Absolutamente real: sobre MERCE CUNNINGHAM

 
Excerto do filme The Collaborations: Cage, Cunningham, Rauschenberg. 1987
Merce Cunningham é hoje um artista de 90 anos.
É um coreógrafo, sim, mas o seu génio e as implicações globais da sua obra (interacção de interesses, conjugação de disciplinas, colaborações…) permitem-nos falar de um “artista”, aliás um dos maiores do século XX. Foi bailarino solista da fundadora da dança moderna americana, Martha Graham, entre 1939 e 1945. No princípio da década de 50, vamos encontrá-lo nesse lugar mais do que mítico (onde pontificava leccionando Joseph Albers, um exilado alemão da Bauhaus, fundamental teórico da cor) e escola charneira para quase toda a geração de artistas americanos pós-Expressionismo Abstracto (ou pós-Jackson Pollock, se quisermos, que morreu em 1956), a famosa escola da Carolina do Norte de nome Black Mountain College. Aí encontraria Cage, John Cage, o seu companheiro de arte e de vida (Cage morreria em 1992), e Bob Berg, Robert Rauschenberg, o pintor de quem Serralves expôs há pouco trabalhos inéditos (!!), criador da “combine painting”, levando o objecto para o seio do Expressionismo Abstracto, também este já falecido.
Com Jasper Johns, Cage, Rauschenberg e Cunningham formaram o quadrunvirato de amigos íntimos mais importante da arte americana do pós-II Guerra. Cunningham é autor de mais de 200 coreografias desde os anos 40, passou com a sua companhia várias vezes por Lisboa (felizmente), foi retrospectivado (com o seu universo colaborativo) na Fundação Tàpies, de Barcelona, e em Serralves, entre muitas outras exposições. No princípio deste mês o Reina Sofia de Madrid programou alguns dos seus “Events”, mostras aleatórias de várias das suas coreografias, aleatório que é uma das ideias centrais de Cage e Cunningham, criador de uma dança não psicológica, ou seja, de um trabalho no movimento per se sem significado, sem narratividade e emoção. Tratando a dança como “meio puro” ou, usando um termo de Giorgio Agamben, medialidade pura, “meio sem finalidade”. Pertence, na minha opinião, a Cunningham uma das melhores se não a melhor definição de dança que li: “Realmente, temos de amar a dança para lhe dedicar a vida. A dança não te devolve nada: nem manuscritos que se conservam, nem pinturas que se mostram nas paredes de museus, nem poemas que se editam e se vendem. Na dança não há nada mais do que um momento fugaz em que te sentes vivo. A dança não é feita para almas instáveis”.
Penso aqui o quanto isto se opõe a uma convencional definição de arte, como sendo aquilo que lançamos contra o efémero, isto é, contra a morte, contra o real, para retomar a definição de mito por Hans Blumenberg (Arbeit am Mythos, 1979). Recorde-se que, para Blumenberg, o mito surge quando o homem tem de abandonar o refúgio da floresta fechada e daí vai recorrer à caça em espaços abertos e viver em grutas. Apanhado na abertura total das savanas, o homem experimenta o medo do real, o medo da “absolutização do real”; e daí surge a realidade mitológica. Ora é isso que a dança enfrenta de peito aberto: a absolutização do real, a savana aberta do efémero, sem precisar de deixar testemunhos.

Channels/Inserts. 1981.

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7 respostas a Absolutamente real: sobre MERCE CUNNINGHAM

  1. Eu diz:

    Caro CV,

    Gostei do post.
    Mas faço uma análise diferente da sua e de Cunningham.
    Quem se dedica de alma e coração a uma arte fugaz, a meu ver, tem recompensa e bem forte: ama intensamente o que faz. Esse amor, essa capacidade de entrega a uma paixão é sempre uma mais-valia, enriquece interiormente esse/a artista, esculpe-lhe diariamente a alma, dá-lhe, ou melhor, “empresta-lhe” sentido à vida, ilumina-lhe o caminho do qual não se desvia…
    A única verdadeira confirmação do valor, ou não, daquilo que se faz é a que vem da voz interior de cada um. Não deixar assinatura no planeta, não será muito mais importante para os futuros herdeiros do que para o próprio? Julgo que será importante para alguns que desigualmente “lutam contra a morte”, contudo para outros não será absolutamente irrelevante? Depois de se morrer que importância poderá ter deixado obra no mundo para esse artista/morto? Quem agradece e valoriza somos nós os vivos ( Eles/artistas mortos que poderão sentir?)
    Shakespeare ou Camões estarão dando voltas no túmulo, preocupados, inquietos ou felizes da vida com o número de leitores? (Não creio!)
    Acredito que para um artista ver a sua arte reconhecida em vida poderá ser bom (mas, mal do artista que dê mais crédito aos aplausos exteriores do que às convicções de valor, ou não, interiores).
    A paixão e a entrega de “peito aberto” julgo ser um ponto comum a todos os criadores/artistas.
    Não lhes devolverá dor, mas também muita força e luz?
    Van Gogh pintaria se estivesse à espera de público ou críticos que lhe reconhecessem valor?
    Van Gogh acreditava no que valor da sua pintura, mas saberia que a sua obra não seria fugaz? (Quem lhe deu valor em vida? Quem o apoiou para além do irmão e da cunhada?)
    Não terá, de igual forma, pintado de “peito aberto” (loucamente, “obscenamente”) quer os seus quadros viessem a perdurar no tempo ou não?
    No caso deste post, dançar é a concretização de um sonho individual, essa é, para mim, a maior fortuna interior, a assinatura (marca, se quisermos) pode não perdurar no mundo, mas fica gravada na alma desse ser humano de forma indelével até à sua morte.
    Gosto da arte que perdura e é partilhada através dos tempos, mas também adoro tudo o que é belo, frágil e efémero (e que só fica registado nalguns, poucos).

    Nota: Peço desculpa, acho que escrevi de mais… A esta hora já não sei fazer sínteses…

  2. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo Eu,
    a sua análise não é nada extensa e é absolutamente pertinente, excepcional.
    Por várias razões. Em primeira e última análise, é verdade que nenhum artista quando cria – e isto é fundamental!! – cria com a certeza de que está a fazer a “obra” que algumas décadas ou séculos depois, a avaliação e reavaliação histórica lhe confere. Quando Picasso se lançou nas Demoiselles d’Avignon (1907) não disse ao seu amigo Braque: “agora vou fundar o cubismo”. É certo que não disse. Mas, também é indiscutível que quando começa qualquer pintura, cerâmica, escultura, o pintor sabe que está a trabalhar num suporte e medium perene – ele trabalha a matéria, cuida da tela (linho), usa as melhores tintas, escolhe os melhores vernizes que protegem a obra da passagem do tempo, etc. Quando os flamengos inventaram a pintura a óleo sabiam que estavam a lançar uma espécie de semente de eternidade, ou pelo menos buscavam-na. Mas isso não é determinante na criação, o pensar em primeiro lugar na eternidade, claro. Aí a obra só poderia resultar ridícula.
    Estava há pouco a preparar uma aula sobre um casal de cineastas que aqui já muito aludi: os Straub, Jean-Marie e Daniéle Huillet, trata-se do filme “Crónica de Anna Magdalena Bach” (1967). Um dos aspectos que Jean-Marie sublinha é que pretende que o público se coloque perante o seu filme como os ouvintes de Leipzig se colocavam ouvindo as obras de Bach em 1727 ou 1730. Isto é, como os ouvintes que nesse momento não sabiam, nem isso lhes interessava, que Bach iria ser o “deus” BACH!!
    É verdade, no momento da criação, estreia, e instantes iniciais, décadas iniciais da recepção nunca sabemos que obra é que estamos a ouvir, o que nele ou nela é ou não é perene ou efémero.
    Mas, por outro lado, há na obra-prima musical algo que se inscreve no tempo, enquanto na dança há algo que se esfuma e perde no tempo.
    À dança chama Agamben “gesto”, “meio puro”, meio sem finalidade, algo que se esgota em si mesmo.
    O tema é complexo e inesgotável.
    Grato pelo seu comentário.

  3. Eu diz:

    Adoro estes temas!
    🙂

  4. Eu diz:

    Caro CV,
    Olhemos, por exemplo, para Édith Piaf e uma das minhas canções preferidas.
    http://www.metacafe.com/watch/yt-M5gpBncR8zI/edith_piaf_non_je_ne_regrette_rien/

    Quanta arte fugaz não terá esta ” doida varrida, tresloucada”, maravilhosa, fascinante – Édith Piaf – criado? Quanta beleza efémera não terá ficado por captar nesta vida audaz? Quanto “bailado não terá ficado por inscrever no tempo”, como diz (e muito bem) CV? O que nos chegou dela não será uma ínfima, ínfima,ínfima… parte da obra de arte em que ela se atreveu a transformar/concretizar a sua forma de estar no mundo? “Driblou” o destino indigente imposto/legado pela sua família, elevou-se, transcendeu-se a pulso. Não nos dirá esta cantiga: “L’oeuvre d’Art c’est Moi – Édith Piaf”?

    Quando canta com imponente, inusitada, entrega-paixão:
    “Non, Rien De Rien, Non, Je Ne Regrette Rien
    C`est Payé, Balayé, Oublié, Je Me Fous Du Passé

    Avec Mes Souvenirs J`ai Allumé Le Feu
    Mes Chagrins, Mes Plaisirs,
    Je N`ai Plus Besoin D`eux”

    Não nos estará a dizer entreguei-me de alma e coração, sofri, sangrei, e também amei loucamente e fui feliz com a maior das intensidades. O que me importa, na verdade, é esta minha paixão genuína “de peito aberto” pela vida, pela minha expressão artística e toda a auto-confirmação que reconheço neste meu talento que tentei potenciar ao máximo e sinto brotar fertilmente em mim?

    Nos versos finais: “Car Ma Vie, Car Mes Joies/Aujourd’hui Ça Commence Avec Toi”, este “Commence avec Toi” não poderá ser interpretado como “avec toi/(moi) Édith Piaf”? Toda a entrega passional de que sou capaz dia-após-dia e que foi fazendo de “mim” quem “me” afirmo, quem ousei e ouso Ser? É como se nos dissesse: “Le feu allume encore ma vie” (mais ‘je n’ai plus besoin d’aucune confirmation exterieur. J’ ai vécu! J’ai pris mon destin dans mes mains, j’ai choisi et construit mon chemin, j’ai soigné mon talent… j’ai pursuit ma passion…”)? Alors, je me fous du passé… Je m’ en fous du prix que j’ai payé, car je m’ai élevé… je m’ai transcendé.

    (nota: “Je repart a zero” interpreto-o como uma ilusão. Ninguém pode apagar o seu passado, impossível partir do zero, mas podemos auto-iludir-nos, oferecermo-nos essa impressão…)

    Encontro nesta extraordinária lição da vida de Piaf um paralelo com as bailarinas/os e todas as outras formas de arte fugazes, frágeis e belas que “ficaram, ficam e ficarão por inscrever no tempo”, mas pairam no ar que respiramos… Podemos senti-las, quase palpáveis… Creio que estas bailarinas de quem CV fala “allument le feu”… de que se alimentam.

    Dor, fogo, entrega, paixão indomável, luz interior, Sublimação! (Ao pé de tudo isto, que importa se mais alguém consegue ou não ler/captar/registar as marcas que pairam no mundo de percursos tão singulares? “Who cares?? Who gives a damn??”)

    Eu interpreto assim… Acho Admirável! Rendo-me por completo! Impressionante!

  5. Ironia Suprema diz:

    My thanks to Dancers,

    Beams of light
    Amazing to see
    Drawing a flight,
    Spinning, graciously.

  6. Ironia Suprema diz:

    1 – A rebelião e a iconoclastia não serão apenas meios?

    2 – Que misteriosas forças impelirão alguns pássaros em cativeiro a cantar?

  7. Eu diz:

    Este bailado de objectos também é muito interessante!

    Magritte:

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