Porca de vida

Cruzei tantas vezes a Segunda Circular no último fim-de-semana que o inevitável acabou por acontecer: apanhado numa bicha, levantei os olhos à altura dos cartazes publicitários e descobri a mais valiosa pérola, sem dúvida ali à minha espera, só não sei desde quando: mostrava um torso feminino muito enxuto que pressagiava/predizia/prenunciava uma dona igualmente enxuta, com uma barriga à mostra, como agora se usam, mas sem piercing no umbigo (o que reforçava a ideia de que se dirigia a mim, que detesto piercings), e por cima uma frase, uma enigmática frase: “Eu [desenho de um coração azul] porco magro”. Felizmente a bicha era longa e eu pude meditar: seria aquela frase uma declaração de amor ou seria um insulto: “I love porco magro” ou, em vez disso: “Eu [ ] porco magro”, logo, “tu [ ] porco sujo”? No meu tempo, a norte da Domingos Sequeira, quando o Dadu controlava as esquinas e o Pituxa ainda roubava drunfos à mãe, “és um granda porco sujo” era a única resposta possível a “’tás armado em mete nojo?” mas entretanto tudo mudou: o Dadu foi preso e o Pituxa morreu (ou vice-versa), os putos falam doutra maneira (“deves ‘tar a achar”) e finalmente apareceram os irritantes “secretos de porco preto” (que eu insisto em chamar “segredos de porco preto”, a malta julga que é para ter graça, mas na verdade é só porque sou meio disléxico). A juntar ao porco sujo e ao porco preto, aparece agora esta xavala com o porco magro: não sabe no que se vai meter, porque a guerra dos três porquinhos vai ser dura (e, perdoem-me a piada fácil, não vai ser limpa não).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

2 Responses to Porca de vida

  1. Morgada de V. diz:

    O incitamento do ódio aos piercings viola o dever de demarcar os factos da opinião, com a agravante de o autor do post usar de trejeitos estilísticos que prejudicam o rigor da informação. Lamentável também que os três porquinhos não tenham sido ouvidos.

Os comentários estão fechados.