Meios de campanha do PS esmagam os da concorrência

É como comparar um TGV com um comboio regional. Estrutura do PS na estrada é colossal. Já os outros partidos apostaram na modéstia
Não falta nada na campanha do PS. Autocarros, palcos móveis, viaturas para todos os serviços, palco especial para Sócrates, material de propaganda com fartura para todos os gostos, jantares pagos e uma organização quase perfeita. Há até motoristas para levar os carros dos jornalistas quando o trabalho aperta.
Já nos restantes partidos, PSD incluído, esta campanha está reduzida ao básico. Poucos carros (no PCP é só um), muito panfleto e mais nada. Já quanto às refeições dos jantares ou almoços/comícios, quem aparece paga.
A máquina
Foram já quatro mil quilómetros, mas, apesar do cansaço, ninguém se queixa. A campanha do PS para as eleições é uma autêntica máquina sobre rodas. E está oleada, como ontem se provou uma vez mais pela passagem no distrito de Setúbal (Trafaria, metro de Almada e comício em Setúbal).
Pelo menos uma dúzia de viaturas, entre carrinhas, carros e um autocarro de apoio – tudo alugado -, mais o Móbil Afixe, um anúncio ambulante que também serve de palco ao ar livre, e ainda um camião que transporta o cenário e o material de som para os comícios. E há ainda um palco especial quando Sócrates entra em campanha.
Ao cabeça de lista socialista, Vital Moreira, foi atribuído um Mercedes E220 preto, com motorista. Mas a cor da caravana – azul-Obama predominante – é dada pela meia dúzia de monovolumes e pelo autocarro que reproduzem os cartazes do PS.
Ao todo, cerca de 35 pessoas, incluindo candidatos (em número variável), compõem a equipa que está a percorrer o país. A rede social Twitter é alimentada por Vital Moreira, enquanto os “miúdos” da JS alimentam o site Nós, Europeus.
Quando o trabalho aperta, os jornalistas podem entregar as chaves do carro ao “motor” desta máquina, Rui Pereira, que já faz campanhas desde Almeida Santos, e a viatura será levada por um “jotinha” e entregue mais à frente. Depois, os jornalistas instalam-se no autocarro, que se torna uma redacção ambulante: wifi, tomadas eléctricas, bebidas frescas, máquina de café e sempre um sorriso bem-disposto. Até há uma pessoa que dá assistência técnica, se for preciso.


O autocarro não é uma inovação. Foi uma ideia posta em prática por António Guterres em 1995, quando a caravana Nova Maioria percorreu o país de lés a lés antes das eleições que deram a primeira vitória pós-Cavaco ao PS. Desde esses tempos que os socialistas dispõem também de um circuito de rádio por onde são comandadas as operações, para que tudo corra sobre rodas e ninguém se perca. Há ainda uma camioneta de material de propaganda que vem abastecer a caravana quando é preciso. E já foi três vezes. Bandeiras, T-shirts, canetas, blocos, calendários, bolsas de telemóvel, pequenos livros com o programa e as fotografias dos candidatos.
A moldura humana dos comícios chega muitas vezes de autocarro, algumas vezes alugado pelo partido, e vem (também) pelo passeio prévio ou pelo jantar. Comida grátis já houve em Castelo Branco e ontem repetiu-se na Trafaria, embora aqui o almoço tenha sido feito à antiga, pelos militantes locais. De resto, os poucos jantares-comício foram de angariação de fundos. Certo é que a caravana, só por si, faz a festa e apanha os foguetes.

PSD modesto
A caravana da campanha europeia do PSD não é grande e tem sofrido alguns percalço de organização. São oito carros que transportam cerca de 30 pessoas, incluindo uma dezena de jovens militantes da JSD que tentam “animar” as acções de campanha – meios muito aquém dos usados numa campanha legislativa, por exemplo.
Ao contrário do que é habitual nesta eleição, não há brindes para dar aos eleitores. Apenas panfletos, com os dez compromissos do PSD. O partido tem apostado mais em almoços/comício que em jantares, mas quem paga é sempre o militante. Meios de apoio à comunicação social não existem. O candidato desloca-se num BMW do partido e tem motorista.
O tipo de campanha também não é muito tradicional. O cabeça de lista social-democrata, Paulo Rangel, que não larga os seus telemóveis, tem apostado muito nas novas tecnologias e nas redes sociais como o Twitter ou o Facebook, e nos contactos, em pequenas salas, com grupos profissionais. As arruadas são poucas e os comícios ainda menos e, nestas eleições, não têm sido alugados autocarros para transportar pessoas para os locais dos discursos.
No que à campanha diz respeito, o caso BPN voltou à campanha do PSD. No final de um encontro com o padre Lino Maia, no Porto, Paulo Rangel foi questionado pelos jornalistas sobre o artigo de Vital Moreira publicado ontem no PÚBLICO. “É evidente que o facto de ter entrado por aqui é uma coisa que o descredibilizou totalmente. Isso é aceite por toda a gente”, afirmou. Quem também pegou no tema foi Morais Sarmento. No programa de debate que tem com Augusto Santos Silva na TVI24, Sarmento afirmou: “Colar o PSD ao BPN é o mesmo que colar o PS à Casa Pia”.
Outro tema que esteve de regresso foi o imposto europeu, na sequência da entrevista que o cabeça de lista do PSD deu ao Jornal de Negócios, cujo título era Não estou fechado a um imposto europeu. Paulo Rangel esclareceu que é “totalmente contra” um imposto europeu sobre as transacções europeias, “no médio prazo”, por entender que “aumenta a carga fiscal e afecta a soberania fiscal dos estados-membros”.

CDS, o mais poupado
Nem brindes nem sequer uma bandeira com o símbolo do partido. A campanha do CDS tem sido a marca da austeridade e faz jus ao orçamento mais magro de todos os partidos com assento parlamentar. Paulo Portas faz questão de salientar que poupar em sacos de plástico é um dever e uma resposta ao apelo do Presidente da República. Na bagagem, o material de propaganda tem-se resumido a panfletos que reproduzem os cartazes afixados pelo partido.
A caravana de campanha tem três carros. O de Paulo Portas, o Volvo do partido, e mais dois alugados: um para Nuno Melo, com motorista, e outro para o assessor de imprensa.
Os jantares são pagos pelos participantes e até agora ainda não houve o aluguer de qualquer autocarro.
Só ontem, em Almada, a comitiva engrossou com mais candidatos da lista e dirigentes locais. Havia bandeiras e, pela primeira vez, algumas canetas para distribuir. O líder do CDS dedicou o dia à segurança.

Descentralizar
Poupar, reciclar, ajudar e descentralizar são palavras de ordem na campanha da CDU. Em vez de chapéus, canetas ou outros pequenos brindes, o que há para distribuir nas arruadas de Ilda Figueiredo são os panfletos de apelo ao voto, autocolantes da CDU e a atenção e cordialidade da candidata. De vez em quando aparece uma banda para animar as arruadas.
Não há caravana e a comitiva de Ilda é mínima: a sua assessora, o do partido e o condutor do carro. Veículo, que anda sempre sem qualquer publicidade e é um familiar de gama média, alugado pelo partido.
A organização das acções de campanha é muito descentralizada: o comité central desenhou o esqueleto das deslocações e as acções em cada local são da responsabilidade dos membros da comissão política do partido que estão em cada região. É por isso que os populares de Cabeção (em Mora) tinham já as suas bandeiras em riste à chegada da candidata e no final as enrolaram para levar para casa e depois entregar à célula local. Sim, porque o material que se vê nas ruas será depois recolhido e arrumado para se usar em próximas eleições.
O significado mais básico da expressão “não há almoços grátis” é aplicada na campanha da CDU: nos almoços e jantares com militantes, estes pagam sempre o preço de custo da refeição. Durante a semana, Ilda almoçou em algumas cantinas camarárias. Como o fez ontem, no Seixal. Ilda dedicou boa parte do dia aos problemas da indústria naval, visitando o Alfeite e a Lisnave.

Visibilidade
O BE apostou na visibilidade pública dos seus candidatos e da sua mensagem política e adaptou quer os meios, quer a actuação no terreno de campanha a esse objectivo, explicou o director de campanha, Jorge Costa, ao PÚBLICO.
Essa aposta é feita de três modos, presença dos candidatos na rua, cartazes e Net. Aproveitando o Verão, o contacto directo com a população tem abundado, embora o BE faça também jantares e comícios. O partido tenta arranjar locais para os jantares/comícios a preços acessíveis, entre oito e 12 euros, que são pagos pelos presentes. Se não consegue encontrar um espaço com esses preços o BE ajuda a pagar.
Não são alugados autocarros para levar as pessoas aos comícios e não há qualquer tipo de apoio ao trabalho dos jornalistas. Ao nível da propaganda, estão a ser distribuídos nas acções de rua duas edições no total de 400 mil exemplares do jornal de campanha Justiça e Economia. A caravana eleitoral desloca-se pelo país no seguinte formato: numa carrinha de sete lugares segue o cabeça de lista, Miguel Portas, acompanhado pela segunda candidata, Marisa Matias, e pelo staff de campanha. E num carro a equipa do esquerda.net, uma equipa jornalística de escrita, imagem e áudio, que alimenta o portal.

[Link para a versão original]
Leonete Botelho, Nuno Simas, Margarida Gomes, Maria Lopes, Sofia Rodrigues e São José Almeida

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2 Responses to Meios de campanha do PS esmagam os da concorrência

  1. E será que os jornalistas agradecem?

  2. Pingback: Decoração de Veículos – Legislativas 2009 – PS « Dreamfeel – Joao Ledo Fonseca

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