostra-se na tríade de produção, quadro e observação do mesmo – ou seja, o pintor, o quadro e o observador, os quais encarnam os três aspectos da representação: assim, o modelo apareceria apenas como imagem reflectida no espelho, o observador não apareceria de todo, e o pintor não teria nenhum quadro – ao menos este não seria visível.
    se executarmos, pois, a mesma operação com as observações de foucault, que vemos? uma coisa estranha. certo, o risco do cabelo da jovem dama encontra-se ora de um lado ora do outro. estará o retrato invertido? pode ser esse o caso. mas na realidade é esse o caso. mas se essa representação está invertida, ele não está a pintar o casal real, mas uma parede espelhada. as meninas, é a imagem vista ao espelho da sala que vemos. a descrição que foucault faz do quadro está então errada. ele deixou-se enganar pelo pintor e tomou uma ilusão por uma sala real. e podemos ver que ele não pôde ver nada disso porque a sua opinião previamente concebida sobre o século xvii não o permitia. problema e drama de um marxista empedernido. mas o que vemos ao vermos o que foucault, ou um marxista, não podia ver? vemos a ambivalência do espelho. paradoxalmente, ele reúne a invisibilidade com a visibilidade. não conseguimos ver o próprio vidro do espelho. e, precisamente por isso, conseguimos ver o que nele se apresenta. e o que observamos quando nós próprios nos olhamos ao espelho? certo, um observador. e também esse está invertido. hoje, o tema de as meninas de velázquez tornou-se o princípio que rege a pintura: a observação da observação. esta qubra a imediatez que no museu é convertida no fundamento de uma comunicação íntima com a obra de arte. por isso, a arte moderna, nas suas obras, não só nos mostra os objectos, como igualmente o modo como os observamos, e assim nos obriga a uma observação em segundo grau.

  5. LR diz:

    A bem da verdade, a “explicação” do jptelo, por muitos já glosada, sempre foi a que faz mais sentido…

  6. A hipótese 4 não pode ser considerada, exactamente pela razão apresentada pelo nosso colega “q”. O fundo da parede apresenta algumas pinturas bastante mais escuras que a imagem de Filipe IV e Mariana de Áustria. Parece ser um espelho que reflecte os monarcas. Pode dar-se o caso de Velázquez, que não fazia erros de perspectiva ou outro tipo de enganos na composição, quisesse apenas reproduzir a figura dos patronos, sem se preocupar demasiadamente com a interpretação que os vindouros dariam à obra. Aliás, um século e meio mais tarde, Goya inspirou-se neste quadro para pintar a Família de Carlos IV, apresentando-nos praticamente os mesmos problemas quanto à interpretação. Como poderia estar Goya a pintar os Bourbon, se se encontrava na mesma linha ou posição que a família? Impossível. Talvez quisesse apenas imprimir na obra o cunho e o orgulho de autor, pois naquela época o pintor já ostenta a Ordem de Calatrava que lhe dava um estatuto especial na corte de Madrid. Velásquez pintou bastantes vezes a infanta Margarida e este pode ser mais um retrato, ao qual acrescentou outras figuras na composição e claro, homenageia a aparentemente distante presença dos seus protectores, o casal real. A infanta não parece estar a prestar qualquer atenção especial a quem hipoteticamente diante dela se encontre. A atitude das outras meninas também não denota qualquer preocupação de cumprir as regras da etiqueta cortesã. Se Filipe e Mariana estivessem na sala, alhear-se-iam da presença dos reis? É duvidoso. penso que Velásquez nãos e preocupou muito com uma imagem fiel de um momento no seu trabalho. sabe-se que Filipe o visitava muitas vezes no atelier, mas a presença de Margarida torna a hipótese mais complicada. Assim sendo estaria a pintar o casal real? Que eu saiba, nunca o fez. É sem dúvida a representação de um momento bastante informal, pois Filipe IV era muito escrupuloso com a etiqueta, da qual se considerava como o primeiro servidor. Os relatos dos embaixadores estrangeiros demonstram-no e são muito curiosos para a avaliação dos costumes num século já muito distante e quase de impossível entendimento para nós. Para mais, a figura do monarca não era susceptível de qualquer veleidade interpretativa. Estava lá, existia para ser fielmente representada para a posteridade. Evidentemente, existiam alguns retratos, especialmente aqueles pintados no período final do reinado, em que a tela parece querer demonstrar o estado de espírito do monarca, após uma longa série de desastres (entre os quais o de 1640) que ditaram o fim da hegemonia espanhola na Europa. Mas são casos raros, pois em regra, a representação majestática é apenas isso mesmo.

    Carlos Vidal, perdoe-me o abuso, mas este é um dos seus melhores posts de sempre. O que vale a nossa politiquisse rasteira ao pé disto?

  7. Carlos Vidal diz:

    Caro nuno castelo-branco, concordo consigo, ou melhor, gostaria imenso de concordar plenamente consigo, e quedar-me as horas necessárias (como tenho tentado fazer, pois é daqui que me vem o “sustento”) diante destas coisas, mas as menoridades da política ……… precisamente porque menoridades, têm o condão de nos estragar os nervos, por assim dizer.
    De resto, tem toda a razão, essas menoridades não valem mesmo nada. Quando são menoridades, está bem de ver. Mas uma “ideia” política pode também ser algo de muito forte. Mas onde é que ela existe?

  8. q diz:

    Excelente post, sem dúvida. Felizmente, aqui, ainda se pode conversar sem berraria.

  9. q diz:

    A minha interpretação deste quadro, ou melhor a primeira impressão que tenho deste quadro, ignorando os pormenores e o contexto que nos deu o Nuno C-B, é que retrata um momento de pausa durante as sessões em que Velázquez foi pintando o retrato da infanta. Nesse intervalo, a sala é visitada pelo casal real. Creio que todo o movimento da cena indica o “intervalo” de uma outra cena.

  10. Talvez, q, é bem possível que represente um momento na pintura de uma tela que representasse a Margarida, um dos modelos preferidos do pintor e sem dúvida, o mais bonito membro da família real.

    Carlos Vidal, uma vez mais, repita posts destes, aqui trazendo outros quadros. Até podem ser aqueles do realismo socialista… (sem ironia).

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