Ainda o estranho caso dos arquivos do 5dias: último acto (espero eu)

Desde há muitos anos que escrevo listas, sinto-me perdido sem elas. Começaram em papéis pobrezinhos (era jovem, não pensava) e evoluíram na meia-idade para uns caderninhos com capas de cores variáveis, mas invariáveis no tamanho, no preço e no fabricante: Clairefontaine, 14 x 9cm, 2,15€ em qualquer ponto do Hexágono. Há duas ou três semanas, dei por um no bolso interior esquerdo do casaco: péssimo augúrio, o lugar deles é no bolso direito. Depois, lembro-me, nítido, do acto de trocá-lo com a carteira (a quem pertence por direito o bolso direito), mas aonde é que isso se passou não sei, e essa foi a última vez que o vi, o meu pobre caderninho, porque depois foi a terrível descoberta da perda, a seguir as buscas falhadas (que pararam praticamente toda a cidade) e finalmente a constatação, entre todas dolorosa, de que não havia mais esperança de o encontrar. Entre as amizades, várias houve que sugeriram um apelo público, nos grandes meios de radiodifusão, e uma vasta batida pelo lado esconso dos jardins da cidade (o que eu mais frequento), que pudesse trazer o meu caderninho de volta, são e salvo, até ao lado direito do meu peito. A ideia comoveu-me, confesso, mas assustou-me também: porque subitamente imaginei que essa grande caçada à minha Maddiezinha quadriculada, de 14cm por 9, pudesse acabar mal, com Paulos Pintos de gatas à cata do meu caderninho, desejosos de dar a conhecer à maralha os lados mais negros das minhas listas – e acreditem que os há, amici miei, listas que de tão tenebrosas mais parecem galinhas pretas com farofa. Optei por isso pelo silêncio, porém tarde demais: porque este fim-de-semana, numa cidade estrangeira, depois de ter bebido meia garrafa de Ballantines pelo copo de lavar os dentes do hotel, que não lavei nem limpei de impressões digitais, percebi no olhar de mega-toneladas da gerente, ao voltar de um inocente passeio nos alentours, uma censura feroz que não enganava: o Clairefontaine fora encontado, os dados foram cruzados e eu estava inapelavelmente f. Nada de que a outra metade da garrafa de Ballantines não pudesse curar-me, claro, mas eu percebi a alusão e o aviso implícitos e por isso dei do aeroporto as instruções que se sabem (e a que o título deste post se refere), e que ainda foram a tempo de aplacar a ira dos Altos Poderes (you know who). Ontem pude assim aterrar e dormir na minha própria cama, mas da maneira que as coisas estão só me pergunto: até quando?

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SEXTA | António Figueira
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