O que vi e ouvi em Lisboa

 

E, enorme, nesta massa irregular,

De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,

A Dor humana busca os amplos horizontes,

E tem mares, de fel, como um sinistro mar

 

O Sentimento de um Ocidental

Cesário Verde

 

 

fanfarrita1

Desta feita não vou escrever sobre Londres mas sobre Lisboa e zonas limítrofes da capital. Desde Outubro que não ia a Portugal e, há uns dias atrás, tive de ir a Lisboa. O que por lá observei deixou-me deprimida, sobretudo a baixa Pombalina. Como um grande elefante no estertor da morte assim esta a baixa: lojas fechadas, outras quase a fechar porque estão as moscas, prédios decrépitos a cair de podre e um marasmo tétrico de cortar a faca. Património cultural, histórico e estético quase morto!

Apenas entre o Rossio e o Largo do Camões vi algum bulício = turistas, algum movimento comercial, alguma vida… A capital portuguesa reflecte provincianismo, pobreza, mal-estar económico, social e politico. Esta bem patente o fosso entre os muito ricos (uma minoria abastada), os pobres oportunistas (uma minoria considerável) e as pessoas que estão no meio a lutar com muitas dificuldades, muitos mesmo a sobreviverem numa pobreza envergonhada porque sao honestos e dignos.

Vi automóveis luxuosos, topo de gama ou vintage que são coleccionados por tipos cheios de “massa” como eu colecciono cromos da vida animal. Também vi grandes negociatas imobiliárias e negócios da China nas mãos de meia dúzia de espertalhões. Porem, também vi o contraponto disto tudo – um sub-proletariado corrupto, vicioso e preguiçoso que vive a custa de subsídios de Reinserção Social, de Desemprego, de atestados médicos, de abonos de família, que roubam descaradamente electricidade publica, etc.

Esta escumalha social gaba-se das suas proezas saloias e desonestas, tem filhos como nós bebemos copos de agua apenas para viverem dos abonos de família, incitam os filhos a serem malcriados nas escolas, tem dinheiro para cigarros, álcool, carros mas, choram se tem de comprar algum material escolar (são os tais que não pagam os manuais escolares que os filhos gostam de riscar e estragar!) não produzem nada e são violentos. Cito o exemplo relativamente recente de um carteiro que levou uma sova de um destes energúmenos “apenas” porque não tinha um vale de dinheiro do Estado para lhe entregar (isto passou-se na zona da Trafaria).

Os senhores governantes de Portugal deveriam deixar os seus gabinetes e passear a paisana para conhecerem a verdadeira realidade social portuguesa. Deveriam ir ao cafés de subúrbio e verem como e que muita gente gasta o dinheiro do Estado enquanto os seus filhos se entretêm a dar pontapés nos caixotes, a vandalizarem jardins, propriedades publicas e privadas, como eu já vi inúmeras vezes. E ai de quem diz alguma coisa, leva uns murros valentes e é humilhado.

E como eu disse atrás, no meio da “sandes social” estão os que tem vergonha na cara, os que sobrevivem em grande aflição sem pedincharem nada: artistas, ilustradores, pequenos comerciantes e pequenos empresários. Alguns dos meus amigos e conhecidos vivem momentos terríveis a nível financeiro e de saúde, pois não tem dinheiro para se tratarem.

Eu gostaria muito de saber para quando inspecções rigorosas aos dois extremos sociais que citei atrás, que politicas de emprego para o futuro próximo, que rumores são esses de um eminente conluio entre a Caixa Geral de Depósitos e o banco de Angola, quem e que vai lucrar e como, que futuro esta reservado ao nosso pais…

No passado domingo 17 de Maio, a banda militar do Palácio de Belém estava a tocar, na rua, uma jovial marcha enquanto as pessoas se entretinham a dar ao pé debaixo de um sol maravilhoso. Aparentemente, parecia tudo bem. Todavia, aquela marcha soou-me a marcha fúnebre.

Londres, 25 de Maio de 2009

 

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18 Responses to O que vi e ouvi em Lisboa

  1. mario diz:

    o 5 dias é do melhor que a bloga tem, bem escrito e nas tintas para o que a maioria diz e pensa, mas a esquerdice, é uma pena, é a esquerdice dos putos ricos

    este texto rompe com a regra

  2. kimosabe diz:

    portanto o problema é que o “coleccionador de carros” pague o rendimento de reinserçao social ao “sub-proletariado corrupto, vicioso e preguiçoso” enquanto o “artista, ilustrador, pequeno comerciante” tenta a muito custo sobreviver?

    ou há aqui uma ironia escondida qualquer ou a lente londrina nao permite vislumbrar uma classe media (ou “sandes social”) um pouco mais vasta do que esse arquétipo romântico. o texto, em geral, é inacreditável.

  3. Chagas diz:

    “E como eu disse atrás, no meio da “sandes social” estão os que tem vergonha na cara, os que sobrevivem em grande aflição sem pedincharem nada: artistas, ilustradores, pequenos comerciantes e pequenos empresários.”
    Cara, coitadinhos dos verticais e eticos artistas, ilustradores…já agora convido-a a sair da sua redoma de vidro londrina e a viver no suburbio. Resumindo o seu texto, a classe média é que é muito afectada(ahahahahah) e dentro dela os ilustradores, artistas, pequenos comerciantes e empresrios é que a atormentam. Sabe ninguem quer saber o que faz o seu circulo de amigos.

  4. Paulo Lopes diz:

    Sobre a baixa estar “às moscas”, até acho bem. É um princípio para acontecer o que melhor servirá a cidade.
    Sobre este assunto, na quinta-feira passada, em conferência na FAUTL, o Arq. Pancho Guedes defendeu a destruição da baixa pombalina e a reconstrução da antiga cidade medieval, essa, de muito maior qualidade urbana, como a cidade medieval de Coimbra.
    Apoio-o incondicionalmente, e só tenho pena que a situação actual na zona da baixa não tenha em vista este fim.
    Hoje, o Arq. Pancho Guedes irá dar outra conferência, desta vez na Univ. Lusíada. Tenho esperança que volte a ser polémico, como tratar como lixo a classe política, desde o Álvaro, passando pelo Gordo….
    Conferência a não perder, hoje às 18h no Auditório 1.

  5. m diz:

    muito bem. vivemos emparedados e sustentamos 2 espécies de trafulhas , pois é.

  6. Paulo Ribeiro diz:

    a menina, uma neófita, viu isso tudo? essa lisboa machadiana, meu deus! realmente, só uma estrangeira ou “estrangeirada” para dar valor ao que é nacional. visse eu lisboa assim, e poderia morrer.

  7. Ricardo Noronha diz:

    A extrema-direita tomou conta do 5 Dias?
    “Porem, também vi o contraponto disto tudo – um sub-proletariado corrupto, vicioso e preguiçoso que vive a custa de subsídios de Reinserção Social, de Desemprego, de atestados médicos, de abonos de família, que roubam descaradamente electricidade publica, etc.
    Esta escumalha social gaba-se das suas proezas saloias e desonestas, tem filhos como nós bebemos copos de agua apenas para viverem dos abonos de família, incitam os filhos a serem malcriados nas escolas, tem dinheiro para cigarros, álcool, carros mas, choram se tem de comprar algum material escolar (são os tais que não pagam os manuais escolares que os filhos gostam de riscar e estragar!) não produzem nada e são violentos. Cito o exemplo relativamente recente de um carteiro que levou uma sova de um destes energúmenos “apenas” porque não tinha um vale de dinheiro do Estado para lhe entregar (isto passou-se na zona da Trafaria).”
    Tanto racismo de classe num só texto é proeza apenas ao alcance de iluminados como João Pereira Coutinho. Caro Nuno, seria bom que alargasses os teus comentários preocupados bem para além do Jugular e da Fernanda Câncio. Talvez começar por aqui não fosse má ideia.

  8. Carlos Vidal diz:

    Ricardo Noronha,
    Leia bem e, em nome da esquerda, como sabe, o próprio Marx caracterizava o lumpen como conservador. É um pouco isso que aqui se descreve: há quem aceite a esmola dos ricos e se satisfaça. Uma transformação social passa por outro tipo de reacção da parte dos colectivos. O “proletários uni-vos” não preconiza “satifaçam-se com as esmolas que vos dão”.

  9. Carlos Vidal diz:

    Além disso, fala-se de uma lógica de pequena corrupção e esperteza que foi aquilo que o PS instituiu em todas as franjas, todas, da sociedade portuguesa.
    Portanto, ler com atenção, sff.

  10. Aristes diz:

    “Esta escumalha social gaba-se das suas proezas saloias e desonestas…”

    E eu a pensar que estava a ganhar balanço para falar do Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Rendeiro e do bloco central dos interesses que os medrou, e afinal a culpa das nossas desgraças é o pessoal do RSI.

  11. Paulo Ribeiro diz:

    portanto, quando o vidal diz “há quem aceite a esmola dos ricos e se satisfaça. Uma transformação social passa por outro tipo de reacção da parte dos colectivos. O “proletários uni-vos” não preconiza “satifaçam-se com as esmolas que vos dão”.”, vê naquele texto machadiano um incentivo à revolta, uma espécie de: – “pegai nas armas e vamos fazer a revolução”. faz sentido. mas que tal usar o rsi para fazer uma procura activa de emprego ou educação-formação e deixar os miúdos ir à escola. pergunto ao vidal, que necessidade têm os oprimidos de deixar de ser oprimidos pelo estado social e passarem a sê-lo por uma qualquer casta de iluminados num regime de ditadura do proletariado? que necessidade? acaso a lição dos bens da terra serem escassos , não serviu de nada? a obsolescência do socialismo cientifico não lhe diz nada?

  12. Carlos Vidal diz:

    O milagre do “estado social” segundo o incansável e “independente” Paulo Ribeiro (que corre por amor ao PS durante 14 horas e não se cansa): recebam a esmola e não protestem – não vigarizem, à volta, o Estado, não assaltem a propriedade de quem meritoriamente a ganhou (multiplicou e perpetuará), não roubem ourivesarias nem queimem automóveis: o “socialismo” guterrista e socratista tomará conta de todos, o meu PS, diz o sr. Ribeiro, é a nova Igreja sobre a terra. Cuidado marginais, e não se lembrem de atacar a democracia.

  13. Carlos Vidal diz:

    Mas o mais importante ainda é um outro factor, que o “socialista” Paulo Ribeiro não ousa colocar em cima da mesa: numa sociedade de ricos e novos-ricos corrompida até à medula, estes “sociais-democratas” não esperavam que o sub-proletariado também encontrasse as suas corruptelas. Esperavam que este sub-proletariado antes se canditasse à santidade.
    Ora, escreve a autora: “Esta escumalha social gaba-se das suas proezas saloias e desonestas”.
    Isto aplica-se a todos, é evidente. O capital assim o determina.

  14. Paulo Ribeiro diz:

    o nosso amigo vidal, e os da sua espécie, via visão marxista da realidade, são adeptos da suspeição generalizada. vejamos: o marxismo contém uma teoria sobre a consciência do seu opositor (qualquer que seja); esta encontra-se necessariamente eivada de erro, uma vez que a sua situação de classe o condiciona no sentido de pensar como um capitalista. até aí tudo bem. é capitalista. ou seja, a consciência não passa de uma mascara de interesses. ora, com o marxista passa-se precisamente o mesmo, com a diferença de que os seus interesses coincidem com os da própria humanidade. onde vai isto parar? a consciência de um marxista é a que está certa. vai daí, quem tem a consciência errada, os não marxistas, torna-se culpado. isso faz do esclarecimento um dever sagrado do marxista, no que não difere assim tanto do fundamentalista islâmico. mas vejamos mais de perto. no marxismo dialéctico, a ideologia equivale invariavelmente a uma consciência errada, pelo que, está ao nível da moral e não da ideologia. é uma espécie de jogo onde diz o vidal ao parceiro: – “vejo uma coisa que tu não vês, a saber, as estruturas que tens nas costas e que condicionam o teu pensamento”. agora, não fora tudo isto assentar num período histórico desfasado destas construções ainda passaria despercebido. precisando, o vidal, qual bardo incansável da mensagem, com a sua harpa, vai dedilhando um compasso roufenho, em que, lendo a nossa amiga e o seu aparente distanciamento, isto é, perspectivando a cidade num todo, a consegue imaginar diferente, que poderia ser bem diferente. estamos portanto na proximidade do movimento alternativo, porque se quer uma cidade diferente, alternativa. bom, o pior, é que não passa de um desejo piedoso. vidal e cara amiga, a sociedade machadiana que a menina tão bem vê, é demasiado complexa para a podermos alterar a nosso bel-prazer. se porventura acreditam nessa possibilidade, isso deve-se ao facto de ainda se orientarem pelas revoluções ocorridas na transição da sociedade tradicional para a moderna e pensarem que podem tratar a sociedade moderna, ou, pós-moderna (segundo alguns) como se fosse tradicional. assim confundem tudo e não se entendem a vós próprios. perdoem a simplificação, mas vejam o caminho que fazem para acabarem no início: viajam da aprendizagem de que é preciso suspeitar (que se aprende na respectiva madraça, na maioria dos casos em casa, vejam o nra, já o vidal não sei) do outro; aprendem o sistema dos sistemas, o marxismo; rejeitam o liberalismo, o moderno comunitarismo de cariz americanóide e, claro está, essa concessão que é a social-democracia; a psicanálise ajuda no robustecimento da teoria da suspeição; condenam o fascismo e a suspeita do fascismo, mas aqui, sentem ser um terreno minado, porque compartilham muito dos seus valores: o anti-semitismo, a doutrina darwinista da luta pela existência, a perspectiva agrária (blut und bodem) e operária e o desprezo pela democracia, pela cultura civilista e individualista do ocidente; depois acresce a teoria critica da sociedade e a abertura da caixa de pandora das ideias, esses mesmo, adorno, marcuse e no fim derrida: é a teoria do discurso, o culturalismo, o descontrutivismo, o feminismo e o multiculturalismo (e o politicamente correcto). cai o muro. estão os meus amigos perdidos. toca de afastar novamente a realidade poluída e toca de olhar novamente a realidade como um medidor orçamentista: aonde será possível a revolução? aonde? e vão escolher lisboa? acaso já falaram com o rúbem, ou ele está demasiado ocupado a tentar escapar dos estilhaços do túnel do marquês e das suas abstenções e coiso e tal, que, para o tribunal de contas, comprometem na mesma. e mais não digo.

  15. Paulo Ribeiro diz:

    ah! e carlos vidal, um dia podemos falar da corrupção que minou a ex-união soviética. qua a fez cair de podre.

  16. Carlos Vidal diz:

    Nada disso, nada disso P. Ribeiro.
    O que a autora aqui diz é muito simples: a paisagem da sociedade portuguesa, do topo aos excluídos (o que ela chama subproletariado) é desoladora, absolutamente confrangedora. Ricos e pobres, tudo aqui é desolador. É uma visão pessimista do seu “p.socialista” Paulo Ribeiro. E dos 30 anos de direita em Portugal. E é a visão da autora.

    Não há aqui grandes comentários sobre qualquer visão do mundo. A autora, pelo seu texto, diz que a paisagem portuguesa, em todos os estratos sociais é o pior possível, e mais: que isso se agrava de dia para dia. É tão simples.
    Para quê, neste caso, uma discussão teórica sobre o marxismo (uma visão do mundo que eu partilho, aliás), mas que aqui talvez não venha a propósito.
    Diz-se portanto aqui que tudo o que está à nossa volta é desolador e deprimente. Percebido?
    Pessimismo?
    Ora, é o que é, e nada mais.

  17. kimosabe diz:

    pior que o texto em si só mesmo o branqueamento do mesmo.

    é vergonhoso defender essa visao da sociedade a preto e branco, como uma sandes social em que o pobrezinho do pequeno artista e pequeno comerciante (essa visao romantizada da pequena indústria cultural como o único que se aproveita) está entre o gordo capitalista que colecciona carros e o “cigano do rendimento mínimo” e ainda por cima mascará-lo com uma (inaudita) interpretaçao marxista.

    nem todo o trabalhador precário “bate no carteiro”, nem todo o adolescente suburbano “dá pontapés a caixotes” e distribui murros a quem o repreende e nem todo o pequeno artista sobrevive sem pedinchar, era só o que faltava. é lamentável ter que se ir repetindo o óbvio e ainda por cima fazê-lo contrariando uma postura de arrogância teórica.

    como sugestao, se “o panorama em portugal é desolador”, melhor usar estas 6 palavras entre aspas do que escrever o panfleto classista ali de cima.

  18. Ricardo Noronha diz:

    Caro Carlos Vital, olhe que não, olhe que não…
    A sociologia não parece ser o forte de quem escreveu o texto, que reproduz todos os lugares comuns com que o «povo» se vê descrito pelas elites portuguesas. Cito ao acaso: “tem filhos como nós bebemos copos de agua apenas para viverem dos abonos de família”. Se isto não é um preconceito idiota e uma simplificação grosseira – para além de transpirar um moralismo bafiento próprio do guarda serôdio – fica ao juízo de quem lê.
    Da parte que me toca não subscrevo qualquer tipo de retórica moralizante deste género. Acho que se os pobres utilizam todas as estratégias de sobrevivência ao seu alcance, devem ter boas razões para o fazer, do roubo ao subsídio. E se nisso imitam a burguesia medíocre cá do burgo, só lamento que não a alcancem em cinismo e pragmatismo, deixando-se ainda explorar por ela. Se o proletariado português tem algo a lamentar é precisamente o facto de não ser suficientemente preguiçoso.
    De resto, bom seria que alguns dos artistas, cuja sorte se lamenta no texto, fossem radicalmente preguiçosos. Do género, deixarem de fazer aquilo a que chamam «arte».

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