Bela Vista reloaded

O artigo da Fernanda Câncio no DN é muito interessante. Não pelo que diz, mas sobretudo pelo que omite.Tenho uma amiga minha do bairro que – depois de lido o texto em que se garante que o Estado não abandonou a Bela Vista, que o bairro está integrado no resto da cidade de Setúbal, que as casas são boas, que há autocarros, recolhas do lixo e uma piscina – , disse-me o seguinte: ” Vou convidá-la a jantar lá numa das pracetas tão acolhedoras. Quando os vermes do lixo não recolhido começaram a subir pelas suas botas, voltamos a falar, ou quando cair um pedaço de parede na cabeça dela, também.. pergunto-lhe se ela quererá ir à casa da prima da minha mãe. é um agregado de 7 pessoas, a casa tem dois quartos, a cozinha 2×3 m2 e como os corredores são comuns, os vizinhos bêbados mijam na varanda que … imagina, dá para a cozinha. Mas é maravilhoso morar na Bela Vista! Como ela diz, os prédios azuis, têm uma Bela Vista para o Sado! mas as suas casas estão absolutamente degradadas, não têm parapeitos nas janelas, nem azulejos, tudo está a cair e cheira mal”.
Quem está à porta do Centro Jovem Tabor, fechado e abandonado há 5 anos e vandalizado depois, onde os jovens tinham formação profissional, percebe que isso do Estado investir nos jovens da Bela Vista, é um bocadinho mais complicado do que a pulsão em propagar as virtudes governamentais.
Aquilo que mais me impressiona no artigo são as diferenças gritantes em relação a um excelente trabalho da Fernanda Câncio, no livro “As Cidades Sem Nome”. Aqui se fala das multiplas desistências das entidades que administraram o bairro e que o deixaram degradar. Aqui se narra o desespero dos habitantes que pensam: “olhem para o nojo de bairro em que vivemos. Olhem para o nojo que nos deram. Como podemos viver aqui? Como poderemos ser aqui felizes?”. Aqui se denuncia a falta de infra-estruturas, as limitações da rede de transportes públicos. Aqui se revela a ideia que os habitantes têm que estão fora de Setúbal. Uma percepção que, na minha opinião, se explica pela pobreza, a discriminação, mas também pelo o urbanismo: o bairro foi construído, propositadamente longe de Setúbal, só com o crescimento da cidade é que as malhas urbanas da cidade e do subúrbio se tocam, embora se evitem.
É verdade que o livro coincide com o artigo em pelo menos uma coisa: a menção a uma piscina. Acontece que no livro se exibe a fotografia da piscina das Manteigadas que está a mais de três quilómetros da Bela Vista e no artigo fala-se da pequena piscina da entidade particular ACM, como a prova provada do Estado social. Fora isso, não falam do mesmo bairro.

Adenda: Parece que segundo a autora do artigo do DN, sou desonesto pq não concordo com o artigo dela e acho que o que ela escreveu no livro é bastante diferente. Tenho alguma dificuldade em argumentar com uma pessoa que confunde uma diferença de opinião com uma troca de insultos (desonesto, não sabe ler, etc…). O facto de ter ido meia duzia de vezes à Bela Vista não a faz , obrigatoriamente, a maior especialista na matéria. Continuo convencido, provavemente erradamente, que as pessoas que lá vivem há 30 anos sabem um pouco mais, do que ela, sobre o que é viver nesse bairro de Setúbal. Finalmente, acredito piamente que um dia a senhora vai acordar e descobrir que não é o centro do universo. Eu, por mim, tenho mais que fazer do que a aturar. Basta-me vê-la nas capas das revistinhas do coração para matar saudades e chega-me.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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