RAOUL VANEIGEM (II, conclusão): desejar tudo e não esperar nada em troca

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Raoul Vaneigem

Continuarei certamente a análise da longa (e rara) entrevista dada por Vaneigem a Hans-Ulrich Obrist na última e-flux journal. Mas gostaria de alargar este post além da personalidade de Vaneigem (e da sua ligação e conflito com Guy Debord), à conflitualidade absoluta e sem conciliação entre duas frentes para mim decisivas do pensamento crítico de emancipação que toma como alvo toda e qualquer forma de exploração do humano pelo humano (ou melhor, pelas estruturas do capitalismo), que tem como alvo o “império da mercadoria” e por referência várias crises ou lutas teorico-práticas, onde encontramos quase sempre o pensamento de Marx e, por vezes, Max Stirner e Bakunine (para já não falar, no caso de Vaneigem, de todas as seitas religiosas heréticas de “resistência ao cristianismo”, retomando dois livros deste último: Le Mouvement du libre-esprit, 1986, e La Résistence au Christianisme: Les Hérésies des origines au XVIIIe siècle, 1993).

Tentar-se-á de certo modo perceber o que leva alguns dos autores citados (sobretudo Vaneigem) a comparar Mao e Estaline a Hitler, apesar de se partilhar (Mao, Vaneigem e Debord), sobretudo com Mao (e deixemos Estaline como case study de outro momento), um criticismo absoluto em relação às estruturas do capitalismo e da mercadoria. Portanto, tentar-se-á perceber o que une e separa (lendo a longa entrevista de Vaneigem) autores como Lenine e Mao, por um lado, e Debord ou Vaneigem, por outro lado, vendo em todos eles uma matriz de rejeição do capitalismo e da alienação das relações humanas, e uma ligação comum a eventos como a Comuna de Paris e o pensamento de Marx. Ou melhor, autores e políticos dirigentes partidários como Lenine e Mao e autores que sempre rejeitaram a militância partidária como Debord e os outros situacionistas.

Diria em primeiro lugar que quase nada separa estes dois pólos da prática emancipatória (enquadrados ou no partido ou no “movimento”, a IS, por exemplo), quase nada os separa em face da Internacional liderada por Marx em 1864, a Associação Internacional de Trabalhadores, e quase tudo os separa perante um evento como a 3ª Internacional (Komintern, 1919), na qual o Partido Comunista da União Soviética ligou, por exemplo, o conceito de ditadura do proletariado à organização “partido” (o que não corresponde exactamente ao pensamento de Marx).

Entretanto, quando Debord redige a sua 1ª tese de La Société du Spectacle, ele é claramente marxista: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos”. Sabe-se que a frase é mesmo um détournement de Marx, d’ O Capital, pois ende se lê “espectáculos”, em Marx lê-se “mercadorias”.

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Guy Debord

Portanto, seguindo Marx, Debord procura interpretar a processo da produção capitalista em que a mercadoria e o dinheiro, depois de obtida a mais-valia, se transformam em capital, sabendo nós que tal é consequência da fetichização da mercadoria e da alienação do homem e do seu trabalho. Na mais-valia, o dinheiro que a constitui é uma acumulação de capital (que, cruzando Marx e Debord pode dar “dinheiro-espectáculo” ou “dinheiro-fetiche”); logo, para Debord, o que é vivido é não mais do que uma representação, onde o homem é separado (palavra-chave) do seu trabalho e do seu viver. O capitalismo não produz objectos com valor-de-uso, produz mercadorias. O capitalista acumula capital, porque vive da mais-valia e da objectualização da força de trabalho. A fetichização das mercadorias, a sua espectralidade, a transformação da acumulação capitalista em espectáculos, tudo isso pode ligar-se a uma alienação da visão (órgão e sentido onde assenta todo o conhecimento ocidental, pelo menos desde o Iluminismo) entretanto objectualizada e separada da vontade. Dirá Debord que essa visão instrumentalizada se torna o movimento autónomo do não-vivo. E enquanto movimento autónomo do não-vivo, a visão apenas tem «olhos» para esse não-vivo.

 A objectualização e a manipulação desta objectualização da visão contribui para a alienação do homem numa tríplice faceta: (i) o homem é separado daquilo que produz (e a sua visão também dele se separa); (ii) o homem é separado do seu ser genérico, torna-se uma entidade estranha a si mesmo; (iii) por fim, esta alienação alimenta-se a si própria (como no Matrix, dos irmãos Wachowski).

 

A entrevista de Vaneigem é muito interessante a vários títulos. Para além de se falar nas origens e influências nas origens da IS (onde vamos encontrar essa figura determinante que é Henri Lefebvre, que aliás apresentou Vaneigem a Debord), temos, da parte de Vaneigem, o mesmo diagnóstico de sempre em relação à sociedade de exploração. É a meio do Neolítico que o homem se separa da ligação ritual ou mágica com a natureza, dessacralizando-a pela técnica (ver o Traité de Savoir-Vivre… citado no post anterior). Mas o que se passou não foi nenhum processo de emancipação, foi antes uma forma de alienação que substituiu outra: a natural foi substituída pela alienação social.

 

Quer em Debord, quer em Vaneigem, a libertação deste processo não se dá sem violência. Vaneigem cita como momentos importantes da luta humana pela liberdade a Comuna de Paris, o exército de anarquistas (apoiantes pontuais dos blocheviques) de Nestor Makhno na guerra civil russa, os sovietes (destruídos por Lenine, como ele acusa), e Debord, por exemplo, refere o nosso PREC numa carta que aqui já citei, defendendo a ocupação de fábricas e o armamento dos conselhos de trabalhadores.

 

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Lisboa. Maio, 1974

 

Quanto ao presente e ao futuro, na entrevista a Obrist Vaneigem vê sinais interessantes no presente que se relacionam com conquistas do Maio 68, como o fim da sociedade patriarcal, o fim próximo da exploração dos recursos naturais intensivamente, o fim próximo da fetichização da mercadoria e do dinheiro, da culpa, do desprezo pelas mulheres, do desprezo pelos intelectuais, do despotismo militar e policial, etc, tudo num contexto que apelida de “guerra mundial contra a economia”, recusando ainda o paliativo “social-democrata”, pois para o autor não há qualquer moral no lucro. Defende a desobediência civil, a autogestão completa e os serviços públicos nem estaduais nem privados, mas absolutamente gratuitos, a começar dos museus aos hospitais e escolas. E, quanto ao urbanismo, diz-nos ainda que as pequenas comunidades arrasadas por homens como Haussmann e Pompidou (do século XIX ao XX) voltarão e reconstruir-se.

 

Desejando tudo e não querendo nada em troca, de Vaneigem não demos dizer tratar-se de um optimista nem de um pessimista. Devemos, sim, lê-lo muito atentamente.

 

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Louise Michel, a “communard” que Vaneigem admira profundamente

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